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Uma viagem numa montanha.

Não sei quantas viagens, locais, regiões ou países, já visitei. Não somo carimbos, nem passaportes caducados. Prefiro guardar memórias, afectos, imagens e saudades que perdurarão, enquanto a memória não esquecer.

Hesito entre o Kilimanjaro, o Atlas, o trilho do Inca e os picos de Europa, mas decido-me pelo, desconhecido Chacaltaya, Andino e Boliviano, maciço austero e magnífico, olhando do alto dos seus mais de 5.000 m, o lago Titicaca, ao longe e a capital da Bolívia, aos seus pés.

O centro histórico de La Paz, construído no fundo da cratera, transforma-se e trepa, em miseráveis construções, pelas encostas que parecem esmagar a cidade. Mas do céu, desce a espantosa luminosidade com que os deuses, Quechuas e Aimaras, brindaram os Andes e uma vez chegados à bordadura da cratera, o sol Nascente despeja cores diáfanas sobre as encostas nevadas do Illimani e agrestes do desolado Chacaltaya.

Iniciámos a ascensão, em três veículos todo-o-terreno, num percurso de 30 quilómetros, numa manhã gelada de Janeiro, coberta por um céu protector, que oscilava entre tons de azul e de chumbo. O caminho pedregoso e o escasso oxigénio e a transparência do ar, pintavam de cores e encantos a natureza, salpicada de pequenas lagoas, em tons de azul e verde.

As últimas centenas de metros, em caminhada lenta e cautelosa, até aos 5.295 metros, da mais alta e desolada estação de esqui, cortaram-nos as palavras, mais do que a respiração. Esperava por nós um casarão desolado, degradado e abandonado. Apenas nós e a natureza, numa magnífica e vasta solidão, tão bela quanto inenarrável. A neve escasseava, mas as línguas de gelo, desciam ondulantes da montanha. Aí permanecemos por algumas horas, até que a curva descendente do astro rei, nos ordenasse a descida. Foi perfeito, esse dia em Chacaltaya e, ali cheguei à conclusão de que; enquanto a cidade nos divide e torna solitários, a montanha faz-nos solidários, porque o sofrimento, ou as dores e o cansaço de um, se tornam de todos e a alegria de cada um, é a felicidade de todos. Trepar uma montanha, não tem que ser necessariamente um acto de solidão, pode também e muitas vezes, ser uma súmula de gestos de partilha, de vivências fraternais de cumplicidades e afectos. Porque cada um dos nossos companheiros de aventura, é nosso irmão de coração e, depois de subirmos uma montanha, sentimo-nos como se apenas descessemos uma colina.

Rui Neves Munhoz, texto escrito para ”Nomad”, em 2012.

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