Parti de Aman, na companhia de 5 novas amigas, encontradas e conhecidas, lá pelas horas tardias de uma apressada madrugada, no átrio do hotel ”Toledo”. Da capital Jordana à fronteira da Palestina, junto ao rio Jordão, escassas dezenas de minutos decorreram. Apenas a Susana, a Al, a Nídia e eu conseguimos cruzar a linha de todos os conflitos e penetrámos na Cisjordânia.

A ponte Allenby, (denominação Israelita), ou ponte Rei Hussein, (denominação Jordana), ou ponte Al Karameh, (denominação Palestiniana), cruza o Rio Jordão, entre o Reino Hachemita da Jordânia e a Cisjordânia, ou anteriormente chamada ‘’margem Ocidental’’, ou Palestina. Um estado onde com um povo, um território, mas sem um poder próprio e autónomo.

A ponte liga Jerusalém e a cidade de Jericó, já perto da fronteira, à Jordânia. Foi construída, pela primeira vez, em 1918, pelo general Britânico Allenby, com os restos de uma velha ponte da época Otomana. Destruída com a ‘’guerra dos seis dias’’.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Para os Palestinianos, milhares em cada dia, atravessar a ponte, representa o pesadelo de uma espera longa, em filas intermináveis, sofrendo de um tratamento humilhante. Com as celebrações do Ramadão e as datas das peregrinações ás cidades santas do Islão, Meca e Medina, o desafio de atravessar a ponte, torna-se ainda mais angustiante.

Calcula-se que cerca de sete mil Palestinianos, segundo a organização Palestiniana ‘’Karama’’, (dignidade), atravessem diariamente a ponte, fazendo o percurso entre Ramalah, capital da Palestina, e Amman, em 12 horas. Durante este percurso, os Palestinianos são obrigados a trocar de autocarro seis vezes e passar outros tantos postos de controlo, onde são continuamente revistados e humilhados. Enquanto nós, Europeus, podemos fazer o mesmo percurso, incluindo as rigorosas formalidades de passagem das fronteiras, em pouco mais de 1 hora.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

A ponte é o único portão de saída, para mais de 2 milhões e meio de Palestinianos, que não podem deixar a Cisjordânia por nenhum outro ponto. As longas esperas a que os palestinianos são submetidos, obrigam a largas permanências ao Sol, em pé, de famílias inteiras. Os custos são excessivamente elevados, cerca de 100 Euros, em taxas, para uma família palestiniana, com uma média de 5 filhos, o custo final da vigem é enorme e despropositado. As saídas de palestinianos para a Jordânia, devem-se exclusivamente a negócios, estudos, receber tratamento médico e a visitas esporádicas a familiares. Não devemos esquecer que são cerca de 2 milhões, os refugiados palestinianos a viver na Jordânia, onde constituem um terço da população.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

As estimativas apontam para que, em cada ano, mais de um milhão e meio de pessoas atravessem a ponte, 99% de palestinianos e 1% de visitantes e trabalhadores estrangeiros. Os Palestinianos estão proibidos de fazer este percurso de carro.

Entre a cidade de Jericó, bem perto da fronteira Jordana, a cerca de 5 quilómetros, e a ponte, há 3 barreiras com pontos de controlo, onde os Palestinianos são sucessivamente confrontados com multidões ansiosas e uma infinidade de papéis e autorizações, para conseguirem prosseguir. Nos postos há, propositadamente, poucos funcionários, militares maioritariamente.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Apesar da fronteira da ponte Allenby, estar aberta, alguns dias até à meia-noite, os autocarros de passageiros começam a chegar à cidade de Jericó, a partir das 3 horas da manhã, para daí partirem para a fronteira com a Jordânia. Mas o regresso é quase sempre a pior parte da viagem, pois implica uma espera desesperada, de várias horas, muitas vezes até seis horas, dentro de velhos autocarros, em plena terra de ninguém, entre a Jordânia e a Cisjordânia. Durante este suplício, os passageiros Palestinianos são proibidos de sair do veículo imobilizado, mesmo para tentar comprar água. Mesmo os idosos e crianças estão sujeitos a esta tortura, com temperaturas de Verão a subirem a valores inimagináveis.

