Depois de um delicioso pequeno-almoço madrugador, digno de um profeta, tomado no ‘’Toledo’’, doces pedaços de melancia, deliciosas fatias de melão, iogurte com pêssegos e cereais, sumos naturais, diversos tipos de queijos e pães com sementes, e para terminar café, ou chá. Partimos de táxi, eu e as minhas companheiras, rumo à fronteira entre a Jordânia e a Cisjordânia.

Confesso que nessa manhã ainda sentia dificuldade com os nomes das meninas. O ‘’Tico’’ e o ‘’Teco’’, que são as duas partes que compõem o meu cérebro, e têm imensa capacidade para decorar livros inteiros, ‘’filmes de autor’’ e dinastias complexas Hititas, Egípcias ou Abissínias, mas pouco espaço livre de memória para nomes de pessoas, levaram algumas horas a fixar os nomes da Nídia, Susana, Al, Olga e Lili.

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Eu segui, no táxi, ao lado do nosso novo amigo, o Sayed, um simpático e conversador Jordano, de tradicional bigode e vasta cultura geral sobre a temática Árabe. As cinco ‘’compañeras’’ seguiam nos dois bancos posteriores. Combinámos o percurso até à ‘’complicada’’ fronteira entre a Jordânia, Palestina e Israel.

Saídos de Amman, por vias rápidas e circulares externas, e descendo em direcção ao vale de um estreito e tímido Rio Jordão, em 20 minutos, o táxi do Sayed deixou-nos no pátio do posto fronteiriço Jordano. Um edifício baixo e sombreado, de espaços reduzidos, mas onde sentimos que a burocracia Árabe funcionava. Logo na primeira sala de controlo dos passaportes e vistos de entrada no Reino Hachemita, surgiu o primeiro problema, os vistos de entrada da Olga e da Lili, eram de grupo e não lhes permitiam saídas e entradas individuais no território Jordano. Passo a explicar, quando elas chegaram à Jordânia, procedentes de Istambul, num voo da ‘’Turkish Airlines’’, os passageiros não Jordanos, foram agrupados em grupos aleatórios de 5 pessoas, e os vistos passados gratuitamente. Quem gosta de viajar, ao sabor de alguma aventura, tem que saber tomar decisões rápidas e adequadas, que não inviabilizem a finalidade da aventura, mas sempre no espírito de grupo e de um companheirismo saudável. A Olga e a Lili, prontificaram-se a regressar a Amman, de imediato, chamámos o nosso amigo Sayed, que as levou de regresso à capital Jordana. Combinámos reencontrar-nos à hora de jantar, no ‘’Toledo’’, em Amman.

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O espírito prático e a capacidade de improviso, são fundamentais quando nos deslocamos, sem ser em grupo previamente organizado. E A Olga e a Lili, demonstraram estar dentro dessa forma de agir, ao optarem de imediato por regressar a Amman, enquanto nós os quatro seguiríamos para Jerusalém.

As formalidades de saída da Jordânia foram rápidas e em poucos minutos estávamos num mini autocarro, sobre a Ponte Rei Hussein, em direcção ao posto fronteiriço de Israel, que controla a entrada e atravessamento da Palestina, (ou Margem Ocidental, ou Cisjordânia). As entradas e saídas do território teoricamente autónomo, governado pela Autoridade Palestiniana, a partir da cidade de Ramallah, são controladas por militares de Israel.

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Já na zona Israelita, onde a ponte passa a chamar-se Allenby, a estrada alarga-se junto a um vasto edifício de cor ocre, com barreiras metálicas, formando corredores de acesso à zona de controlo. A forte presença militar Israelita, parecia saída de uma ‘’passerelle’’ de Paris ou Milão, altos e bem constituídos, com calças camufladas de cor verde e t-shirts civis, justas aos peitorais e bícepes, fizeram-me sentir um trapo velho e amarrotado. E ainda o dia estava a começar.

Largas centenas de Palestinianos, agrupavam-se, em longas filas compactas de famílias inteiras, carregados de pesadas bagagens e grandes depósitos para água, aguardavam a vez e autorização para passar a fronteira da sua pátria ocupada, a Palestina, para a vizinha Jordânia. Os corpos cansados, as roupas escuras e os olhares tristes, como um grito de medo, impressionaram-nos fortemente.

