Saímos de Siem Reap, de manhã bem cedo. Depois de cerca de duas horas por estrada plana, chegados à fronteira com o vizinho reino da Tailândia, coube-nos esperar durante muitas horas, talvez 6 ou 7, numa extensa e larga fila com milhares de Cambojanos; Tailandeses exibindo cabelos pintados de louras madeixas e os ‘’mochileiros’’, cansados, sujos e suados, com fome e sede, ou seja, nós. O cenário envolvente decorava-se com painéis informativos, escritos em Inglês, Tailandês e Cambojano, lembrando os incautos e potenciais prevaricadores, de que o transporte de drogas, é punível com a pena capital. Entretanto e, para entreter as desanimadas hostes Lusitanas, a Catarina, falou e contou histórias em Português do Brasil, temperado com muito açúcar. O longo tempo até permitiu procurar na internet e ouvir diversos temas do programa ‘’mixórdia de temáticas’’. Assim se divertem os ‘’tugas’’, matando o tempo com amenas conversas e gargalhando, como só nós sabemos fazer. Depois da longa travessia fronteiriça, já no reino do Sião, encontrado transporte, rumámos a Bangkok.

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Passada a fronteira, caída a noite, logo de imediato, a paisagem altera-se completamente; urbaniza-se e rasga-se de largas auto estradas, pinta-se de painéis publicitários e grandes construções. Parecemos entrados numa outra dimensão, depois dos dias calmos e deliciosos do Cambodja.

As cerca de quatro horas de viagem até à capital do reino, correram céleres, entre o sono e as expectativas de um regresso à alucinante Bangkok.

Na enorme periferia urbana, a muralha de altos e estreitas construções agigantava-se, as fachadas cobertas de animados painéis publicitários, como uma Las Vegas da Indochina, chamasse por nós. Os viadutos, sobrepostos em vários níveis, pejados de comboios velozes e o excessivo trânsito, dominavam a paisagem urbana. Penetrávamos na imensa mole arquitectónica e humana de Bangkok, cidade fascinante e alucinante, onde em cada percurso, mergulhamos no espaço e no tempo, sem outros limites do que os da nossa mais fértil imaginação.

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Chegados ao centro da metrópole e descarregadas as cansadas mochilas, no sujo passeio, como compete a verdadeiros ‘’hippies’’. Estávamos no ‘’centro do mundo’’. De um lado estendia-se a Khao San Road; o ‘’circo’’ dos que gostam de curtir a vida e não pensar no dia de amanhã. Do outro lado, numa rua pedonal; um pouco mais calma, mas também vibrante, plena de bares, restaurantes, casas de massagens e de vendedores, esperava por esta equipa de ‘’tugas’’, o ‘’Mango Lagoon Place’’. A nossa futura casa na ‘’cidade dos anjos’’ lembrei-me muitas vezes do Di Caprio e do início desse detestável filme, chamado ‘’A Praia’’.

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Por diversos dias percorremos a cidade imensa, tão desmesurada quanto o seu longo e impronunciável nome oficial. Plana e aluvial, estende-se pelas margens do serpenteante rio Chao Phraya, não muito longe do golfo da Tailândia. Habitada por muitos milhões de habitantes, não sei bem ao certo quantos, nem os próprios Tailandeses o devem saber.

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Omnipresente na cidade de Bangkok, a imagem do idoso rei e da família real, coroa templos, palácios, grandes edifícios públicos e privados, jardins, avenidas e praças. Para a nossa estética visual, há que confessar que tamanha exuberância de patriotismo e de fidelidade, nos parece estranha e exagerada, no mínimo. Mas sentimo-nos sensibilizados pelo carinho sincero que os afectuosos Tailandeses, demonstram pelo seu chefe de estado. O soberano, simboliza a unidade e independência do reino do Sião, que soube jamais ser colónia dos países ocidentais e, sobreviver aos precários equilíbrios da ‘’guerra fria’’ e dos ‘’anos de chumbo’’, das últimas décadas do século passado, que varreram os países vizinhos da Tailândia.

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Sempre que regresso a Bangkok, sinto-me como personagem do filme de Ridley Scott, de 1982; ‘’Blade Runner’’. As grandes cidades fascinam-me, pelo contraste entre passado e futuro, pela intensidade da vida, pelos ritmos alucinantes e, na capital do reino da Tailândia, sinto-me ‘’replicant’’. Lembram-se do filme?

