A Jordânia sempre foi um país de acolhimento, nunca fechou as fronteiras ás populações vizinhas fugidas dos terrores da guerra e das perseguições. Como resultado das duas guerras do golfo, a população Iraquiana, ascende ás centenas de milhares, a maioria sem documentos, e mais de um milhão de Palestinianos, fugidos das sucessivas guerras e ocupações Israelitas.

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A grande maioria da população Jordana é de origem Árabe, de língua oficial Árabe e de religião Muçulmana, principalmente de tradição Sunita. Coexistem algumas minorias de Arménios e reduzidos grupos étnicos de origem Caucasiana. Nas zonas fronteiriças com a Síria, habitam grupos étnicos e religiosos Alavitas, (de tradição Xiita). Existem também algumas pequenas comunidades Cristãs, das quais um terço pertence à Igreja Ortodoxa Grega.

 A Jordânia é um país pequeno e de recursos naturais limitados, a economia do reino depende da exploração de fosfatos, carbonato de potássio e, mais recentemente, na última década, do turismo. Consegue resolver parte das suas necessidades energéticas pelo recurso ao gás natural e importa petróleo, a preços muito reduzidos, dos países vizinhos, nomeadamente do Iraque

Esta rodeada de gigantes, pelos senhores do petróleo, por inimigos, rivais e pelos senhores da guerra, mas apesar destes condicionalismos geográficos, soube viver e sobreviver com a dignidade que no seu povo merece. A história do petróleo

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A Jordânia, é um país do Médio Oriente, limitado a Norte pela Síria, a Leste pelo Iraque, a Leste e a Sul pela arábia Saudita, a Oeste pelo Golfo de Acaba, (a estreita saída Jordana para o mar, através do qual faz fronteira marítima com o Egipto), por Israel e pelos territórios Palestinianos da Cisjordânia. Apetece dizer’’…com amigos e vizinhos destes, ninguém precisa de inimigos…’’. Aí vem em pouco mais de 90.000 quilómetros quadrados, cerca de 6 milhões de habitantes.

 É um país pobre e árido, encravado entre inimigos, mas nem por esses condicionalismos geográficas e políticas, a Jordânia deixou de ser a casa de acolhimento daqueles, talvez milhões, que fugiam das guerras do Médio Oriente. É sempre o mais pobre o que estende a mão, partilha a pouca alimentação e oferece um tecto.

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O território Jordano assenta essencialmente num grande planalto que desce desde as montanhas da zona Ocidental, monte Ramm a Sudoeste, até ás fronteiras Orientais. A parte ocidental do país é a mais acidentada, não só devido ás cadeias montanhosas, mas também à descida abrupta até à depressão que liga o Mar Vermelho, o Mar Morto e o vale do rio Jordão. A grande ferida na crosta terrestre do Rift, que se estende por milhares de quilómetros até aos grandes lagos Africanos, aqui começa. As placas tectónicas da crosta chocam e empurram-se em conflito permanente entre as margens Leste, (desértica e árida), e Oeste, (mais fértil), do rio Jordão. À imagem da geologia da crosta, os homens criaram a ideologia dos países que bordejam o Rift. Numa margem Israel, na outra a Jordânia, entre ambos, o rio e o mar Morto. Nada aparece por acaso, no mundo dos homens, tudo tem uma razão de ser, como se em redor deste mar interior, estéril e salgado, os Deuses de todos os lados tivessem castigado os homens com a impossibilidade de poderem viver em paz.

As condições climáticas e a disponibilidade de água, são os factores que determinam a distribuição das populações, ao longo do Jordão, Lago Tiberíades, Mar Morto e nas duas grandes cidades. Com uma expectativa de vida elevada, o aumento demográfico é crescente e constante.

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Um país, uma região, ou uma cidade, que visitamos e vivemos, ou que, pelo menos, tentamos conhecer, são como tentar sentir as pessoas que passam pelas nossas vidas. Umas permanecem por toda a vida, mesmo que passem rápido, outras ficam por pouco tempo físico, junto de nós, mas todas deixam marcas nos nossos espíritos. Se em determinados períodos das nossas vidas, por exemplo em cada lustro ou em cada década, pararmos para olhar o passado, então veremos que tudo é demasiado rápido, tremendamente efémero. Tudo passa, com a velocidade que o tempo e a vida obrigam, mas quase tudo permanece em nós. Cada viagem é como a vida, tem um início e um fim, mas prolonga-se para muito além do deu final físico. E como na vida, que não é mais do que uma viagem, cada viagem também é, a vida dos que conhecemos pelo caminho e que nos emprestam alguns momentos das suas próprias vidas.