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Lembrei-me de muitas fotografias, tiradas ao longo do século XX, nos locais mais diversos e dispersos desta nossa Terra, povoada de alguns homens injustos e de muitas vítimas. Em todos esses documentos, para ver e não esquecer, para que não se repitam, vi o mesmo olhar, não sei se transmite o medo, ou a total ausência de esperança.

Naquela manhã quente de Agosto de 2010, senti-me como que ferido e incomodado por sair da minha zona de conforto, porque todos nós temos uma de protecção e conforto, dentro da qual observamos a realidade, numa sala confortável, sentados frente a uma imagem. Quando escapamos da bolha protectora, em que vivemos e nos movimentamos quotidianamente e nos deparamos com os factos, sentimos o cheiro da realidade e da verdade. Então sentimos, aquela espécie de dor indecifrável e a ausência de palavras e de reacções, que nos tolhe o pensamento e inibe o movimento. Foi assim que me senti, profundamente triste, chocado e com uma estranha vergonha de os olhar, como se fosse cúmplice e carrasco daquela imagem, mesmo tendo a certeza de que nunca o havia sido.

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Eu tive vontade de gravar no cartão digital, as imagens daquele grupo, mas a mão não se moveu mais do que para a abrir a máquina fotográfica e a nossa fotógrafa profissional, a Nídia, ainda guardou algumas imagens, mas um militar Israelita chamou-nos, pediu as máquinas e apagou as poucas fotografias. Perante o nosso gesto de caminhar em direcção ao final da longa e larga fila de Palestinianos, os militares Israelitas, chamaram-nos e informaram de que não seria necessário aguardar pela nossa vez, pois não sendo Palestinianos, procederiam de imediato ás formalidades de entrada em Israel, mas na verdade estávamos a entrar na Cisjordânia, ou na Palestina, um semi-estado, com governo e território próprios. Só escassas dezenas de quilómetros depois, na periferia de Jerusalém, entramos de facto, em território do Estado de Israel.

Segundo o professor universitário de Heidelberga e Basileia, Georg Jellinek, (século XIX e início do século XX), na sua ‘’Teoria Geral do Estado’’, o Estado compõe-se por três entidades, ’’… Povo, Território e Poder…’’. Na Palestina existe parte de um povo disperso, um território fragmentado, cercado por um muro e um poder aparente que assenta num executivo e num parlamento, mas que não tem sequer o poder e a autonomia de controlar as suas próprias fronteiras. Será isto um estado? Eu não sei, mas tenho sérias dúvidas de que possa ser encarado como tal.

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As nossas formalidades aduaneiras, junto das autoridades israelitas, foram eficientes, mas exageradamente lentas, o que se compreende devido aos receios de atentados terroristas. Questionaram-nos acerca do destino final, Jerusalém, do facto de não transportarmos bagagem, apenas máquinas fotográficas, se tínhamos família ou amigos em Israel e se entraríamos em contacto com eles. Se ficaríamos de noite em Jerusalém, ou em outro qualquer local de Israel, ou se regressaríamos à Jordânia, a Amman. Foram simpáticos e além de um Inglês correcto, falaram comigo num perfeito Espanhol. Atravessámos vários balcões de controlo e pagámos as necessárias taxas de entrada.

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Eis-nos na Palestina e começou uma nova etapa, procurar transporte para Jerusalém. Os táxis abundam, mas são caros e nos pequenos autocarros para 8 passageiros, um bilhete de ida custa cerca de 7 Euros. Em poucos minutos, nós, os quatro Tugas, com uma família Italiana de origem Jordana, um casal com dois filhos pequenos, vindos de Mestre, Itália, percorríamos já a árida Palestina, em direcção a Jerusalém. A viagem foi curta e rápida, sem paragens, e a paisagem agreste pontuada com algumas barracas em chapa de zinco, dispersas pelas colinas de terra seca. Reduzidos rebanhos, de esquálidas cabras, pontuavam a região desértica. Senti-me como se viajasse num percurso rápido, entre o Antigo e o Novo Testamento, mas não havia vida nesse caminho, apenas a desolação de uma terra de ninguém. Só quando cheguei à periferia de Jerusalém, a paisagem física e humana mudou.

Dois países, tão perto etão distantes; um eternamente sacrificado, a sofrida Palestina. O outro sempre priveligiado, Israel. Como escreveu Orwell ”…todos os homens são iguais, mas uns são mais iguais do que outros…”. Infelizmente esta é a verdade, por esta razão emuitas outras é que o mundo é um lugar imperfeito.

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