‘’…Há várias moradas na Casa de Meu Pai…’’ S. João, capítulo XIV: versículos 1 a 3.

 Pode parecer desajustado e absurdo iniciar um pequeno trabalho sobre o quadro da evolução, a vida na terra e a hipótese de existirem outros mundos habitados, com uma frase Bíblica, mas essa é a intenção. A utilização de algumas palavras que remetem, de imediato, para um texto religioso, quando a finalidade é escrever sobre ciência, lembra-nos a trajectória do pensamento humano, desde que o homem começou a colocar questões e si próprio. Foi assim que tudo começou, o homem criou justificações para tentar explicar, o que para ele se afigurava inexplicável, inventou histórias, lendas e mitos, criou preconceitos e amordaçou pensamentos e ideias, em todos os continentes e em todas as religiões. Assim decorreram milénios de combate entre religião e ciência e hoje, alguns de nós, em alguns países, temos o privilégio de poder estudar, questionar e conhecer.

 O universo é de uma grandeza extraordinária, infinita talvez, então como explicar que apenas a terra, uma simples partícula de um minúsculo grãozinho de areia que é o nosso sistema solar, dentro de uma pequena constelação chamada Via Láctea, que tem ‘’apenas’’ cerca de 200.000 planetas semelhantes à Terra, seja o único planeta a ser habitado. Seria além de egoísmo, uma enorme dose de ingenuidade. Se há vida na terra, então porque não poderá haver vida noutro planeta?

Aquilo que definimos como ‘’vida’’, aqui na Terra, não tem que ser necessariamente a mesma forma de ‘’vida’’, noutros mundos. Tudo é relativo e efémero nas nossas vidas, tudo evolui, se altera, modifica e transforma. A ciência tem evoluído de uma forma descontínua ao longo de milénios, alternando períodos de grande evolução, com épocas de estagnação.

À extraordinária evolução científica nas áreas da Matemática, Física, Astronomia e Filosofia das civilizações clássicas, desde Arquimedes de Siracusa, século III a.c., até Hipatia de Alexandria, século IV d.c., sucedeu-se a Idade Média com o flagelo das cruzadas e da inquisição que fizeram descer uma longa noite milenar de trevas sobre a civilização.

Todas as épocas e civilizações tiveram a sua cosmologia, a sua própria narrativa de como começou o universo e de para onde ele vai. Que lugar ocupamos no cosmos e estaremos, ou não sozinhos no espaço infinito que nos envolve?

 Os métodos científicos e de investigação não são constantemente uniformes e mesmo as constantes podem ser variáveis, então é porque tudo evolui na Terra e no Universo. Tudo, na terra, começou do nada, ou de uma força desencadeada por uma descomunal e indecifrável energia cósmica e a partir desse momento, tudo evoluiu e se modificou, numa odisseia de milhões de anos.

Quando o homem começou a observar as estrelas, talvez no paleolítico, viu no universo uma terra plana, rodeada por mar e coberta por uma cúpula pontilhada de pequenas luzes. Observou que o Sol e a Lua se moviam, mas só muito mais tarde se pode aperceber que outros minúsculos pontos luminosos se moviam também ao encontro de pontos que pareciam estar fixos.

Assim nasceu uma incipiente Astronomia que começou a fazer registos escritos sistemáticos na antiga Mesopotâmia, na Índia e na China, tendo como finalidade prática a agricultura, estabelecendo datas para sementeiras e colheitas, no Neolítico. O homem retira do cosmos e do firmamento aprendizagens para a vida quotidiana.

Com a Grécia clássica os fenómenos astronómicos foram explicados, em termos físicos, pela primeira vez:

Leucipo de Mileto, século V a.c., ao falar, pela primeira vez, de um número infinito de átomos e de que a combinação entre eles levaria a um mundo infinito de seres e de mundos como o nosso, criou a teoria do Cosmos

Aristarco de Samos, 320-250 a.c., antecipou em 1.700 anos a teoria do sistema heliocêntrico de Copérnico, colocando o Sol como centro do Universo e a terra como simples planeta. Nessa mesma época, Epicuro, menciona a hipótese da existência de outros locais, com vida, para além da Terra, alargando os horizontes do homem a tudo o que é observável até aos primórdios do Universo.

No século I d.c., o Grego Ptolomeu, talvez nascido em Alexandria no Egipto, matemático, astrónomo, geógrafo e cartografo, estuda, reúne e compila todas as teorias Gregas e Babilónicas, no ‘’Almagesto’’ e cria a teoria geocêntrica, que vigorará durante mais de 1.400 anos e que coloca a Terra como centro do Universo. Esta teoria Ptolomaica vai dominar a cultura e as ciências Árabes, Indianas e Europeias, até Copérnico no século XV.

Com o Cristianismo, a teoria geocêntrica de Ptolomeu passou a vigorar como verdade absoluta e irrefutável, como o pilar da igreja Cristã, dominando a cultura Ocidental. A ciência foi considerada obra do demónio, pois atacava os dogmas religiosos estabelecidos.

