Nasci no início da década de sessenta, no seio de uma família republicana e laica, amante dos livros e das viagens, com vastas raízes ibéricas. Desde cedo habituado a viajar; as primeiras aventuras aconteceram por terras de Marrocos, numa carrinha 4L, com os pais e os 4 irmãos, por alturas dos revolucionários dias de Abril de 74. Nesses tempos já longínquos, tudo parecia fácil e em cada dia acordava-se, como se, se pudesse modificar o mundo. Então era feliz, mas não o sabia.

A leitura cedo se tornou um prazer, um vício e uma devoção. Enquanto os meus colegas de escola, jogavam à bola na rua, eu iniciava-me na leitura de Alexandre Herculano e Eça de Queiróz, mas sempre encarei isso como uma atitude normal, nunca me senti, nem fui, discriminado. Essas décadas de setenta e oitenta foram bem mais tolerantes e estimulantes do que este frustrado e complexado século XXI.

Inevitavelmente, nasceu o gosto da escrita, de uma forma normal e espontânea, algumas vezes relacionada com as viagens, outras nem tanto.

Muitos anos depois fui um estudante frustrado de Direito, em Coimbra. E continuei a viajar e a escrever. Não terminei o curso e não fiquei arrependido. E continuei a viajar e a escrever. Trabalhei por mais de uma década numa empresa privada de Coimbra. E continuei a viajar e a escrever. Saltei para o, agora tão mal amado bode expiatório, de todas as culpas do regime, o sector público. Desde 1997, permaneço na Câmara Municipal de Cantanhede, como assistente técnico, desenhador especialista, ou seja; pedreiro teórico. E continuo a viajar e a escrever.

Em cerca de 25 anos de trabalho, nunca o vil metal, me foi suficiente para adquirir um carro novo, mas apenas para viajar e comprar livros.

Gosto de viagens organizadas, apenas o quanto baste, para que possam passar a ser improvisadas, quando a vontade me falar mais forte do que a razão. Encaro cada viagem como um acto que pode ser solitário, ou um conjunto de afectos partilhados com companheiros e amigos. Não colecciono carimbos, nem passaportes caducados, não sei quantos lugares visitei, encontro sempre novos amigos e vivências e cultivo os laços indeléveis da amizade, pelos lugares do mundo. Apenas guardo imagens e sentimentos, enquanto a memória não me faltar, porque depois disso, já não me sentirei com forças para viver. Porque a maior e mais suprema liberdade, é poder decidir, não apenas quando partimos para uma nova viagem, mas também quando partimos da vida.

Parto sempre tranquilo e sem preconceitos, regresso sempre incomensuravelmente mais rico, porque conheci pessoas e aprendi muito, porque me tornei mais tolerante e mais solidário. Em cada viagem que fiz, descobri, que somos todos iguais, porque somos todos diferentes. Continuo a escrever, num registo caótico e desorganizado, sobre viagens e, não só. Tenho muitos livros escritos e guardados na gaveta, nenhum publicado, mas não me sinto escritor frustrado, porque ás vezes, amigos, ou amigos desses amigos, me pedem esses manuscritos para saborear.

Ainda não me arrependi de tudo o que fiz, só do que ainda não pude fazer.

Rui Neves Munhoz, texto escrito em Outubro de 2012.

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