Se eu fosse o Paul Auster, que desenhou letras em ruas, na ‘’Trilogia de Nova york’’, desenharia o nosso percurso por Myanmar, como um enorme número 4, na geografia Birmanesa. Saídos de Yangon subimos para Norte até Mandalay , depois num traço oblíquo virámos a Poente para Bagan e dali tornámos a Nascente, cruzando a linha vertical do 4, rumo ao lago Inle. Em cada local permanecemos por alguns dias e, em cada percurso intermédio, demorámos um dia. Assim se desenharam os nossos trilhos da terra em Myanmar.

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Partimos de Bagan, por estrada, numa viagem de um dia, em direcção ao lago Inle. Ao longo de todo o percurso, em todo as aldeias e lugares onde parámos para comer, nos acenaram mãos abertas e largos sorrisos nos acompanharam.

Na segunda metade do percurso, a estrada eleva-se, por entre uma protectora muralha montanhosa verdejante, enquanto a paisagem física e humana se altera. O calor atenua-se e uma fresca a agradável brisa, tempera-nos o corpo e o espírito. Havíamos entrado na região do estado Shan, território de um povo indómito e orgulhoso, (cerca de 10% da população do país), zeloso da sua cultura e autonomia, lutador contra o arbítrio de uma longa ditadura militar, terra fértil e de amenas temperaturas, de lagos de montanha, de deliciosos saberes e sabores.

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Ao longo das bermas da estrada de montanha, naquele final de tarde fresca, as crianças saídas das escolas, vestindo alvas camisas, largas e verdes calças, a colorida sacola tradicional Shan, acenavam-nos sorridentes. Abria-se diante dos nossos olhos, uma outra Birmânia, igualmente afectuosa e calorosa.

Já caída a fria e escura noite, no planalto montanhoso onde se espraia o lago Inle. Já chegados ao destino em Nyuang Swhe. Já saboreadas as delícias da gastronomia Shan e da universal e abençoada cerveja, néctar dos deuses. Repousámos o sono merecido dos justos, pois amanhã seria outro dia de beleza e glória.

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Alojámo-nos em dois hotéis, eu e o Jorge ficámos num albergue a cerca de cem metros de distância dos nossos nove companheiros de aventura. Espaço labiríntico entre pátios com pisos desnivelados, o nosso quarto caracteristicamente Birmanês, com revestimentos interiores em madeira escura, desenhava-se espaçoso e arejado, num piso térreo ao fundo de um largo corredor onde alegres roedores se passeavam descontraidamente. Todas as paredes se rasgavam em largas janelas com malha quadriculada de madeira clara, em alguns momentos nocturnos, senti que dormia na rua. Tamanha luminosidade tornava-se essencial, durante os apagões do final de tarde. Até os banhos de água fria e escassa me souberam bem, depois de duas semanas de calor e humidade. Recordo com saudade os saborosos ‘’breakfast’’ de ovos, tostas, manteiga, compotas, leite, sumos, café e chá, saboreados num terraço com vista sobre a rua principal e poeirenta; onde desfilavam de manhã cedo, procissões de sorridentes jovens monges. Ao fundo as águas do canal e do lago, mais longe a moldura de montanhas e sobre nós um céu protector. Seria aquele o paraíso?

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O lago Inle é uma faixa de água doce, comprida e estreita; (aproximadamente 100km por 5km). É um lago de montanha, implantado na zona Leste da Birmânia, no estado Shan. O lago Inle, como muitos lagos da Indochina, desenha-se de contornos indefinidos, no alto dos seus quase mil metros de altura, conforme a época do ano. Assim, alarga-se na época das fortes chuvas e diminui na estação seca. A localização privilegiada propicia vastas zonas de cultivo, amplamente irrigadas, mas as valências das terras férteis não se esgotam na agricultura, sendo abundantes e vistosos os jardins do lago. As características especificas, permitem albergar numerosas espécies autóctones, (gastrópodes e peixes).

As margens do lago, são salpicadas por aldeias e pequenas povoações, habitadas pelos Intha; ou ‘’filhos do lago’’.

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As casas palafitas flutuantes e os locais de culto; pagodes, emolduram o Inle e, tornaram-no um local preferencial de visitas e descanso, na surpreendente Birmânia.

Os dias do lago Inle escoaram-se também velozes, como todos os dias em Myanmar. Numa fresca manhã, embarcámos em quatro estreitos e compridos barcos, combatendo desajeitados desequilíbrios; onde sentados em duros cadeirões de madeira, dispostos em fila Birmanesa, avançámos pelo canal de acesso ao Inle. Construções em madeira, de frágil aparência, construídas sobre estacaria, pareciam desmoronar-se com a ondulação, provocada pelas barcaças, ladeavam as águas barrentas. Em casa construção uma escada e um cais instáveis, debruçavam-se sobre o canal onde as barcaças ainda repousavam descansadas, aguardando a azáfama dos pescadores e comerciantes

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Um frio agradável rodeava-nos enquanto o canal se alargava, as casas espaçavam-se, dando lugar a uma vegetação aquática, alta, mas não compacta.