As trevas e o obscurantismo duraram até ao Renascimento e então, as teorias da existência de outros mundos habitados, voltaram a ser admitidas por pensadores e cientistas.:

Giordano Bruno, 1548-1600, defendeu a teoria de Copérnico, em que a Terra girava em torno do Sol, foi condenado à morte pela inquisição e devorado pelo fogo, por conceber Deus como imanente e idêntico ao Universo, não como Criador, mas como o próprio Universo. O Universo passava a ser encarado, por alguns espíritos lúcidos e científicos, como infinito e ilimitado.

Johannes Kepler, 1571-1630, astrónomo Alemão, formulou leis que descrevem o movimento dos planetas, verificou que os planetas descrevem elipses em torno do Sol e que as velocidades dos planetas são proporcionais à sua distância média do Sol. Em 1593, escreve o ‘’Somnium’’ sobre uma viagem espacial.

Leonardo da Vinci, 1452-1519, pintor, arquitecto e cientista, sugere a imobilidade do Sol.

Nicolau Copérnico, 1473-1543, astrónomo e matemático Polaco, contraria a teoria geocêntrica de Ptolomeu e coloca o Sol como centro do sistema solar, criando a Astronomia moderna. A Terra passava a ser apenas mais um planeta que concluía uma orbita, em torno de um Sol fixo, ao longo de um ano, girando sobre si própria, em torno de um eixo, ao longo de um dia. Copérnico explica a origem dos equinócios pela mudança do eixo de rotação da Terra. Durante a sua vida a Igreja não o contestou fortemente, talvez por descuido, ou por ignorância, ou talvez por ele ser um cientista muito cauteloso e receoso do poder religioso.

Tyrcho Brahe, 1546-1601, astrónomo Dinamarquês, elaborou os primeiros mapas sistemáticos das estrelas, mediante observações directas e corrige alguns estudos de Copérnico.

Galileu Galilei, 1564-1642, físico, matemático, astrónomo e filosofo Italiano, desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos do movimento uniformemente acelerado e do movimento do pêndulo, descobriu a lei dos corpos e enunciou o principio da inércia, melhorou o telescópio refractor e descobriu as manchas solares, as montanhas da Lua, as fases de Vénus, quatro satélites de Júpiter, os anéis de Saturno e estrelas da via Láctea.

Isaac Newton, 1643-1727, físico e matemático Inglês, elaborou a teoria da atracção gravitacional, inventou o primeiro telescópio reflector com sistema de espelhos para focalizar a lua recebida, demonstrou que a luz branca é formada por uma banda de cores que podem separar-se por meio de um prisma, demonstrou que o movimento dos objectos é comandado pelo mesmo conjunto de leis naturais. Newton foi talvez o cientista que maior impacto causou na ciência, pela descoberta e enunciação de leis universais de forma precisa e racional.

A Terra deixava, definitivamente, de ser o centro do Universo.

Dando um salto até aos séculos XIX e XX, chegamos a:

Alberto Einstein, 1879-1955, físico Alemão, elaborou a teoria da relatividade e com ela alterou-se a visão e relação do homem com o Universo e desenvolveu a teoria quântica da luz.

Georges Lamaître, 1894-1966, astrónomo e matemático Belga, formulou a teoria do ‘’Big Bang’’, para explicar a expansão do Universo.

George Gamov, 1904-1968, físico Russo, desenvolveu em conjunto com Ralph Alpher, um trabalho fundamental, de apoio à teoria do ‘’Big Bang’’, tendo por base que os níveis actuais de hidrogénio e de hélio no Universo, poderiam ser explicados por reacções que ocorreram durante o ‘’Big Bang’’. E assim viajámos, em poucas linhas, do paleolítico até ao ‘’Big Bang’’.

 E em que consiste a teoria do ‘’Big Bang’’?

O Universo terá surgido de um estado extremamente denso e quente que originou uma explosão, baseia-se em observações que indicam que o Universo está em expansão, de acordo com um modelo, baseado na teoria da relatividade geral. A evolução do Universo teve início, após a explosão de uma massa de matéria compacta, de tamanho aproximado a um átomo. Essa explosão desencadeou uma série de eventos cósmicos, formando galáxias, estrelas e planetas e resultou das reacções nucleares entre as partículas fundamentais do meio cósmico, cujo efeito mais importante foi a formação de elementos químicos. Terá sido este, o princípio de tudo? É esta a resposta que pensadores, filósofos, religiosos e cientistas procuraram ao longo de milénios? Como é que tudo apareceu, que tudo se forma e se divide? Qual é a origem de tudo?

Muitas dúvidas existiram, existem e continuarão a existir para explicar a idade do Universo, talvez 13 ou 15 biliões de anos de evolução contínua em que a existência de vida animal e vegetal, representa uma pequeníssima parte e a idade do homem é, apenas a mais microscópica parcela de tempo, dessa parte.

