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O Ramayana, um épico Hindú.

O Ramayana é um poema épico sânscrito, da mitologia Hindu, grandioso e monumental, que conta as fabulosas histórias do príncipe Rama e da sua mulher Sita, seduzida por Ravana, um rei malvado, de Lanka. Deverá ter sido escrito entre os séculos I e V a.c., mas penas chegou até nós, em textos Indiano do século XI.

A cultura e imaginário Hindu, transmitidas através do Ramayana, acontecem através de alegorias, ao longo do desmesurado poema. Criando influência na escultura, literatura e arquitectura da Índia e Indochina, Indonésia e Filipinas.

No reino Khmer do Cambodja, os fabulosos baixos relevos de Angkor, contam-nos ao longo de centenas de metros, a epopeia de amores e desamores, guerras e traições, de príncipes que queriam ser deuses e de deuses, com características antropomórficas, que queriam ser humanos.

Tive o privilégio de percorrer o complexo histórico e arquitectónico de Angkor e de saborear as centenas de metros de baixos-relevos do templo de Angkor Wat, (século XII), na companhia do meu amigo Jorge Vasallo, no dia 1 de Janeiro de 2013. Não há melhor forma de começar o ano de todos os perigos, neste inverno do nosso descontentamento. Se sobrevivemos ao hipotético, fim do mundo Maia, em Dezembro de 2012, também ultrapassaremos 2013! Ao longo de horas, o Jorge deliciou-nos com uma fabulosa história de homens que julgavam ser deuses e, de deuses que agiam como homens.

Os meus companheiros de aventura foram, além do Jorge; a Ema e o Manuel, a Catarina, a Joana, a Inês, a Lu, a Mariana, a Patrícia e a Olga e estas linhas são para todos eles, porque é a atitude, que faz o viajante e a viagem.

O Jorge é conhecedor apaixonado da Indochina e das múltiplas e infinitas facetas culturais do Sudeste Asiática. Como tal, contou-nos o fabuloso Ramayana. Se não me faltar o engenho e a arte, tentarei contar-te, leitor paciente, uma reduzidíssima versão, desta monumental obra:

Rama, a personagem principal do Ramayana, não é apenas uma personagem literária, ele é uma encarnação de Vixnu, parte da trindade Hindu, que tem por missão, mostrar-nos o caminho correcto na vida.

As ‘’estórias’’ do Ramayana, são semelhantes ás de qualquer épico, onde a mitologia e a realidade histórica, se misturaram para ajudar o ser humano, fraco, indeciso e influenciável, a encontrar um caminho. Qualquer que seja esse caminho, o verdadeiramente importante, é a procura, o percurso. O Ramayana é ‘’apenas’’, a bengala, a ajuda, para a busca.

Brama, o criador do universo, concedeu ao rei mau; Ravana, que havia feito muitas piedosas penitências a bênção de não poder ser morto por deuses, demónios, ou espíritos. Mas o demónio Ravana, continuou a executar terríveis maldades, então, os outros deuses, acorreram a Brama, para pedir a morte de Ravana. Brama, pede a Vixnu que tome a forma humana, para castigar e matar Ravana.

Entretanto, muito longe dali, o rei da Ayodhya, um homem bom, sem sucessores, pediu aos deuses, um filho. O deus Vixnu nasce como filho do rei e fecundou as 3 rainhas, nascendo 4 filhos, um deles foi Rama. Os rapazes cresceram, fortes e belos, mas Rama e um irmão, acabaram por partir, ajudando um sábio que pediu protecção contra os demónios que o atormentavam. O sábio compensou-os com várias almas celestiais.

Mais tarde, Rama, ao passar perto de um outro reino, ouviu falar de Sita, a bela e pura filha do rei, que havia anteriormente estabelecido; que qualquer candidato à mão de Sita, teria que conseguir vergar o arco do deus Shiva. Sem qualquer dificuldade o belo e forte Rama, até conseguiu quebrar o arco. Casado com Sita, regressam ambos a Ayodhya.

Quando o velho rei, seu pai, cansado de tanto tempo governar, prometeu o trono ao filho, bem amado, Rama, o povo celebrou., E uma das esposas do velho rei, ciumenta, conspirou para colocar o próprio filho, no trono lembrando ao velho rei, uma promessa antiga. Muitos anos antes, essa mulher despeitada, havia salvo o rei, colocando um dedo, na roda partida da carruagem real, salvando o rei, mas perdendo o dedo. Então, o rei agradecido, havia-lhe concedido 2 desejos, a realizar no futuro. Estava na hora da rainha cobrar os desejos e, ela pede que seja o seu filho, Bharata, a ser coroado como novo rei e que Rama seja enviado para um exílio de 14 anos, numa terrível floresta. O velho rei tem que cumprir a antiga promessa e Rama, cumprindo a vontade e honrando a promessa do pai, parte para o exílio, levando a fiel Sita e um dos fiéis irmãos. O velho rei, não resiste ao desgosto e morre com saudades do filho muito amado.