Para contar Bangkok, escasseiam as palavras e sobras as sensações. É uma cidade de superlativos, onde o passado e o futuro, se misturam num efémero presente, que se esgota em cada dia que passa. Porque no dia seguinte, tudo será diferente.

Na imensidão da planície urbana, onde as terras e as águas trocam constantemente de lugares, salpicando o horizonte visual, erguem-se elevadas e estreitos edifícios, dispersos como pontos de exclamação. No topo pousam restaurantes e bares, como que debruçados sobre uma cidade de luzes e anjos e, nós envergando as roupas menos sujas, pendurados de um copo de ‘’mojito’’, debruçados no ‘’sky bar’’, de olhos bem abertos, colados na cidade infinita. Como anjos na cidade dos anjos. O horizonte alargava-se até ao infinito visual, num universo de fabulosas luminárias. É bom regressar a Bangkok.

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Bangkok, cidade de um futuro hoje, é rasgada e sobrevoada por quilométricos viadutos, muitos deles sobrepostos em precários equilíbrios, acima de palácios, templos e deuses. É a cidade do ‘’sky train’’; o veloz comboio de superfície que voa sobre avenidas, parques e mercados, entre arranha-céus e painéis publicitários. Senti-me uma patética imitação de um tal Tom Cruise, num personagem do ‘’relatório minoritário’’.

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Bangkok é definitivamente, uma cidade de muitos templos e palácios, onde as vermelhas e douradas telhados de retorcidos vértices e pontiagudas arestas, plenas de uma multidão de estátuas de serenos e sorridentes Budas, sentados, em pé e até deitados, recebem outra multidão, ainda maior de visitantes. Alguns recintos, enormes e deslumbrantes, erguem-se como cidades, dentro da cidade, plenos de altivos pináculos e revestidos de douradas folhas que esvoaçam, levadas pelos quentes ventos de Janeiro.

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No palácio real, imenso e desmesurado, pejado de belas construções, uma compacta multidão avança lentamente.

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No Wat Phra Kaeo, entre vértices de douradas ‘’stupas’’; demónios coloridos em forma de ‘’garudas’’; marmóreas e alvas escadarias; soberbos templos de diversas influências arquitectónicas, que parecem tocar o céu; altares e deuses, sagrados e profanos. Entre budas sorridentes; budas sérios; budas sentados; budas de mãos pousadas no colo; budas de mãos erguidas e um ‘’buda de jade, ou esmeralda’’ sagrado e protegido num belíssimo e indescritível templo, ladeado de batalhas do ‘’Ramayana’’.

Os templos abundam, as escadarias multiplicam-se, as estátuas de deuses e demónios tudo povoam. Dentro do recinto do palácio real, um outro universo nasce, ali tudo é exagerado e exuberante, como nem a mais fértil imaginação poderá sonhar. Tamanha beleza em tonalidades de miríades de dourados, chega a cansar, estes cansados olhos.

Saboreando o feérico mundo do palácio real, vibrante de vida, recordei a primeira vez que percorri aquele vastíssimo recinto, já há alguns anos, quando uma denominada ‘’pneumonia atípica’’, me levou a percorrer um reino do Sião, deserto de visitantes.

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Dentro do enorme recinto, a Ema, o Manuel e eu, não sentimos as horas que se escoaram velozes. Reencontrámo-nos com os amigos na saída, após as nossas colegas de aventura, se despojarem das pudicas túnicas, que lhes cobriram profanas vergonhas. Durante a permanência em tão casto e conservador espaço físico, todo o pecado da carne será punido; cobrindo-se os desnudados colos, ombros, braços e pernas de femininas presenças e as pernas e joelhos pecaminosos dos machos.

Depois de tão dourada presença, os olhos e o corpo pedem-nos suculento manjar. Abancados num popular mercado, próximo ao palácio real, chegou a hora de consolar o estômago, que barrigas vazias são inimigas da cultura. Os sabores e saberes da gastronomia do reino do Sião, são uma festa para os sentidos e conquistam-nos em cada refeição, temperados com sumos e cerveja, estupidamente gelados. Em Bangkok, os nossos escassos e miseráveis Euros, ainda demonstram algum poder; chegam e sobram. Subitamente naquele Verão da Indochina, esquecemo-nos do ‘’inverno do nosso descontentamento’’ Europeu.

