A outra Serra da Estrela

Existe uma outra Serra da Estrela, longe da multidão e perto da solidão. Foram esses trilhos que, pelas pegadas do Pedro e do Tiago, nós percorremos, entre paredes graníticas, debaixo do céu e ao lado da neblina. Por trilhos, onde apenas alguns pastores de idade indefinida e pele gretada, pelo frio e pela vida, se atrevem a trepar.

Assentámos acampamento no Covão D’Ametade, depressão sedimentar de origem glaciar, que forma um belo bosque de altas e esguias bétulas, rasgado por transparente e gélido riacho e atapetado por verde e fresco musgo, onde outrora repousou uma lagoa gelada. Uma parede de fragas esculpida, em pedra cinza, magnífica e nua, protege o bosque húmido; os Cântaros Magro, Gordo e Raso, chamam por nós.

O primeiro dia foi vivido entre nuvens e arribas, numa ascensão por largas horas. Com mochilas partilhadas, agarrados à pedra dura e fria, por entre frestas rasgadas na rocha e desassossegados equilíbrios, imitando as cabras da montanha.

Findo o dia, regressámos ao bosque de bétulas, acenderam-se os fogões e bebeu-se a sopa quente, para temperar a noite fria.

Erguida a noite escura e límpida, onde a Lua e as estrelas sorriam, sobre o vale glaciar do Zêzere, enquanto as ninfas já dormiam, partilhámos conversas soltas salpicadas com cerveja, porque como alguém escreveu; ‘’…cativar é criar laços…’’.

A noite adormeceu-nos, protegidos por quentes sacos cama, onde descansámos corpos e espíritos e, na manhã seguinte, quando uma camada de gelo cobria as tendas, ressuscitámos felizes, num luminoso domingo de Páscoa.

No segundo dia, os percursos levaram-nos pelos cumes arredondados, até ao vale do Rossim, onde outras paisagens, suavizavam os olhares.

O tempo voou na serra, a hora da partida chegou célere e entre abraços amigos nos despedimos.

As saudades ficaram na serra e nos nossos corações, porque a montanha tece laços, que o acaso cria. Cansa o corpo, mas fortalece o espírito, desenvolve um companheirismo solidário, numa mão que se estende e num abraço que se partilha. Encontrámo-nos como desconhecidos, iniciámos a subida como companheiros de aventura, chegámos ao topo como amigos e descemos como irmãos de afectos partilhados.

O Pedro e o Tiago, com nomes de apóstolos, foram os amigos que souberam transmitir a arte de respeitar e conhecer a montanha. Com eles foi fácil sentirmo-nos aprendizes de feiticeiros.

Rui Neves Munhoz, 2012.

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