Quanto à bagagem, aplico o mesmo método que ao espírito, o menos é sempre mais, assim carrego muito menos peso, no corpo e na mente. Levo sempre 2 livros em cada viagem, um guia não demasiado exaustivo, e um outro livro, que nada tenha a ver com a viagem, para as largas noites, longas esperas em aeroportos e viagens de avião e de comboio. Gosto dos guias ‘’American Express’’, por estarem traduzidos em Português, pelo grafismo e por serem mais apelativos, mas os ‘’Lonly Planet’’ são os mais práticos e elementos essenciais numa viagem não demasiado organizada.

O meu companheiro de viagem e de quarto, nesta viagem pelo Médio Oriente, foi o livro ‘’A Sombra dos Dias’’ de grande escritor Catalão, Carlos Ruiz Zafón. Foi ele o meu colega de quarto nas noites quentes da Jordânia, adormeci com Julian Carax e o ‘’cemitério dos livros esquecidos’’, assim temperei o clima, com o fresco da Barcelona da primeira metade do século XX.

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Para o quente clima de um Verão na Jordânia, a roupa e equipamento pode bem ser reduzido a escassos quilos. Longe vãos os bons tempos em que podia transportar tudo em bagagem de mão, mas nos tempos que correm, de claustrofobia e paranóia colectiva, a maior parte das vezes totalmente infundados, levantam impedimentos a todos aqueles que, como eu, gostam de viajar, conhecer e aprender em liberdade.

Cheguei à Jordânia e a Amman sem outra companhia, a não ser ‘’…eu e a minha circunstância…’’. Estava consciente e motivado de que provavelmente iria fazer uma viagem, mais ou menos à aventura, entre o organizado e planeado quanto baste e o desorganizado quanto me apetecesse. Depois da calorosa chegada ao aeroporto e de instalado no ‘’Toledo’’, subi à recepção, (é mesmo assim que devo dizer, pois eu estava instalado no piso 3 e o ‘’lobby’’ no piso 7), para planificar o dia seguinte, saber de algumas hipóteses de táxis, ou autocarros, para Jerusalém, ou Damasco. Ficou combinado que partiria para a fronteira, entre a Jordânia e a Cisjordânia ocupada por Israel, de táxi, pelas sete horas da manhã. A partir da fronteira teria que procurar transporte para Jerusalém.

Deitei-me sem sono e ainda tive tempo de mergulhar nas páginas de ‘’A Sombra do Vento’’, adormeci já bem tarde e……, numa madrugada escaldante, conheci as minhas companheiras de viagem!

Leitor atento, nada de conclusões precipitadas, pois eu vou contar a ‘’estória’’: nessa madrugada quente, fui acordado pelo telefone, cerca das 3 horas. A primeira reacção foi de susto, mas logo fui informado, pelo mesmo recepcionista a quem tinha perguntado sobre os transportes para Damasco ou Jerusalém, que alguns viajantes, acabados de chegar de Istambul, também pretendiam partir, à aventura, na manhã seguinte, para Jerusalém. Quereria eu, viajar com eles?

Os laços entre os viajantes tecem-se e estreitam-se, ás vezes em poucas horas de aventura, de um modo muito mais intenso, do que em anos de convivência com pessoas que nos são indiferentes.

Não costumo frequentar hotéis em Portugal, mas ‘’apenas’’ no resto do mundo, e por esta razão, devo ser um ‘’sortudo’’ na forma como sou bem recebido e tratado. A Jordânia e todos os países Árabes, são o bom exemplo de como nos podemos sentir bem ‘’fora de casa’’, ás vezes melhor, do que neste rectângulo, ‘’…à beira-mar plantado…’’.

Em segundos, vesti uns calções ‘’decentes’’, para subir à recepção, do terceiro ao sétimo piso, pois o ‘’Toledo’’ implanta-se pendurado numa colina de Amman.