A passagem de um simples posto fronteiriço, depende apenas, da boa vontade e caprichos de jovens soldados Israelitas, pouco maiores do que adolescentes.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

A Cisjordânia, ou Margem Ocidental, é um território Palestiniano, localizado na margem Ocidental do Rio Jordão e sob ocupação de Israel. É reivindicado pela Autoridade Palestiniana. Está limitado e encravado na Jordânia e no estado de Israel. Até 1948, integrava a parte remanescente da Palestina histórica sendo dividida em três partes, uma passou a integrar o Estado de Israel e as outras duas, faixa de Gaza e Cisjordânia, ambas de maioria Árabe-Palestiniana, deveriam integrar um futuro Estado Palestiniano, a ser criado conforme a Resolução nº 181 das Nações Unidas, de 1947, com a concordância da antiga potência colonial da zona, o Reino Unido.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Com a sucessão de conflitos de triste memória, em 1967 na ‘’Guerra dos Seis Dias’’, estes territórios foram militarmente ocupados por Israel.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Todas as guerras desde a proclamação unilateral da independência de Israel, foram desencadeadas pelos países Árabes, e todas foram ganhas, com ocupação de territórios, por Israel. Se o tempo e as vontades dos homens pudessem, hipoteticamente, voltar para trás, talvez todo este conflito nem chegasse a ter existido. As questões levantadas no pós-guerra, com a derrocada dos impérios coloniais Europeus e pela finalização de mandatos de ocupação no Médio Oriente, criaram situações insustentáveis e que perduram até aos nossos dias. Infelizmente, os efeitos dessas divisões, feitas no papel, por Franceses e Britânicos, na Conferência de San Remo e com os acordos de Sykes Picot e Balfour, perduram e continuarão a impedir a paz, entre todos os povos do Médio Oriente. Só um acordo global e político, com um total empenhamento dos países da região, de todas as potências emergentes e das grandes potências, sob o alto patrocínio das Nações Unidas e com desmilitarização de todo o Médio Oriente, poderá trazer uma paz estável e duradoura. Neste inglório tabuleiro de xadrez da geopolítica internacional, todos são culpados e existe uma única vítima, os milhões de Palestinianos, um povo sem território, nem poder, martirizado, manipulado e usado não só pelos ocupantes, mas também pelos vizinhos. Os acordos entre o Egipto e Israel, que custaram a vida e Sadat e Rabin foram um passo de grande importância para a paz no Médio Oriente, mas nunca se esteve tão perto de um acordo final, como nos últimos dias do segundo mandato de Clinton, quando Arafat, em Camp David, por teimosia, ou por pressões diversas, se recusou a viabilizar aquele que poderia ter sido um momento histórico para a região e a humanidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Actualmente, algumas porções dispersas destas duas áreas, passaram a ser administradas pela Autoridade Palestiniana, mas Israel mantém o controlo total das fronteiras e está a construir um ‘’muro de separação’’ com 700 quilómetros de extensão e que recorta o território da Cisjordânia, como uma manta de retalhos, anexando porções significativas de território e isolando milhares de famílias Palestinianas. A referida Resolução nº 181 das Nações Unidas, previa uma anexação pelo Estado de Israel, de 56% da área do antigo Mandato Britânico da Palestina, na margem Ocidental do Rio Jordão, enquanto 44% da área seria destinada a um futuro Estado Palestiniano, que à época ocupava 98% da área partilhada. Hoje Israel controla mais de 78%, do antigo mandato Britânico, excluído o território Jordano. Esta situação pendente há mais de 50 anos, já nos habituou à cruel imagem de um conflito permanente e interminável, quando afinal, tudo é fácil se os homens pensarem com os corações e não com as armas.

Esta viagem aconteceu num mês de Agosto, tempo de calor e de privações; no Ramadão. Parti e regressei sózinho, para um périplo pelo Médio Oriente. No segundo dia de viagem, atravessei a martirizada Palestina. Conquistei e partilhei amigos. Ganhei afectos e vivi momentos de angústia e tristeza, na travessia de uma estreita, escassa de territórios, mas plena de ambições, terra de um povo, que o egoísmo de alguns e a indiferença de muitos, não souberam e não quiseram tornar um estado soberano, em dignidade e direitos.Eu regressei, mas parte do meu coração ficou.

 

Advertisements