Um ‘’sheltering sky’’, em cinza e chumbo, protegia-nos, rasgado pelos primeiros raios oblíquos de um tímido Sol. Lembrei-me das sonoridades de Ryuichi Sakamoto, ou de Philip Glass, mas fiquei-me pelos sons de um perfeito silêncio, transparente, cristalino.

Lembrei-me então, de um velho azulejo pintado, que tenho em casa e, onde está escrito em azul caligrafia; ‘’…se há um céu na terra, é isto, é isto, é isto…’’.

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Ao longe, muito ao longe, os contornos sinuosos e ainda escuros das montanhas, rasgavam a neblina e coroavam aquele magnífico cenário natural, como molduras que caprichosos deuses, houvesses desenhado outrora.

O lago Inle alargava-se e as águas barrentas davam lugar a tonalidades escuras de um profundo azul. O Sol levantara-se já e a temperatura amornava, a moldura montanhosa tornava-se verde e os raios de luz aqueciam-nos o corpo e o espírito. Nas margens de aparentes ilhas formadas por canaviais de altura humana, como um dédalo de muitos verdes surgiam pequenos e estreitos barcos com pescadores sentados, ou acocorados.

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Mais há frente, onde as águas se libertam das ilhas flutuantes, desenhavam-se belíssimas e esguias silhuetas, recortadas na paisagem lacustre; são os pescadores do lago.

Cada barco é apenas um frágil madeiramento côncavo, de pouquíssima profundidade, como uma desprotegida casca de noz. Eles equilibram-se na proa da fragilíssima embarcação, apenas com uma perna e o pé assente nas tábuas de madeira, enquanto a outra perna levantada, enlaça com firmeza um comprido remo, cuja pá mergulha no lago, segurando-o também no outro extremo entre o braço e o tronco. No centro da barcaça, amontoam-se algumas redes e o peixe recolhido.

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O pescador veste invariavelmente, calças largas e curtas e uma túnica também curta, exibe sempre um cónico chapéu à maneira da Indochina ou do Sul da China.

Pontilhando o lago, os traçados horizontais das estreitas e esguias barcaças e a verticalidade equilibrada dos pescadores, jogando as redes com largos gestos; assemelhavam-se a cenas dos bailados encenados por Diaghilev, musicados por Stravinsky e inspirados em Matisse.

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A imagem alterava-se, quando os raios solares, conseguiam rasgar com mais força as nuvens, então a imagem diáfana, lembrou-me Turner; o pintor da luz.

Durante todo o dia, até ao descer do Sol, percorremos o lago Inle, detendo-nos muitas vezes em pequenas aldeias e mercados, onde todas as construções frágeis, desconjuntadas e em madeira, se erguem assentes sobre estacaria em madeira. Em todos os lugares, fomos recebidos pelo afecto das populações, em todos eles, a ausência de uma língua comum, nunca nos impediu de comunicarmos. Naqueles dias no lago, sorrimos e gargalhámos cúmplices, soltámos conversas e silêncios, comemos arroz e vegetais e temperámos o dia com fresca cerveja. Partilhámos intragáveis canecas de café e empadas de carne, com monges, deixámos abraços e sentimos saudades ao final do dia.

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Dezenas de vezes, entrámos e saímos das barcaças, ganhando equilíbrio com o treino, atravessámos desconjuntadas pontes em tábuas soltas de madeira; de casa em casa, de templo em templo.

A Maria José desenhou uma senhora de indecifrável idade, certamente muito mais nova do que a sua aparência transmitia e eu, egoísta, não resisti a guardar a imagem na câmara e no coração.

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No deambular pelos meandros lacustres, percorremos as hortas aquáticas, magnífico exemplo de aproveitamento dos recursos existentes. As frutas, legumes e até as vinhas apresentam-se em estruturas fixas de madeira, à superfície do lago. Eu, que mantenho o tradicional hábito de participar nas vindimas, imaginei logo, como seria vindimar as cepas do lago Inle, oscilando em estreitas barcaças. O excesso de água não seria problema de grande monta, mas sim os petiscos; na Bairrada comemos chanfana e leitão, regados a espumante ‘’Marquês de Marialva’’.

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Pelo meio da tarde, atracámos junto ao Mosteiro de teca Shwe Yan Pyay, ou ‘’Mosteiro dos gatos saltadores’’. Grande edifício sóbrio e sólido, todo construído em madeira de teca, assente sobre estrutura em madeira enterrada no lago, magnífico exemplo de arquitectura religiosa Budista. Depois de termos percorrido milhares de quilómetros na belíssima Birmânia, bebendo de uma ancestral cultura Budista que assume como cor preferencial dos seus lugares de culto, um dourado resplandecente, luminoso e reflector, saboreámos com os olhos, os tons castanhos, escuros e confortáveis da madeira de teca.