Cheguei rápido e desalinhado, ensonado também, e encontrei cinco mulheres jovens, para minha grande surpresa, também Tugas. Viajavam em dois grupos, a Susana, a Al e a Nídia, vindas de Guimarães, a Olga e a Lili, da região de Lisboa. A surpresa delas, foi o depararem-se no átrio de um hotel de Amman, com um exemplar masculino, quase cota, tipo Russo, ou Ucraniano, meio despido, ou meio vestido, que ainda por cima e para espanto de todas, falava em Português.

O mundo é bem pequeno para o nosso espírito e as nossas vontades de conhecer e aprender, por esta soma de razões, conseguimos encontrar, muitas vezes, os companheiros adequados a cada viagem. É sempre bom encontrar Portugueses que usam a nossa forma de partilhar experiências e vivências.

Sempre fugi dos grandes aglomerados de hotéis, frequentados por obedientes rebanhos, identificados com a estigmatizante pulseira do ‘’tudo incluído’’, com mais velocidade do que o diabo a fugir da cruz. Não gosto de lugares de moda, nem de turismo massificado, onde enormes grupos, convivem e vivem apenas com eles próprios, desperdiçando dinheiro e desconhecendo tudo o que os rodeia, por opção e decisão próprias, mas ainda bem que assim acontece, pois fica mais mundo para eu conhecer. Nada tenho contra os que procuram esse tipo de turismo global, mas ‘’…não é a minha praia…’’. Sei que sou egoísta, mas pelo menos tenho o escasso mérito de escrever aquilo que penso, que sinto e que faço.

Gosto do desconhecido e da aventura. E sei que por onde quer que me desloque, desde os Andes aos Himalaias e das savanas Africanas até ás pequenas povoações perdidas na Europa central, é fácil encontrar um companheiro de aventura que fale a língua do Padre António Vieira, talvez o mais universal e corajoso dos Portugueses que se perderam, por livre vontade, para tentar construir um mundo melhor.

E foi assim que conheci as minhas companheiras de aventura, depois das confusas e necessárias apresentações, retirámo-nos rápidos, para pouco mais de uma hora de apressado sonho, antes que o chamamento do ‘’Muezzin’’ nos despertasse, mas este primeiro dia de aventura, vai ficar para o final desta história.

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Ao longo dos dias de aventura na Jordânia, muitas vezes partimos de manhã, bem cedo, do ‘’Toledo’’, para regressar cansados e cheios de fome, ao final do dia, para os deliciosos e abundantes manjares que os cozinheiros do ‘’Toledo’’, nos prepararam. O restaurante do hotel, era essencialmente frequentado por grandes famílias Jordanas tradicionais, de visual e vestuário conservador. As mulheres, vestidas de escuro e com os cabelos cobertos com lenços, mantinham-se discretamente afastadas dos poucos hóspedes do hotel, os homens de fato completo e as crianças com roupas domingueiras, celebravam cada noite, o final de mais um dia de Ramadão. Cada jantar era uma festa prolongada, destinada a repor as energias perdidas e a preparar um novo dia de jejum.

A partir do ‘’Toledo’’ fizemos diversas viagens até à zona central e Norte da Jordânia, muitas vezes entrámos e saímos de Amman, em direcção aos ‘’Castelos do Deserto’’, à fronteira Síria e Iraquiana, a Jerash, a Jerusalém, a Israel e à Palestina, ao Rio Jordão e ao Mar Morto. Todas as noites, passeámos a pé, pela zona central da cidade e passámos a senti-la, um pouco como nossa, por um determinado período de tempo.

Amman, a capital do reino, tem um longa história e foi local de passagem, ou de assentamento, de diversas civilizações. Os mais antigos registos apontam para a permanência de populações durante o Neolítico, aproximadamente 8.500 a.c., no lugar de Ain Ghazal, localizado a leste de Amman, onde as descobertas arqueológicas demonstram crescimento de trabalho artístico. O que evidencia a existência de uma civilização já desenvolvida, para aquela época.

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No século XIII a.c. os povos Amonitas chamam ao lugar de Amman, Rabbath Amon. Nos escritos Hebraicos a cidade é referenciada como Rabbat Ammon. Sucederam-se, ao longo dos séculos, os Assírios, os Persas e os Gregos. Uns passam mais rápidos, outros estabelecem-se e permanecem por gerações. Um dos Faraós de origem Grega do Egipto, Ptolomeu II Filadelfo, rebaptizou a cidade com Filadélfia.

