Angkor (1) Angkor (3) Angkor (7) AngkorA Indochina-diversos (6) Indochina-diversos (60)

Angkor What? 2 dias em Angkor.

Na madrugada de 1 de Janeiro de 2013, acordados de 2 horas de escassa noite dormida, tomámos o caminho de Angkor, montados nos ‘’tuc-tuc’’ do nosso amigo ‘’Batman’’. Logo saídos da malha urbana de Siem Reap, o tráfego intenso, todo no mesmo sentido, indicava o destino final. Na noite quente, uma imensa massa de veículos de transporte, conduzia os milhares de participantes na cerimónia do nascer do Sol. Aquela pouco mais do que uma dezena de apressados quilómetros, levou-nos ao controle de entradas. Fazer e imprimir, os passes para 2 dias, foi mais rápido do que nós a esfregar os já empoeirados olhos, numa demonstração de que a empresa que gera o enorme espaço arquitectónico e arqueológico de Angkor, está habituada a hordas de invasores contemporâneos, de todas as cores e credos.

Aquele espaço físico, a que chamamos Angkor, é vastíssimo e foi edificado com centenas, talvez um milhar, de magníficos templos, Hindús e Budistas, ou com ambas características arquitectónicas e escultóricas, devido a efémeras vontades dos reis.

A magnífica sede do reino Khmer, nasceu, cresceu e floresceu, no coração do Cambodja, entre os séculos IX e XIII, atingiu o apogeu e decaiu, sendo saqueada pelos reinos vizinhos Tailandeses e Vietnamitas, em meados do século XV. Obrigando a um êxodo populacional, para Sul, mais próximo do delta. Da vizinhança, nem bom vento, nem bom casamento, escrevo eu.

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Os impérios, não morrem por uma única razão, mas por uma súmula delas: A sua própria localização geográfica; a partir de finais do século XIII, chegam os invasores Mongóis, depois, no século XIV, coube a vez aos vizinhos Siameses. As migrações internas, que levaram à deslocação das populações e do poder, para mais perto do delta, passando a permitir trocas comerciais com os reinos vizinhos e potências emergentes da região. É o comércio marítimo internacional, a tornar viáveis, reinos e impérios, porque sem trocas de mercadorias, nenhum estado reunia as condições de sobrevivência. As alterações climáticas, decorrentes da descida da temperatura, acontecida na Idade Média, com quebra brusca das capacidades agrícolas e consequente fome generalizada

Após a indecifrável queda do império Khmer, em 1432, as magnificas construções, foram ocupadas pela mãe natureza, com a sua infinita força. Permanecem ainda, envoltas na neblina dos tempos, algumas razões do abandono da região de Angkor, mas parece ser consensual que a culpa, foi também da água; por escassez, ou por excesso, antes de ser dos reinos vizinhos.

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Mas Angkor nunca foi inteiramente votada ao abandono, pois os monges Budistas, aí permaneceram durante séculos, especificamente em Angkor Wat, celebrando culto perante imagens de Buda, assim o provam, esculturas dos séculos XVI a XVIII.

Apesar de a região ter tido ocupação quase permanente, embora residual, nalgumas zonas, o clima quente e húmido, a vegetação luxuriante, passaram a dominar a arquitectura dos homens. Enormes árvores cresceram, envolvendo e esmagando, os grandes monumentos, como se nos quisessem afirmar, que o que é roubado à terra, a ela retorna. Grossas raízes e musculados troncos, abraçaram pórticos e galerias, vergaram fortes estruturas e, como gigantescas teias carnudas e nodosas, tudo cobriram. Uma infindável paleta de cores da floresta, tudo cobriu com um manto diáfano de verdes e castanhos. Assim foi ao longo de séculos, a realidade dos templos de Angkor.

É possível encontrar registos em Chinês, datadas do século XII, prova de permanência e visitas, aos templos, ao longo de muitos séculos.