Cabe-nos a tarefa de reflectir, no quadro da evolução e a partir do facto de existir vida na Terra, na possibilidade de existirem outros mundos habitados, ou com alguma forma de vida e na aplicação das leis físicas e matemáticas nesses mundos. Assim como perante os factos científicos, sobre o nascimento do Universo, a sua evolução, o aparecimento das primeiras formas de vida no planeta Terra e o longo caminho percorrido até ao homem, temos o dever de acreditar e defender que, noutros mundos, poderão existir formas diferentes de vida, tal como a conhecemos, ou completamente diferentes. Não o sabemos, mas um dia, talvez o possamos descobrir, ou ser descobertos.

E o que é a vida? Apenas podemos responder que a vida dos homens necessita de oxigénio, que é libertado pelas plantas, através da fotossíntese e que elas precisam da energia do Sol e que dependemos de um conjunto de leis físicas e matemáticas, de regras e ciclos de transformações, para que possamos viver. Apenas sabemos, por obra de uma casualidade do Universo, o planeta Terra tem um movimento de rotação em torno de si próprio e de translação em torno do Sol, em órbitas elípticas, que propiciam os dias e as noites, as estações do ano, as sementeiras e as colheitas. Sabemos também que as condições exteriores à Terra, tais como o seu posicionamento dentro do sistema solar, criaram as condições para a existência de água e que a atmosfera nos protege favoreceu a existência de muitas formas de vida, animal e vegetal, desde há alguns milhões de anos.

Sei que a gravidade nos prende à Terra, que a Lua influencia as marés. Sei que muitas espécies apareceram e desapareceram da face do planeta, ao longo de milhões de anos e que todos os dias continuam a extinguir-se formas de vida e a aparecer outras. Sei que os minerais e elementos químicos nos fornecem muito do que necessitamos para viver e sei também que a evolução do homem e da ciência criaram uma logística que nos permite sobreviver a vírus e doenças.

Se na Terra, foram criadas ao longo de milhões de anos, as condições para que se formassem algumas espécies e formas de vida, microscópicas no inicio, que posteriormente evoluíram para outras formas de vida, até ao aparecimento da vida humana, então porque é que tal não teria sido também possível noutros planetas.

Se na Terra, por um acaso cósmico, as órbitas elípticas, as rotações e translações, as inclinações do eixo, o aparecimento dos vulcões, dos oceanos, das chuvas, a formação de uma atmosfera protectora, a deriva e choque dos continentes e uma multiplicidade gigantesca de acontecimentos, possibilitaram a criação de vida, qualquer que fosse a sua forma, tal como temos conhecimento que aconteceu há muitos milhões de anos, então porque é que tal não teria sido também possível noutros planetas

Em qualquer outro planeta ou corpo celeste, segundo as suas próprias condições, leis, formulas e regras para sobrevivência, conforme atmosferas e condicionantes diversas e talvez opostas ás da Terra, então porque é que tal não teria sido também possível existir alguma forma de vida, qualquer que ela seja, algures perdida no espaço sideral.

Se, por outro lado, numa perspectiva apenas religiosa, ou mitológica, um Deus, ou vários deuses todo-poderosos, criadores de tudo e de todos, tiveram o engenho e a arte de ‘’inventar’’ vida na Terra, então porque é que não a criaram também noutros planetas?

Se o Universo está a expandir-se continuamente e tudo o que se expande, poderá um dia contrair-se, então se o Universo surgiu de uma explosão, poderá desintegrar-se de tanto se expandir?

 As novas tecnologias, de tal forma avançadas como nunca foi possível ao homem imaginar-se dotado de tamanho poder científico e tecnológico, quase à imagem de um Deus, um poder infinitamente criador e destruidor, conforme a vontade momentânea desse mesmo homem, permitem um tipo de investigação cada vez maior e sempre crescente, um homem como imitação de Deus, mas talvez também imperfeito como os Deuses.

O homem observa novas galáxias, sabe da existência de água na Lua e foi há mais de 40 anos, em 1969, que lá deixou a primeira pegada, conhece os planetas do nosso sistema solar e de outros sistemas solares, descobriu e deu nomes a constelações e galáxias, estudou estrelas, cometas, micro planetas, e talvez outras formas de vida, ou a possibilidade de outras formas de vida, devido à existência de recursos naturais necessários para tal. O homem tem horizontes ilimitados e não pode ignorar que há muito, na vida e no universo, por descobrir, mas que quanto mais investiga e estuda, mais gigantesco lhe parece o desconhecido e sabe que se uma simples gota da água tem uma infinidade de vida, então outros mundos no cosmos, poderão e deverão ter muitas gotas de água.

Rui Neves Munhoz. Texto escrito em 2012, para um trabalho de um amigo, para ser assinado por esse amigo.

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