Posteriormente a cidade passa a fazer parte do reino Nabateu, até 106 d.c. Continua a denominar-se Filadélfia, durante a ocupação Romana, juntando-se à Decápole: um conjunto de dez cidades de tradição e cultura Helenística, grande dinâmica comercial, autónomas, mas que se uniam em caso de necessidade.

Com a adopção do Cristianismo como religião oficial do império Romano, em 326 d.c., no reinado de Constantino, a cidade de Filadélfia tornou-se sede de bispado. Uma das Igrejas Bizantinas igreja ainda permanece na cidadela de Amman.

Filadélfia passou a ser chamada de Amman, durante a época Ghassaniana e continuou a florescer sob os Califados Omíadas de Damasco e Abássida de Bagdad. Após a ascensão vem o declínio e os terramotos e desastres naturais abatem-se sobre a cidade que permanece uma pequena vila em ruínas, durante séculos. A sorte e o destino de Amman, mudam quando o Sultão Otomano decide construir a linha férrea de Hejaz, ligando Damasco a Medina, facilitando a peregrinação anual do Hajj e transformando Amman num entreposto comercial permanente no caminho da peregrinação aos locais sagrados da península Arábica.

Corria o ano de 1920, quando Abdullah I, escolheu Amman, como sede do governo do seu estado recém-criado do Emirato da Trans-Jordânia, e posteriormente como capital do Reino Hachemita da Jordânia. Como não existia na cidade nenhum edifício digno de ser considerado sede do governo do novo país, o rei Abdullah I começou o reinado a partir da estação de caminhos-de-ferro, o escritório foi uma carruagem de comboio.

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Mas Amman foi uma pequena cidade provinciana até 1948. A população só aumenta significativamente com as sucessivas vagas de refugiados de todos os conflitos do Médio Oriente, até ás guerras do golfo e à invasão do Iraque, após 2003, que fizeram crescer a cidade de uma forma caótica e desorganizada. A escassez de água, a deficiência de infra-estruturas básicas e planeamento urbanístico, aliadas a uma multidão Árabe multicultural e multinacional, não conseguiram retirar o encanto a uma Amman, já do século XXI, que se estende sobre colinas.

A capital cresceu ao longo de décadas e estendeu-se muito além das sete colinas, como Roma, ou Lisboa. Nos vales estendem-se e alargam-se vias rápidas e circulares externas com tentáculos que nos conduzem quase até ao centro da cidade. O trânsito é intenso, mas bem menos caótico do que no Cairo ou em Istambul e os grandes edifícios dominam a linha de horizonte ondulante nas colinas. Os bairros habitacionais sucedem-se em construções de dois, três ou quatro pisos, todas forradas em pedra calcária de cor ocre, dando a Amman uma homogeneidade que, longe de ser monótona, encanta. Todos os caminhos confluem, como um rio, para o centro, a baixa, que de histórico já tem pouco, mas tem vida e palpita de cores, cheiros, contrastes e emoções, como só uma cidade Árabe sabe viver e sentir.

O Leste de Amman é a zona mais antiga da cidade, onde as pequenas moradias sobem e descem as colinas, penduradas entre pequenas lojas tradicionais. A velha Amman dos Souks e bazares, dos bairros populares, na zona Oriental é o coração da cidade. De carácter físico e humano essencialmente Árabe e Muçulmano, a cidade velha é, um oásis de tolerância e respeito, pela tradição dos Jordanos e pelas religiões, crenças e hábitos dos visitantes. Devemos perder-nos voluntariamente em Jabal Amman para sentir e viver a cidade velha e conhecer os habitantes que lhe dão vida.

Jabal Al Qal’a, o morro da Cidadela de Amman, foi habitado durante séculos, como um importante local religioso e militar. As origens remontam talvez à Idade do Bronze, chegando os vestígios habitacionais, até aos tempos Romanos do Imperador Marco Aurélio, (século II d.c.), com a construção do templo de Hércules, semelhante ao templo de Artemisa, em Éfeso. Da cidadela da antiga Filadélfia, os Romanos governavam a região, mas a vida não se resumia apenas a administração do império e junto ao Fórum, ergueu-se o maior teatro romano da Jordânia, com capacidade para 6.000 espectadores, mandado construir talvez no reinado do Imperador Antonino Pio, (século II d.c.).