Em finais do século XVI, 1586, um religioso Português, António da Madalena, deixou relatos, recolhidos por Diego de Couto. Outros exploradores Ocidentais, na maior parte religiosos e peregrinos Japoneses, passaram por Angkor, ao longo do século XVII, mas os registos são escassos.

 Só em meados do século XIX, surgem os primeiros relatórios consistentes, de exploradores e investigadores Europeus, que desenharam os templos e Angkor passou a escrever-se nos livros de viagens. Em finais do século XIX, foram tiradas as primeiras fotografias, belíssimas, que nos mostram um cenário de uma floresta literalmente devoradora das magníficas construções.

 Ao longo do século XX, as guerras dos homens não permitiram que os templos ressuscitassem. Apenas nas últimas décadas, se procedeu à limpeza e recuperação de muitas construções; um trabalho hercúleo e meticuloso de redescoberta de intenções e vontades dos construtores originais. Talvez tenham sido cometidos crassos erros nos trabalhos de recuperação, por excesso, ou por defeito, mas é sempre fácil, à posteriori, criticar os investigadores de um passado recente, faz parte da nossa natureza; somos como o escorpião.

Angkor, foi talvez, uma das maiores cidades do mundo, dotada de um sistema perfeito de irrigação, que permitia culturas para alimentar cerca de um milhão de habitantes. Foi uma cidade efémera, porque o que importava aos construtores, não foram as casas dos homens, mas as dos deuses.

Eu não sou supersticioso, mas a nossa chegada a Angkor, naquela madrugada já quente, só poderia ser premonição de um bom ano de 2013!

Entrámos rapidamente, por entre uma multidão, também apressada. Todos, entusiasmados e expectantes, envolvidos nas trevas, esperámos que as nossas vidas se tornassem mais luminosas, a partir daquele nascer do Sol. Milhares de visitantes envolviam o grande lago, pleno de nenúfares e flores de lótus, frente ao magnífico Angkor Wat. Distinguiam-se já os contornos sublimes, de uma luminosidade ténue, como que envergonhada, que despontava por detrás de desmesurados torreões, em pedra erguidos pelas mãos de indómitos crentes.

A multidão ergue máquinas fotográficas, telemóveis, ‘’iphones’’, ‘’tablets’’, ‘’ipads’’ e demais geringonças, numa feira de vaidades tecnológicas e, desata a disparar num frenesim indomável. Frente à multidão, do outro lago do canal, a silhueta de Angkor Wat, escurecia recortada na aurora flamejante, na mesma medida em que a envolvente se transformava em indecifráveis colorações de fogo.

Consegui abstrair-me das sonoridades espantadas e dos comentários daqueles milhares de peregrinos do mundo, que me envolviam, permanecendo só, em corpo e em espírito, frente a tamanha e desmesurada beleza. Tenho a feliz capacidade de me conseguir isolar e de, mesmo no meio da multidão, permanecer por largos minutos, longe dela. Guardei apenas 5 imagens, na máquina fotográfica, daqueles momentos de um deslumbrante alvorecer, para me inspirar quando me faltarem as palavras e falharem as memórias. Mas conservarei milhares visões, plenas de emoções e sensações, daquela alvorada impressionante, como escassas vezes os meus já cansados olhos, haviam visto. São destas recordações que guardo na memória, que me alimenta na repetição e monotonia que a espuma dos dias me oferece.

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Angkor Wat, o primeiro templo que visitámos ao longo dos 2 intensos dias em que percorremos o complexo arquitectónico e arqueológico, é o maior e mais bem conservado. Exemplo belíssimo da arquitectura Khmer, no seu mais puro estilo clássico. Foi inicialmente um templo Hindu e posteriormente Budista. Esta alternância religiosa, é constante no complexo de Angkor, pois os soberanos Khmer, trocaram algumas vezes de religião. As construções apresentam características arquitectónicas semelhantes, mas com elementos estéticos e decorativos diferentes, conforme a religião oficial. Alguns templos apresentam mesmo, elementos construtivos e escultóricos Hinduístas e Budistas, em simultâneo.