Rama, um dos seus queridos irmãos Lakshmana e Sita, abandonam Ayodhya, atravessam o sagrado Ganges e instalaram-se na terrível floresta, onde encontram um lugar idílico e aí, constroem o seu paraíso. Na floresta vive também outro velho rei, com quem Rama trava fortes laços de amizade.

Quando o filho da rainha má, Bharata, regressa a Ayodhya e, sabendo-se rei, culpa a mãe do exílio de Rama e da morte do velho rei, pai de ambos. Vai à floresta, encontra Rama e pede-lhe para ocupar o trono, mas Rama recusa, cumprindo a promessa do velho pai. Bharata pede as sandálias a Rama, regressa a Ayodhya, coloca as sandálias de Rama no trono e instala-se numa aldeia vizinha, governando como representante de Rama. Bharata promete matar-se, se Rama não regressar após os 14 anos de exílio.

Um dia, uma irmã do pérfido Ravana, foi à floresta e vendo o belo Rama, apaixona-se por ele, transforma-se numa bela jovem e seduz Rama, mas ele não cede às tentações. Então ela tenta seduzir o irmão de Rama, Lakshmana, que também vivia no paraíso, dentro da floresta, mas ele também não cede e a irmã de Ravana, lança as culpas a Sita. O irmão de Rama, salva Sita, cortando o nariz e as orelhas da irmã de Ravana. Ela foge, queixando-se a Ravana e, este resolve matar Rama para ficar com Sita. O malvado Ravana, pede ajuda a um demónio e, este transforma-se num cervo dourado, cumprindo um antigo desejo de Sita.

Sita pede a Rama, o cervo dourado. Quando Rama se aproxima, o cervo demónio começa então a gritar, para enganar Lakshmana, que pensa ser Rama a chamá-lo. Antes de proteger Sita, numa cabana, o irmão de Rama, Lakshmana, desenha um círculo na areia, pedindo-lhe para não abandonar o círculo protector. Mas eis que surge um idoso pedindo comida a Sita, ele abandona o círculo e o pérfido Ravana, rapta Sita, levando-a voando, num carro de fogo. O velho rei, amigo de Rama, que vivia na floresta, ainda tenta libertar Sita, mas Ravana corta-lhe as asas.

Quando Rama e o irmão, Lakshmana, regressam ao seu paraíso na floresta, encontram apenas o idoso rei amigo, derrubado. Souberam então do rapto de Sita.

Na incessante procura de Sita, eles chegam a um outro reino, Vanara; onde o trono e a esposa do legítimo rei, Sugriva, havia sido também roubados, por Vali, irmão do rei. Rama ajuda o rei de Vanara, a recuperar o trono e a mulher e, em troca, este irá ajudá-lo a encontrar Sita.

As buscas não surtem efeito, até encontrarem um velho irmão do rei amigo da floresta, este também com as asas queimadas, por ter voado demasiado perto do Sol, mas está dotado de uma visão de longo alcance. Ele conseguiu ver Sita, aprisionada num jardim, lá longe a Sul, em Lanka.

O rei Sugriva, de Vanara, envia um sobrinho e o general macaco Hanuman, rumo ao Sul, até ao oceano que os separa da ilha de Lanka. Hanuman estende o corpo e forma uma ponte até à ilha, depois transforma-se em gato e entra na cidade fortaleza de Ravana, descobrindo-o no palácio, mas sem Sita. Finalmente encontra-a, aflita e vigiada, por terríveis monstros. Hanuman assume a forma de um pequeno macaco e entrega a Sita o anel de Rama, mas Sita insiste em que deve ser o próprio Rama a salvá-la, para que todos acreditem.

Ravana aparece, aprisiona Hanuman e ameaça Sita com a tortura. Chega a ordenar a execução do general macaco, mas a intervenção de um íntegro irmão de Ravana, salva Hanuman, que escapa, de cauda queimada e chega ao continente, avisando Rama, do cativeiro de Sita.

Rama retira-se para uma longa meditação de 13 dias, sem comer, nem beber e, eis que lhe aparece, o deus dos oceanos, Varuna, que sugere a Rama, a construção de uma ponte sobre o oceano, até à ilha de Lanka, prometendo que não destruiria essa ponte construída por ordem de Rama. E assim se fez.

A batalha de Lanka, a maior das batalhas inicia-se. O irmão bom de Ravana, abandona-o e aconselha a paz com Rama. Até os deuses combatem; Vixnu e Indra apoiam Rama e os demónios Ravana. Mas a guerra parece não ter fim e os mortos são já muitos, quando se decide, dever ser o vencedor, determinado por um único combate, entre Rama e Ravana.