Os Bizantinos também ocuparam e edificaram a cidadela e alguns séculos depois, com a época Islâmica, foram realizadas obras importantes no mesmo morro da cidadela. O que sobreviveu da milenar Filadélfia, foi muito pouco, a outrora poderosa, altiva e comercial cidade, devido a uma ocupação sucessiva e constante, foi sendo delapidada do seu passado construído, para edificação de novas construções. Assim as pedras antigas, foram sendo utilizadas em construções novas, num ciclo destrutivo constante em que cada novo habitante e ocupante, se servia do passado para viver melhor o seu presente. Este devaneio destrutivo que durou muitos séculos em locais históricos e arqueológicos primordiais e fundamentais em todo o mundo, foi a norma comum, sempre que o povoamento se apresentava contínuo e permanente.

A Amman dos nossos dias continua a ser uma cidade de Mesquitas. A mais recente é a enorme e azul Mesquita do Rei Abdullah I, datada da década de oitenta do século passado. Mas a mais interessante e curiosa Mesquita construída em Amman, é a de Abu Darweesh, construída pela minoria Circassina oriunda do Cáucaso e implantada no ponto mais elevado da cidade e com uma cobertura de grande beleza, num padrão negro e branco, extraordinário, que se torna visível a grande distância. Como contraste, o seu interior é despojado, de paredes de cores claras e bonitos tapetes Persas.

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Percorremos as ruas descendentes, num fim de tarde abrasador, num Verão de Ramadão, a caminho do centro de Amman. Os corpos cansados dos habitantes da capital, depois das muitas horas de um longo jejum diurno, ansiavam já por um cair do Sol que tardava. Preparavam-se com azáfama e alegria, as bancas de frutas, sumos e de alimentos fortes e saborosos que ajudassem a recuperar as forças, após mais um dia de Ramadão.

Nas ruas do centro, junto à Mesquita, onde os trabalhadores ilegais Egípcios aguardam pela oferta de um escasso trabalho, os mercados de final de tarde, povoam-se de vendedores e compradores, homens na quase totalidade, animando-se em sons de gente boa e trabalhadora.

Os Jordanos são Árabes, de religião Muçulmana Sunita, tolerantes e afectuosos para com os estrangeiros visitantes, convidavam-nos a ver as bonitas bancas de saborosas frutas, abundantes em generosos figos e grandes cachos de doces uvas, laranjas e romãs de delicioso sumo e as melhores melancias que jamais houvéramos provado. Todo o tipo de frutos secos, empilhados em bancas de madeira, esperavam pelo descer do Sol. No calor tremendo da tarde, o mercado permanecia fresco, as ruas e vielas cobertas por largos panos coloridos e lonas que se estendiam entre as bancas e telheiros, convidavam-nos a parar e demorar, em amena conversa com os vendedores. Deixamo-nos cair em tentação e compramos quilos de fruta, uvas e mangas, para mais tarde, saborear no nosso confortável ‘’Hotel Toledo’’.

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Quanto mais conheço os Europeus do Norte, Nórdicos, Eslavos e Anglo-Saxónicos, mais admiro os povos Mediterrânicos, Árabes e Latino-Americanos. Os Árabes são simpáticos e conversadores, têm sempre sorrisos largos e fortes abraços para nos cativar, estão muito longe da frieza e desinteresse a que as nossas vivências Europeias nos habituaram.

Nas zonas mais frescas do mercado central de Amman, pica-se o gelo em grandes baldes e enchem-se sacos de sumos de frutas, assim se inventam doces e frios batidos de frutas, prontos a serem bebidos após mais um dia de Ramadão.

A totalidade dos compradores e vendedores são homens, eles gritam e apregoam os produtos frescos, com vozes graves e sonoras, estendem longos braços abertos e soltam gargalhadas fortes. Sentimo-nos entre amigos.

Mas as ruas centrais da baixa de Amman, não se esgotam apenas no mercado. As lojas de roupas, usadas e novas, colocam os manequins, de plástico e acrílico, nos passeios, e expõem belíssimas túnicas compridas em vistosos tecidos coloridos, bordados de pedrarias diversas. Parecem imagens delirantes de modelos de Jean Paul Gautier, expostos numa sala de Paris, e afinal, são apenas algumas lojas de Amman.