Desde início do século XII, data da sua construção, até finais do mesmo século, Angkor Wat foi o centro espiritual e temporal do império Khmer. Logo de imediato, os favores reais, transferiram os poderes para o vizinho Bayon.

No já longínquo final da década de 70 do século passado, li os escritos de Ferreira de Castro, sobre Angkor. Então decidi que, um dia, se os deuses de um qualquer Olimpo me favorecessem, seria abençoado com uma peregrinação a Angkor. Ali estava eu, mais de 3 décadas depois da minha decisão, para cumpri a promessa. Algumas vezes, o tempo leva o seu tempo a correr e os sonhos tardam em acontecer, mas o que vale a pena é conseguir, sem pensar em desistir.

 Conta a lenda, que um rei usurpador do trono, quis legitimar o poder, ordenando a construção de um templo nunca antes visto, num lugar sagrado do agrado dos deuses. Então mandou libertar um boi e no local onde a besta tombou, se ergueu o templo magnífico.

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Em termos de planta, Angkor obedece à tipologia tradicional de um templo Hindu; 3 recintos rectangulares, concêntricos, erguendo-se em sucessivos patamares desnivelados, num crescendo construtivo e arquitectónico. Cada recinto apresenta-se coroado por enormes torreões nos vértices e orlado de imensas galerias, (algumas posteriormente construídas), desenhadas em longuíssimos e belos relevos, que nos contam a deliciosa ‘’estória’’ do Ramayana; o épico Hindu. A arquitectura do templo é Hindu, dedicado a Vixnu e assumindo a volumetria de uma montanha, o ‘’monte Meru’’, a casa dos deuses. No recinto interior, o mais elevado, ergue-se o torreão central, o lugar mais sagrado do templo. 

Ao longo dos reinados seguintes, todo o vasto complexo de templos, sofreu alterações, ora crescendo, ora sendo abandonado. Alguns monarcas mantiveram residência temporária em Angkor, até ao século XVI, mas de forma esporádica.

O espaço arquitectónico de Angkor, ultrapassa em termos de escala; quer de implantação, quer de construção, tudo o que a mais fértil imaginação permite sonhar. O homem, ao longo de milénios, na sua infinita procura de ilusórias explicações, para aquilo que desconhece, ergueu desmesurados monumentos, procurando agradar a hipotéticos deuses, em vez de tentar compreender-se a si próprio. No templo de Angkor Wat, como em alguns outros lugares, a desmedida vontade construtora do homem, ultrapassa-se ao próprio homem, num indomável desafio a limites, por força de formidáveis vontades. Os templos Khmers, não foram edificados como lugares para os homens, mas como moradas de deuses, onde apenas ao soberano, alguns membros da corte e à casta dos sacerdotes, era permitido o acesso. Os altíssimos degraus, não foram construídos, para serem por nós subidos. Os torreões e toda a monumentalidade, foram desenhados para uma visão de conjunto exterior, com os adequados efeitos de perspectiva, propiciados pela diferente altura dos terraços e patamares, conforme a construção se eleva. Se nos fosse pedido para calcular a altura e volumetria de Angkor Wat, decerto o efeito cénico que a construção sugere, será superior ao dimensionamento real, que já é enorme. Até os pormenores dos elementos decorativos, foram esculpidos em termos de perspectiva; assim os que estão mais próximos do olhar do observador, apresentam-se de grande rigor, sendo que os que estão mais longe são mais ténues, difusos e alguns incompletos.