Houvera sentido a mesma sensação de equilíbrio cromático e de paz, dias antes na região central de Myanmar, quando da visita a um mosteiro escola, de reduzidas dimensões e volumetria, também construído em madeira escura, onde estudantes crianças envergando hábitos de monge, estudavam e recitavam ladainhas Budistas. Gosto da madeira, como material nobre, austero e pleno de dignidade.

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Reduzidas portas, de madeira trabalhada em belíssimos relevos,e paredes em madeira, protegem o espaço interior e escuro do ‘’Mosteiro dos gatos saltadores’’. Uma floresta de grandes pilares em madeira de teca, em tons de castanhos velhos do tempo e gastos pelo clima, abre-se como enorme e belíssima sala hipóstila, projectando obscuros sombreados diagonais no pavimento e nos tapetes. Na penumbra interior, elevam-se soberbos altares, neles pousam digníssimas imagens de Budas ostentando serenas posturas e enigmáticos sorrisos. Contornei a sequência de altares, no sentido dos ponteiros do relógio, surpreendido por tamanha beleza e quietude. Em todo o miolo do mosteiro, emanando um ambiente intemporal, pululavam inúmeros gatos; gordos e preguiçosos, esfregando-se languidamente nos quentes tapetes.

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Naquele ‘’Mosteiro dos gatos saltadores’’, não vi um único felino saltar, nem tão pouco levantar-se, pois de tão gordos que estavam, qualquer movimento deveria ser demasiado cansativo. Ainda pensei dar-lhes um valente pontapé, fazendo-os saltar, talvez voar, profetizando um verdadeiro milagre, obra de algum iluminado Buda, eu!. De imediato abandonei a pecaminosa ideia, alucinação de um céptico e incrédulo pecador; pois enquanto o Jorge meigamente acariciava um lascivo gato, uma fundamentalista Caucasiana de branca pele e autoritária entoação, admoestou-o com rigor. Amedrontados pela brusca intolerância daquele exemplar de fêmea humana, afastámo-nos com a digna postura de quem pensa que, tendo a razão para fazer dela uma mulher saltadora, não o iríamos fazer.

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Gatos felizes e sortudos, objecto de veneração e devoção, talvez numa outra encarnação, eu o narrador pecador, possa vir a ter o privilégio de ser ‘’gato saltador’’, no Mosteiro de teca Shwe Yan Pyay. Lavei os olhos naquele mosteiro e purifiquei a alma naquele lago.

Aquele inolvidável dia lago Inle, terminaria com uma longa caminhada ao Poente, por um extenso passadiço de tábuas de madeira, trocando conversas soltas e observando as crianças de uma aldeia, atarefadas na tarefa de limpar de detritos os pequenos cais embarcadouros. No regresso já o Sol descia veloz no horizonte, escondendo-se quase envergonhado nas montanhas que emolduravam tamanha beleza. Assim se viaja em Myanmar.

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Nessa noite regressámos a um pequeno restaurante onde havíamos jantado no dia anterior, fomos recebidos em festa e tratados como dignitários estrangeiros. Regámos a manjar muita cerveja estupidamente gelada e coroámo-lo com saborosas panquecas de chocolate, quentes e suculentas, de lamber os dedos e chorar por mais. Talvez não fosse a doçaria tradicional Birmanesa, mas soube muito bem.

A viagem aproximava-se do final e, o ultimo dia na região do lago Inle, foi passado numa caminhada de montanha, com a duração de muitas horas. O percurso pouco acentuado e a temperatura agradável, ajudou, mas o lamaçal acumulado nalguns troços, enterrando-nos os pés na lama, dificultou. Em disciplinada fila Birmanesa, encabeçada por um guia e acompanhados pelo ‘’homem da água’’, percorremos montes e vales, ribeiros e lamaçais, visitámos escolas onde crianças monges entoavam ritmadas lengalengas, mosteiros em grutas onde venerados monges oravam, almoçámos calmamente no campo e até mergulhámos numa represa.

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Já no regresso, parados junto a uma escola primária, o Marcos executou malabarismos com a bola de futebol, perante o olhar fascinado de um grupo de crianças.

Nessa noite celebrámos a vida e a amizade com um inesquecível jantar, onde homens e mulheres, envergámos o tradicional pano comprido, encobrindo as envergonhadas pernas; o ‘’longyi’’.

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Os homens usam-no na forma de um cilindro; um pano em tons escuros, costurado nas extremidades, atado com um nó forte e simples na cintura. As mulheres usam-nos em padrões coloridos e floridos, como um comprido pano rectangular aberto, cujos laterais se sobrepões na frente.

Brindámos com vinho das castas do Inle e fizemos uma incursão pela gastronomia da Indochina. Eu, alambazei-me com petiscos do Laos.

 

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