Percorremos a baixa de Amman, descontraídos e animados, porque a arte de saber ver e conhecer, transporta a felicidade de aprender. O omnipresente Cristiano Ronaldo sorri estampado em sacos e mochilas. É a globalização não pelo desporto, mas pela máquina publicitária.

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Em Amman, como em toda a Jordânia, sentimo-nos bem, em liberdade total de conversar com todo o tipo de pessoas, de colocar questões políticas, sociais e económicas, de fotografar rostos bonitos e sorrisos sinceros, de circular por todos os locais, em perfeita autonomia e sem constrangimentos de alguma ordem.

Todos os caminhos confluem para o centro da cidade e é fácil fazerem-se estes percursos descendentes a pé, depois, para o regresso aos hotéis, abundam os táxis baratos, (são a excepção ao elevado custo de vida Jordano), com motoristas simpáticos e agradáveis que não nos tentam enganar, como é hábito acontecer no nosso Portugal. É tão rápido e fácil ‘’apanhar’’ um táxi em Amman, como em Manhattan, basta levanta rum braço e aparece sempre um veículo. Os táxis para Damasco, partem de toda a cidade, a preços reduzidos, 10 Dinares para fazer cerca de 150 quilómetros. Os táxis para a fronteira da ponte Allenby, no caminho para Jerusalém, Israel e Palestina, são um pouco mais caros proporcionalmente, tendo em conta que a distância é curta, mas abundam veículos confortáveis, com ar condicionado, que transportam 8 passageiros, por um custo médio de 7 Dinares, (7 Euros), por passageiro.

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Amman é uma cidade cosmopolita e arejada, limpa e sem poeiras no ar, muito seca e árida, mas o que lhe falta em jardins e espaços verdes, sobra-lhe em afectos. É uma cidade muito árida, de cores ocres, que se alteram em amarelos fortes, com o cair do Sol, ganhando cada uma das suas colinas, uma tonalidade diferente, numa beleza cromática e volumétrica que prende o olhar e fascina os sentidos. As casas ostentam depósitos de águas nos terraços, onde se acumula o precioso líquido que não é distribuído todos os dias, mas os Jordanos habituaram-se a poupar a água, com um rigor e parcimónia que só nos ficaria bem tentar imitar. A sagrada água, que no Médio oriente é tão escassa, e que nós todos desperdiçamos, todos os dias, de muitos maneiras criminosas.

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É uma cidade muito cara, excessivamente cara, com um custo de vida igual ao de muitas capitais Europeias. Até neste aspecto a capital Jordana foge do estereótipo das grandes cidades do Médio Oriente. O Dinar Jordano está equiparado ao Euro, é uma moeda estável e com grande procura em todos os países vizinhos. Cabe referir que o nível de vida dos Jordanos é elevado, com preços altos e salários bem superiores aos de outros países Árabes. Ficámos surpreendidos por no vizinho estado de Israel e em particular na cidade de Jerusalém, os comerciantes demonstrarem preferência especial pela moeda Jordana, que tem uma cotação cerca de 5 vezes superior à unidade monetária Israelita. Não nos apercebemos de miséria, de pedintes e de sem-abrigo.

Uma refeição, num restaurante de Amman, chega aos 15 Dinares, ou seja, 15 Euros por pessoa. Por toda a Jordânia encontrámos preços acima dos 13 Dinares por pessoa e por refeição. A alimentação é muito boa, com abundante e deliciosa fruta, (as melancias sem grainhas são saborosíssimas), todo a variedade de saladas, entradas tipo ‘’tapas’’ e todo o tipo de carnes, (à excepção do porco). O consumo de carne parece ser exagerado e alguns pratos de borrego, ou cordeiro, apresentam-se excessivamente temperados e gordurosos, para o nosso paladar. Sem procurar melindrar os nossos anfitriões, evitámos todos os excessos alimentares. Os sumos de laranja, ou de limão com menta, acompanhavam as refeições e nas ruas das cidades bebíamos sumos de laranjas e até de romãs acabadas de espremer.

