O Comboio dos Contrabandistas

Era uma vez um comboio que circulava na planície Balcânica, entre Belgrado e Sófia, algures na fronteira entre a Sérvia e a Bulgária. No inverno do nosso contentamento, acontecia a noite de todos os perigos. Um grupo de Portugueses, sonhava, entre lençóis e cobertores, com as viagens e aventuras que dão sabor à vida, que conferem o prazer da aventura à monotonia da espuma dos dias.

Na terra de ninguém, os guardas fronteiriços, irrompem na carruagem cama e, ordenaram a mudança para a carruagem de assentos, onde já não conseguimos inventar lugares sentados. Acontecia então, uma exaustiva, inspecção da carruagem, tectos falsos, portas e armários, foram levantados e abertos, mas em vão, nada de proibido, havia de ser encontrado. Quando o comboio entrou na Bulgária, os passageiros, sorridentes e cúmplices, como se nós fossemos invisíveis ao olhar, por artes de magia, fazem aparecer ferramentas e iniciam uma desmontagem exaustiva dos tectos falsos, abrem portas e portinholas. Como a necessidade aguça o engenho e os Sérvios são excelentes ginastas, eles esgueiram-se por entre a dupla carroçaria exterior da carruagem e até trepam ao tejadilho, na madrugada gelada. Em poucos minutos, começam a surgir, volumes de tabaco, em grande quantidade e, como numa linha de montagem, eles abrem os volumes e distribuem o tabaco. Depois da tarefa cumprida, repõem as peças e painéis desmontados, para que não restem provas do delito. No centro do corredor, uma mafiosa madrinha, distribui ordens, dinheiro e coordena as operações logísticas. Todos os ocupantes da carruagem, participam da negociata, todos recebem a quota-parte, até os revisores e condutores, se apressam velozes e recolher dinheiro e tabaco. Já próximo de Sófia, o comboio diminui a velocidade e os mancebos, saltam para a neve, agarrados ao respectivo saco de tabaco.

No final do percurso, nós e a madrinha, cruzámos discretos olhares de cumplicidades partilhadas e desembarcámos juntos, numa madrugada de chumbo, como personagens de um filme do Kusturica, na estação central de Sófia. Ao fundo, os caracteres em alfabeto cirílico, indicavam outros destinos, percursos e outras vidas.

Uma noite no ‘’expresso do oriente’’, transformara-se numa madrugada no ‘’comboio dos contrabandistas’. Ainda bem que assim aconteceu, pois ficou esta aventura para contar.

 Rui Neves Munhoz; publicado no ”Magazine Nomad”, em Março de 2012.

(uma viagem de Inverno, através dos Balcãs, inventada pelos meus Amigos Inácio Rozeira e Tiago Costa. Consultar: www.nomad.pt).

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