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Nos espaços religiosos, todos os elementos construtivos e decorativos, têm um significado específico, nada aparece por acaso. Em Angkor Wat, assistimos a uma representação da mitologia Hindu: o templo, simboliza o ‘’monte Meru’’; o lago circundante, os oceanos; os torreões, os cumes das montanhas; a torre central, (prasat) é próprio ‘’monte Meru’’; os patamares ascendentes e concêntricos, são o percurso até à montanha sagrada. A base rectangular de Angkor Wat, é enorme, envolvida pelo vasto lago, atravessado por duas largas pontes, ou avenidas, guardadas pelas simbólicas ‘’nagas’’; serpentes de diversas cabeças. Até a orientação do templo, por ser também funerário, é diversa dos outros templos de Angkor; está orientada para Oeste, por ser dedicado a Vixnu, senhor do Oeste do universo. Então a leitura dos relevos, deve ser feita no sentido contrário dos ponteiros do relógio. Todo este imenso espaço, de um único templo, encontra-se delimitado pela muralha exterior e pórticos de acesso.

Quando partimos do complexo de templos de Angkor; após dois inesquecíveis dias, em que da aurora ao ocaso, saboreámos templos e templos e mais templos. O tempo pareceu escasso e as horas correram céleres. Todos nós, a tribo, vivemos intensamente esses dias e, enquanto tivermos memória, eles permanecerão vivos. Se ela nos faltar, então já não mereceremos viver, porque nos faltará o que contar.

Angkor, como todos os lugares, que os homens souberam construir, com indomável vontade, para explicar aquilo que desconheciam, permanecerá como uma monumental obra de fé, ou de vaidade?

Naqueles memoráveis, dois dias em Angkor, perdemo-nos livremente nas maravilhas que o homem e a natureza construíram. Faltam-me as palavras escritas, perante a monumentalidade de Angkor Wat. Sobram-me as emoções, no templo do Ta Prohm, onde a força de raízes e troncos, abraçou, ora beijando, ora esmagando, aquilo que o homem edificou. E em tantos outros templos de Angkor, ficaram as nossas memórias, entrelaçadas como as árvores da Indochina, entre as estátuas e galerias. 

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Agora resta-nos a memória do que lá vimos e sentimos; do quase destruído Preah Khan; do Beng Mealea; do Bayon; do Ta Son; do Ta Keo; do Angkor Thom; do Thommanon; do Beng Mealea envolto pela vegetação luxuriante; da ‘’esplanada dos elefantes’’; de pirâmides de altíssimos degraus; de belas paisagens que se iluminavam como fogo, ao anoitecer; de conversas partilhadas; de sonoras gargalhadas; de apetitosas refeições e de saborosa cerveja.

Muito me faltaria ler, aprender e escrever, sobre os templos de Anglo, mas se não fosse o engenho e a arte de um amigo e companheiro de aventura, chamado Jorge Vassallo; então seriam imensas e insuperáveis, as nossas lacunas. Porque ele, um apaixonado por esse espaço físico e cultural, a que chamamos genericamente Indochina. Ele, carregando muitas viagens por esse paraíso onde grandes rios, permitiram magnificas civilizações. Ele, especialista na incontável diversidade dessa região e mestre na arte de comunicar, soube em cada momento, ilustrar-nos e encantar-nos com ‘’estórias’’ perdidas e esquecidas.

Estou certo, de que todos nos sentimos privilegiados, por partilhar aquela aventura com o Jorge.  E já agora, leitor paciente que tiveste a coragem de me lar até aqui, sem cortares os pulsos, passo a explicar a razão de ter intitulado este longo artigo de: ”…Angkor What…”, não foi erro, nem lapso, foi propositado, pois é apenas o nome de um delicioso bar em Siem Reap.

Rui Neves Munhoz, Janeiro de 2013. Uma viagem ao Cambodja,inventada pelo meu Amigo Jorge Vassallo e pela ”Nomad”e partilhada com: a Ema e o  Manuel, a Olga, a Catarina e a Joana, a Lu e a Inês, a mariana e a Patrícia, o Jorge e myself.

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