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Esta viagem por algumas regiões do Médio Oriente, coincidiu com o período do Ramadão, mas nunca nos sentimos condicionados pela observância dos princípios religiosos. Evitámos sempre comer ou beber em público, principalmente na cidade velha de Amman, durante o dia. No centro antigo de Amman, na cidade velha e nas ruas junto aos mercados e ás Mesquitas, eram mais visíveis as preocupações de cumprir o Ramadão.

Quando visitamos um país, ou uma região, devemos agir e respeitar as normas e hábitos sociais, culturais e religiosos vigentes. E também pelo respeito que qualquer religião nos deve merecer.

Transportávamos sempre connosco, pequenas mochilas, com alguma comida, tipo bolachas, barras de cereais e água, mas quando a necessidade aperta, o engenho e a arte despertam, então pedíamos abrigo e autorização para comer e beber, no interior de alguma loja. Fomos sempre bem recebidos e compreendidos, em todos esses locais onde pedimos permissão para comer, ou beber. No interior de cafés e restaurantes frequentados por não Muçulmanos, apenas os empregados cumpriam o jejum.

Os motoristas de táxis, todos os guias que contratámos para visitas e os empregados dos hotéis e albergues cumpriam a tradição do Ramadão e das cinco orações diárias.

Tivemos o privilégio, em Amman, de ser despertos em cada madrugada, pela chamada do Muezzin, para a primeira oração diária, logo após as 4 horas da madrugada. O cântico ecoava pelo sistema de som da grande Mesquita do Rei Abdallah, localizada junto ao nosso ‘’Hotel Toledo’’. A chamada para a oração prolongava-se por cerca de 1 hora e ao fim de 2 dias já estávamos habituados ao despertar matutino. Graças à chamada do Muezzin, despertávamos muito cedo e fomos sempre os primeiros a tomar o pequeno-almoço no ‘’Hotel Toledo’’, a nossa base em Amman e o ponto de partida e chegada de muitas visitas e viagens pela Jordânia e países vizinhos.

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Quanto ao local ideal para dormir em Amman, recomendo o ‘’Hotel Toledo’’, de 3 estrelas, óptimo serviço e boa localização. O hotel pendura-se numa colina, perto da cidade velha de Amman, mas não demasiado longe do centro cosmopolita da cidade nova. Os declives provocados pelas colinas da capital, obrigam a que o ‘’Lobby do Toledo’’ esteja localizado no piso 7, ao nível do arruamento à cota superior, enquanto que a outra entrada, junto à piscina, a uma cota muito mais baixa, está no piso 1. Os táxis e transportes públicos para diversos destinos dentro e fora da Jordânia, Jerusalém, Palestina e Damasco, partem da zona envolvente do ‘’Toledo’’. Os quartos são muito bons e amplos, todo o grande número de funcionários do hotel é simpático e o serviço de óptima qualidade. Era notória uma grande quantidade de empregados, em todos os hotéis e restaurantes, com um bom efeito no nosso atendimento e ainda maior vantagem, para eles, por terem trabalho. Os pequenos-almoços são deliciosos e abundantes, as frutas, queijos e iogurtes, todo o tipo de pão e doces, são uma festa para os olhos e o paladar. Com a grande vantagem de os prepararem, com a mesma qualidade, mesmo ás horas mais inverosímeis, quando acontecem partidas de madrugada, para o aeroporto. Os jantares no ‘’Toledo’’, depois de mais um dia quente e cansativo de aventuras e descoberta, constituem um final perfeito e saboroso, para o corpo e o espírito. Para nós, Tugas de escassos recursos, não compensa pagar preços elevados por hotéis de muitas estrelas, o ‘’Toledo’’ pode, e deve, ser a nossa confortável residência, em Amman. Este hotel tem uma particularidade interessante, possui piscinas separadas, para homens e mulheres! A dos homens está permanentemente cheia, aberta durante a noite, e é bem animada, a das mulheres, está sempre vazia e é bem soturna.

As sete antigas colinas do centro de Amman, já não são apenas sete, mas alargaram-se em muitas outras, com o crescimento da cidade. No centro, as suaves colinas ondulam e em cada linha de um horizonte de pedra calcária, nasce uma outra colina de pedra calcária. São suaves e de cor ocre, como suaves barrigas deitadas, não demasiado elevadas, pouco verdes, mas cativam-nos pelos contornos sucessivos até o olhar se cansar. Toda a paisagem urbana coberta por uma cúpula de céu azul claro, radioso e sem nuvens.

