A decadência e queda do Império Otomano, no final da primeira Grande Guerra, (a história de T.E. Lawrence), acaba por significar a chegada dos Britânicos e o General Allenby, entra pela porta de Jafa, na cidade velha de Jerusalém, em Dezembro de 1917. O exército Britânico ocupa a cidade e em 1922, a Liga das Nações, na Conferência de Lausanne, confia ao Reino Unido, a administração da Palestina. Até 1948, a população da cidade triplica, sendo dois terços de Judeus e um terço de Árabes, (Muçulmanos e Cristãos). A situação tensa entre Árabes e Judeus, na Palestina, dava lugar a motins que tiveram especial gravidade nos anos de 1920 e 1929.

Com a administração Britânica a cidade continuou a crescer, para Oeste e para Norte e criou-se a Universidade Hebraica.

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Com o final do ‘’Mandato Britânico da Palestina’’, o ‘’Plano da Partilha das Nações Unidas de 1947’’, recomendou a criação de um regime internacional, em especial na cidade de Jerusalém. O regime especial internacional, deveria vigorar por um período de 10 anos, após o qual seria realizado um referendo, pelo qual, os habitantes da cidade, poderiam decidir qual o futuro estatuto da cidade. Este plano nunca foi implementado, devido à retirada dos Britânicos, à declaração da independência de Israel e à Guerra de 1948. A guerra levou ao deslocamento das populações Árabe e Judaica para fora da cidade. O inevitável cortejo de arbitrariedades, violência, expulsões e execuções, voltou a manchar o chão milenar e sagrado, para as três religiões monoteístas, de Jerusalém.

A cidade acabou por ser dividida entre Israel e a Jordânia, pela linha de armistício e cessar-fogo de 1949, que atravessava o centro de Jerusalém. Os muros e barreiras de arame farpado, passaram a separar as zonas Leste e Oeste, cravando mais uma chaga no coração da cidade. O estado de Israel declarou Jerusalém como sua capital, após e sua criação, e a Jordânia anexou formalmente a zona Oriental em 1950, assumindo o controle da cidade velha. O acesso de Israelitas aos lugares sagrados Judaicos foi vedado, pelas autoridades Jordanas, e o acesso aos locais sagrados cristão foi limitado. As Mesquitas da Rocha e de Al Aksa foram renovadas e ampliadas. Mais uma vez as religiões, embora diferentes umas das outras, em vez de unirem os povos e culturas, separavam-nos e antagonizavam-nos.

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Com a ‘’Guerra dos seis dias’’, em 1967, Israel ocupou Jerusalém Oriental e passou a dominar toda a cidade. O acesso aos lugares sagrados do Judaísmo foi restabelecido e o Monte do Templo permaneceu sob a jurisdição de um Muçulmano, o ‘’Waarf’’. O bairro Marroquino, junto ao ‘’Muro das Lamentações’’, foi desocupado e destruído, para dar lugar a uma grande praça adjacente ao muro. Nestas últimas décadas, os colonatos Israelitas têm-se expandido para Leste da cidade, criando uma cintura de regiões de maioria de população Judaica, nesses bairros.

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Depois de Israel ter aprovado a ‘’Lei de Jerusalém’’, que declara a cidade como capital unida do Estado de Israel, O ‘’Conselho de Segurança das Nações Unidas’’, aprovou uma resolução que declarava essa lei, como uma violação do Direito Internacional, apelando a que todos os estados membros, retirassem as suas embaixadas da cidade.

O estatuto de Jerusalém, em especial o dos seus locais sagrados, continua a ser a questão central e insolúvel do conflito Israel/Palestina. Os colonatos Israelitas continuam a expandir-se por locais históricos e em terrenos confiscados aos Palestinianos. Os Muçulmanos continuam a negar qualquer laço histórico entre Jerusalém e o Judaísmo. Os Palestinianos encaram Jerusalém, como capital, do futuro Estado Palestiniano. Os limites da cidade e o tipo de ocupação urbana dos territórios envolventes de Jerusalém, têm sido tema de conversações permanentes, e sempre infrutíferas, entre as diversas partes em conflito, sempre tendo como intermediários outras partes e organizações internacionais.

Será possível, um dia, que Jerusalém seja um símbolo de paz para os homens, um lugar sagrado, aberto a todas as comunidades e religiões?

Eu acredito que sim.

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Jerusalém está situada a Sul do Planalto da Judeia, que inclui o Monte das Oliveiras, a Leste, o Monte Scopus, a Nordeste. A cidade velha ergue-se no centro de Jerusalém, cercada por vales e leitos de rios secos, os ‘’wadis’’. Nos tempos Bíblicos, Jerusalém foi cercada por amendoeiras, oliveiras e pinheiros, mas ao longo de milénios de guerras, a magnifica paisagem envolvente, foi destruída e os agricultores passaram a construir terraços de pedras sobrepostas, para protegerem os terrenos, essa é a imagem que os nossos olhos captam em redor de Jerusalém.

O problema de abastecimento de água à cidade permanece desde há milénios, o elaborado sistema de aquedutos, cisternas e reservatórios, construídos ao longo de séculos, assim o demonstra.