Os deuses estupefactos assistem aos tiros certeiros do arco de Rama, que arrancam a cabeça de Ravana, mas nova cabeça volta a nascer. Até que o integro irmão de Ravana, diz a Rama para atirar ao umbigo do pérfido. Então com a morte de Ravana, música celestial e flores, nascem nos céus. Rama, acedendo aos pedidos da mulher viúva de Ravana, autoriza-lhe um funeral real.

Sita, finalmente reunida a Rama, ouve do esposo amado, amargas palavras; Rama rejeita-a, por ela ter habitado a casa de Ravana. Sita reitera a sua pureza e manda acender a pilha funerária, pois não suporta viver com o desprezo de Rama. Quando ela mergulha nas chamas, o deus do fogo salva Sita, provando a sua inocência e verdadeira palavra. Rama recebe-a e ela perdoa-lhe a desconfiança. Toda esta encenação do fogo purificador, havia sido decidida pelos deuses e, Rama sabia que assim aconteceria e que jamais Ravana, conseguiria sujar a pura Sita, sem que as suas malvadas mãos se queimassem.

Rama e Sita regressam à próspera cidade de Ayodhya, em triunfo, mas novamente a suspeição recai sobre Sita, pois os habitantes da cidade, dizem ter sido Sita acariciada pelo malvado Ravana. Então Rama, expulsa-a para a floresta do anterior exílio. Mas Sita vai grávida e, no pequeno paraíso da floresta, dá à luz 2 gémeos; Lava e Kusha, que crescem belos e fortes. Decorrem 20 anos e Rama, em Ayodhya, começa a ter remorsos, por ter morto Ravana, que era filho de um Brâmane. Rama decide soltar um cavalo, na floresta, para agradar aos deuses. Um ano depois, quando os homens de Rama, tentam recuperar o cavalo, encontram-no protegido por 2 corajosos e magníficos homens, os filhos de Rama. Então este, arrependido, regressa à floresta, pedindo perdão a Sita, pede-lhes que regressem com ele a Ayodhya. Mas para Sita, era tarde demais, muitos anos haviam decorrido e apesar de o seu amor por Rama não ter diminuído, de se lhe ter mantido fiel, em corpo e em espírito, então que a terra mãe a leve com ele. A deusa da terra, ouvindo as sinceras e comovidas palavras de Sita, ergue-se do solo, num tronco sentada e, leva Sita rumo à felicidade eterna, no paraíso, enchendo de temor os arrependidos e não crentes, que por de Sita duvidarem, passaram a cumprir longas penitências.

 

Esta belíssima história, continua a fascinar o imaginário de origem Hindu. Todas as personagens se apresentam como meras representações, ou imitações dos deuses. Todas são heróis, ou anti-heróis, todas gozam do favor, ou desfavor dos deuses, em determinado momento. Mas todas assumem, algumas vezes, características antropomórficas, igualando-se aos meros humanos, como virtudes e defeitos. O Ramayana, como qualquer épico mitológico, acaba por se resumir à luta entre o bem e o mal, sendo que nenhum, está completamente definido nem é imune à influência do outro. Aos humanos, ou seus símbolos, verdadeiras imitações dos deuses, cabe-lhes sempre o livre arbítrio, a capacidade de decidirem, de escolherem um caminho e de assumirem as respectivas consequências.

O Ramayana apresenta-nos conceitos do Hinduísmo clássico; do bem e do mal. Parte de verdades geográficas e históricas do sub-continente Indiano, evoluindo para um arquétipo de; humanos, deuses e demónios, em permanente conflito, à imagem da vida real. O Ramayana criou um imaginário colectivo que se foi transmitindo, de geração em geração, não apenas pela palavra escrita, mas também por muitas versões orais, todas adaptadas aos contextos de cada região da Índia, de todo o Sul da Índia e do Sudeste da Ásia. O Ramayana sobreviveu a tempos pretéritos e assumiu versões contemporâneas, em cada época da sua interpretação.

Mas o que verdadeiramente importa, para mim, é muito mais importante, do que o texto e a mensagem do Ramayana, é a vivência e depois, a memória, daqueles inesquecíveis e calorosos dias em Angkor, na companhia de um grupo de amigos. Porque o que é fundamental, são os laços que sabemos tecer.

Rui Neves Munhoz.

Angkor, Siem Reap, algures no reino do Cambodja, em Janeiro de 2013, numa viagem pela Indochina, inventada pelo meu Amigo Jorge Vassallo e pela ‘’Nomad’’ e vivida com o Jorge, a Ema e o Manuel, a Catarina e a Joana, a Lu e a Inês, a Mariana e a Patrícia, a Olga.

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