Durante os vários, mas sempre escassos dias de Bangkok, perdemo-nos voluntariamente, sempre na companhia do Jorge, pelos meandros líquidos e terrestres da capital do reino. A cidade multifacetada apresenta-se ora num mundo de tradição e de cultura.

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As cidades vivem e mostram-se nas praças, ruas e nos mercados tradicionais e, Bangkok não foge à regra; uma ondulante multidão, tudo preenche, tudo inunda, numa maré devida e emoções.

No mercado dos amuletos, entusiasmamo-nos perante tamanho museu a céu aberto. Muitas daquelas deliciosas peças, serão certamente imitações de antiguidades e velharias, quase perfeitas, mas isso é o que menos importa, o essencial é curtir aquele espaço. Assim se vive em Bangkok. Gosto de urbes imensas, desmesuradas, mas onde se sentem vozes, gargalhadas, em suma; vida.

Enquanto os sorrisos existirem no reino do Sião, então Bangkok permanecerá a cidade dos templos.

O Wat Pho, também salpicado de muitos templos, onde descansa o magnífico buda reclinado, enorme e sorridente, rodeado de peregrinos e de taças de oferendas, onde sonoramente são lançadas moedas. Bem perto o templo do ‘’Buda de Bronze’’, o templo de mármore e tantos outros, esguios e elegantes, rodeados de imagens de Buda e sempre daquela multidão alegre que tudo preenche em Bangkok.

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Cruzando novamente o Chao Phraya, pleno de vida, ondulante de barcaças e vestido de tons ocres de lama, eis-nos junto ao cais de acesso ao Wat Arun, ou templo da madrugada. Outro complexo de edificações de carácter religioso, debruçado sobre as lamacentas águas. À esguia e íngreme ‘’stupa’’ central, revestida com cacos de milhares de peças de porcelana, trepa-se por altíssimos e vertiginosos degraus, que mesmo este narrador, de compridas pernas, teve dificuldade em subir.

Alternando elevadas temperaturas e inundações cíclicas, que encerram zonas da cidade entre diques de sacos de areia, Bangkok habituou-se a conviver com cheias e alagamentos controlados; bairro a bairro. Algumas vezes, ‘’…a emenda corre pior do que o soneto…’’ e, ao impedir que as águas fluam e escoem livremente pela planície aluvial, Bangkok parece afogar-se em água, lama e lodo, numa batalha infinita, em que quem tenta domar a natureza, perde sempre o combate.

Até ao século XVIII, a pequena Bangkok, foi mero porto que servia a capital do reino do Sião; a nobre e altiva Ayuthaya. Depois das invasões Birmanesas, em meados do século XVIII, a capital instala-se num subúrbio da actual Bangkok os reis ordenam a construção de palácios e templos. A rede de canais rasgou a cidade e um crescente urbanismo, com características essencialmente aquáticas, desenhou um dédalo de vias de comunicação.

Os dias e as noites em Bangkok, correram céleres, alegres, vibrantes e entusiasmados. O último jantar, de múltiplos e deliciosos petiscos Tailandeses, foi uma festa, como todos os outros. A Ema e o Manuel, foram os primeiros a partir, rumo a Paris, logo após o repasto. A Olga partiu de madrugada, rumo a Luang Prabang. Os restantes membros da tribo ‘’Nomad’’ só rumaram à triste pátria Lusa, no dia seguinte. A Patrícia seguiu para Pequim. A Catarina, Joana, Inês, Lu, Marina e este narrador, via Guangzhou e Paris, rumo à cidade debruçada sobre o Tejo. A minha mochila ficou de férias em Guangzhou, mas regressou ao lar, alguns dias depois. E assim terminou mais uma viagem na Indochina. Se os deuses me forem favoráveis, mais haverá, se não o forem, não terei armas para os derrotar.

Viagem inventada pela ‘’Nomad’’ e pelo meu Amigo Jorge Vassallo, acontecida em Janeiro de 2013 e partilhada com a Ema e o Manuel, a Catarina e a Joana, a Lu e a Inês, a Mariana e a Patrícia, a Olga e claro, o narrador; eu.

 

 

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