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Israel é um país de reduzida área e Jerusalém está localizada no interior, mas não muito longe do Mediterrâneo e de Tel Aviv, (60 quilómetros), encravada nos territórios ocupados da Cisjordânia, a Palestina, na margem Ocidental do Jordão. O Mar Morto está a apenas 35 quilómetros, a cidade de Belém está nos arredores e Jericó e Ramallah, na Palestina, também estão bem próximos de Jerusalém. Esta exiguidade territorial de Israel e do futuro estado Palestiniano, onde as distâncias se contam, no terreno, apenas por poucas dezenas de quilómetros físicos, estão separadas por uma barreira cultural, social, religiosa, política, de direito e de facto, que os homens souberam construir, mas que não querem, ou não sabem, ou não têm a coragem de destruir. Esta é a realidade e não devemos ter a ilusão de que na cidade Santa de Jerusalém irão acontecer feitos milagrosos de origem divina, de qualquer das três grandes religiões monoteístas, apenas a boa vontade dos homens poderá construir o verdadeiro milagre terreno e de origem humana, o milagre da Paz.

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‘’…Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apague-se-me a língua e o paladar, se não me lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria…’’ (Salmos 137:5-6).

 

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Hoje, Jerusalém é a maior cidade de Israel, com mais de meio milhão de habitantes, Judeus Israelitas e Árabes da Palestina, (incluindo 14 mil Cristãos), é também o mosaico cultural e religioso que se pode adivinhar numa cidade santa e milenar. A cidade velha, belíssima e extensa, dividida em diversos bairros culturais e religiosos antagónicos, explode periodicamente em surtos de violência incontrolável, entre essas mesmas comunidades, em redor dos locais sagrados e de culto. Jerusalém sofre debaixo da intolerância e da pouca boa vontade dos homens, quando afinal seria bem fácil encetar o primeiro gesto de um abraço entre irmãos desavindos. Em redor do Monte do Templo, da esplanada das Mesquitas, da Via Dolorosa e até dentro do próprio Santo Sepulcro, é demasiado forte a linha que todos separa e demasiado ténues os laços que todos deveriam unir. Todas as partes em conflito se esquecem de que o mundo é bem maior do que os problemas de cada uma delas. E de que a paz é o único caminho.    

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Os locais históricos e religiosos estão bem preservados, mas é uma cidade em permanente expansão, de novos bairros, universidades, pólos culturais e de investigação. Deste crescimento também nasce o confronto, o conflito, ao invés da luz. Pela implantação física e geográfica da própria cidade, Jerusalém está encravada na Palestina e rodeada por bairros e cidades satélites com uma maioria de populações Árabes Palestinianas, por estas razões, cada rua que se rasga, ou cada edifício que se constrói, na periferia envolvente da cidade, faz sempre parte de um plano político de estratégia de ocupação de território e provoca reacções e conflitos. Assim se vive em Jerusalém.

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É recorrente afirmar-se que Jerusalém é a cidade santa das três grandes religiões monoteístas: o Cristianismo, o Islão e o Judaísmo, mas a natureza desta santidade difere nas três religiões:

Para os Judeus, a própria cidade é santa, foi escolhida por Deus na sua aliança com David. Jerusalém é a essência e o centro da existência e continuidade espiritual e nacional Judaica. Durante mais de 3 milénios, desde os tempos dos Reis David e Salomão e da construção do ‘’Primeiro Templo’’, Jerusalém tem sido sempre o centro e objectivo da evocação Judaica. Há mais de 2000 anos que os Judeus se viram na direcção de Jerusalém e do Monte do Templo, quando rezam, onde quer que estejam.

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Para os Cristãos, Jerusalém é a cidade dos lugares santos da vida e paixão de Jesus Cristo, locais de peregrinação, prece e devoção, tradicionalmente identificados durante os primeiros séculos de Cristianismo, quando da conversão do Imperador Romano Constantino.

Na tradição Muçulmana, o Monte do Templo é denominado como ‘’o mais remoto santuário’’ de onde o Profeta Maomé, acompanhado pelo Arcanjo Gabriel.  Fez a ‘’Jornada Nocturna ao Trono de Deus’’, (Alcorão, Sutra 17.1, Al-Isra).

A ‘’lei de Protecção dos Lugares Santos’’, nº 5727 de 1967, garante a liberdade de acesso aos locais sagrados para os crentes das diferentes religiões.

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A soberania Judaica de Jerusalém, terminou no ano de 135 d.c., com  a repressão da ‘’Segunda Revolta Judaica’’ contra Roma, e só foi retomada em 1948, com a criação do Estado de Israel. Mas ao longo de quase 2000 anos de história e de ocupação e domínio de diversos poderes, as comunidades Judaicas permaneceram em Jerusalém, embora muitas vezes de forma residual, mas desde 1870 as populações Judaicas passaram por um enorme crescimento. Com a guerra de 1948 e a consequente divisão da cidade, as Sinagogas e as academias religiosas, localizadas no bairro Judaico da cidade velha, foram muito destruídas. Com a reunificação da cidade, por Israel, após a ‘’Guerra dos Seis Dias’’, em 1967, procedeu-se à reconstrução de todo o bairro Judaico.

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Em cada guerra e após cada vitória de uma das partes em conflito, aquela que deveria ser a mais nobre e sagrada das cidades, a cidade da Paz, sofre o estigma de novos muros e barreiras, que separam não só os corpos dos homens, mas também os espíritos e os corações.

Estas linhas e imagens são um ténue retrato de um dia em Jerusalém, uma cidade que deveria ser de todos e para todos, porque as pedras de Jerusalém são património histórico, cultural e religioso de todos nós, até dos agnósitcos, como este céptico que aqui escreve e que procura um caminho, entre muitos percursos, mas nada encontra.

 

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