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Amman, não é propriamente uma cidade bonita, que nos conquista, o coração e os olhos, ao primeiro olhar, como acontece com Istambul, Damasco, Marrakech, ou tantas outras cidades Árabes que nos fascinam. Não tem o gigantismo fabuloso do Cairo, nem a magia de Alexandria, mas também não é uma cidade descaracterizada e impessoal como as capitais milionárias dos Emiratos do golfo Pérsico, onde não existem passeios para caminhar. É uma cidade agradável, à escala humana, que merece bem mais atenção do que uma visita rápida à chegada e à partida. Conquista-nos em cada dia que lá passamos.

Os altos edifícios de hotéis de muitas estrelas, as sedes de bancos e grandes companhias financeiras internacionais e os enormes centros comerciais em construção, dominam as vias rápidas, novas avenidas e rotundas, o trânsito é intenso, mas consegue ser rápido.

Amman é a nova Beirute, como centro financeira, da banca e dos negócios, que se deslocou do Levante Mediterrânico, mais para o Médio Oriente. Com grande vantagem para a capital Jordana, porque sendo uma cidade que cresceu devido aos refugiados das guerras vizinhas, soube integrá-los, fazendo da diáspora palestiniana e, mais recentemente, Iraquiana, uma mais valia cultural, social e empresarial, que funcionou como alavanca para um desenvolvimento progressivo. Longe vão os ‘’anos de chumbo’’ de inícios da década de setenta, e o crescimento económico e a estabilidade política são as imagens de marca do Reino Hachemita.

A Wakalat street constitui o eixo pedonal da capital, uma rua urbana e cosmopolita, pejada de cafés e lojas das grandes marcas internacionais, que não destoaria em qualquer cidade Europeia.

Amman é uma cidade muito ocidentalizada, uma das mais liberais e abertas cidades do Médio Oriente. A liberdade de culto, a arte e cultura em expansão e uma imprensa bem mais livre a autónoma do que na maioria dos países Árabes, a ausência de normas e restrições ao modo de vestir, tornam a Jordânia num país tolerante. O limite são o rei, a rainha e a família real, mas a primeira e mais mediática família da Jordânia constitui um grande orgulho para o povo Jordano.

Na Jordânia não existe o sistema autocrátito das outras moanarquias da península Arábica, fala-se abertamente de política e de religião.

A cidade de Amman é o local de permanência de uma intelectualidade diversificada e multicultural, escritores, artistas e músicos, provenientes de paíse vizinhos, como o Iraque e os territórios Palestinianos, e que encontraram um país de adopção, que não lhes limita a liberdade, nem corta a criatividade. A diáspora Palestiniana e Iraquiana, ao longo das últimas décadas, em conjunto com trabalhadores e empresários Sírios, Libaneses, Egipcíos e dos Emiratos do Golfo, enriquecem a capital e além da multiculturalidade, benefeciam a Jordânia em termos comerciais e financeiros. As organizações internacionais para toda a região, também se instalaram em Amman, devido à centralidade e estabilidade Jordana.

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Sendo a população Jordana maioritariamente Árabe, Muçulmana e de tradição Sunitas, não há impedimentos à prática e celebração de culto dos vários grupos Muçulmanos e Cristãos

Amman é uma capital que merece bem mais do que um olhar passageiro e normalmente os visitantes em grupos organizados não têm tempo para se ‘’perderem’’ em Amman, para saborearem o ambiente da capital. A cidade das colinas, é caótica e desorganizada quanto baste, mas ainda tem uma escala humana, tem milénios de história fascinante, mas escassos vestígios históricos, tem vários povos e culturas, mas um único espírito, o do trabalho, e uma cultura, a vasta e abrangente cultura Árabe, de tolerância e afectos.

Mas Amman é essencialmente uma cidade de gente que vive e trabalha, de centenas de milhares de refugiados que fizeram do Reino Hachemita da Jordânia, a sua casa de acolhimento, de estudantes e de trabalhadores estrangeiros. É uma cidade vasta, vibrante, barulhenta, antiga e tradicional, mas em simultâneo, contemporânea.

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