A partir de He Ho, ainda na região do lago Inle, a cerca de uma hora de distância de Nyuang Swhe, voámos para Yangon, numa daquelas companhias de aviação Birmanesas a quem não é permitido comercializarem voos, na Europa. Definitivamente posso afirmar que gostei do ambiente entre o provinciano e informal, mas prático e eficiente e com pessoal muito simpático, dos aeroportos de Myanmar.

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No final das rápidas semanas de viagem, regressámos a Yangon e, cada um de nós, usufruiu do tempo e do espaço, como melhor quis.

Eu, por me ter juntado ao grupo, apenas no segundo dia de viagem, tentei recuperar o tempo perdido. Na companhia da minha magnífica guia privativa, a Fátima, que regressava ao Shwedagon, pela segunda vez em quinze dias, senti-me deslumbrado e completamente dourado e, até cantámos em dueto; ‘’We are Golden’’, do Mika. Acredita que é verdade leitor paciente.

 O Shwedagon é desmesurado e indescritível e de impossível descrição. Aqui nestas linhas que poucos terão o desprazer de ler, confesso que me senti confuso, com a primeira impressão que o Shwedagon me ofereceu. Apenas sei escrever que, perante ele sobram as sensações e emoções e, escasseiam as palavras. Talvez pela beleza e simplicidade do enorme pagode, talvez pelo exagero arquitectónico e de elementos decorativos de todo o recinto religioso, que cercam e ofuscam a beleza do Shwedagon.

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Saímos do ‘’Thamada’’, eu e a Fátima, para um percurso pedonal, quase rectilíneo, de cerca de 2 quilómetros, até ao Shwedagon, mas uma pesada onda de calor húmido, desmotivou-nos e procurámos o conforto fresco de um táxi, por entre o tráfego caótico das avenidas centrais de Yangon. Em breves minutos, a flecha do pagode, rasgava o céu azul e límpido e o simpático taxista, deixou-nos junto à entrada Sul do conjunto monumental.

 Não é apenas mais um dos milhares de pagodes dourados que povoam a paisagem Birmanesa; é um belíssimo e alto pagode, esguio, esbelto e sóbrio, do alto dos seus 170m de altura, revestido em refulgente ouro, implantado num marmóreo pavimento e rodeado por uma miríade de pagodes, salas de orações e outros edifícios religiosos, mais pequenos e profusamente decorados, que conseguem ofuscar a apurada estética da edificação principal. A gigantesca cenografia completa-se por uma imensa estatuária de Budas e ‘’nats’’.

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A Fátima e este narrador, entrados em tão magnífico santuário, cumpriram todos os preceitos, normas de conduta, respeito e boa educação, que é como quem diz e pratica; quanto a religiões, o mais adequado é passares entre os pingos da chuva!

Descalço e de pernas cobertas por um pano longo em padrão de quadrados axadrezados em tons de azul, penetrei no marmóreo e quente pavimento. Rezam as lendas que das peludas pernas do mais puro e casto dos homens, pode nascer o mais severo pecado. E nestes santos lugares, costumo dizer: ‘’… pernas de homem tapadas, não cobiçam olhares gulosos…’’. Já devo estar a caminho do inferno, com acesso pela porta principal.

 Não fui ao Shwedagon para rezar, prestar homenagem a Buda, agradecer aos ‘’nats’’, invocar um destino mais favorável ou redimir os muitos pecados para renascer melhor, não cumpri outro ritual que não fosse o de despejar água sobre uma estátua de Buda, sei apenas que deslumbrada e lentamente me vesti com tamanha beleza dourada, dourada e dourada, até cansar de dourado os meus castanhos e embaciados olhos. Nem o próprio Lord Byron o diria melhor! ‘’…Presunção e água benta, cada um toma a que quer…’’.

 No enorme terraço, erguido numa única noite pelos ‘’nats’’, eleva-se o altivo Shwedagon, protegido por dezenas de outros templos.

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Deambulámos calmamente, fotografando tudo o que está estático e brilha com o fulgor do ouro e as pessoas que são o maior tesouro de Myanmar. Conversámos, fizemos largos silêncios, sentámo-nos nos degraus de muitos templos e salas de oração e assim se esgotou uma tarde perfeita no Shwedagon.

Confesso a estas linhas, que naquela tarde quente, senti alguma dificuldade em caminhar com o largo pano, atado à cintura, porque ora tropeçava no longo tecido, ou este escorregava-me, desnudando as pernas. A Fátima gargalhava cúmplice, perante a minha falta de destreza.

Todo o complexo arquitectónico e religioso, eleva-se sobre larguíssima plataforma circular, como um planalto artificial, um vasto terraço, 50 metros acima da cidade, erguido para elevar a suprema dignidade e religiosidade do pagode. O conjunto abre-se aos quatro pontos cardeais, com quatro grandes templos, acessos e escadarias cobertas, pejadas de lojas, bilheteiras e postos de controlo onde depositamos e recolhemos o pecaminoso calçado.

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Ao longo dos séculos, os soberanos Birmaneses, ordenaram a construção de ‘’stupas’’, cada vez mais altos, maiores, mais belos. Tentando sempre superar as oferendas do antecessor, numa atitude pouco consentânea com os princípios do Budismo. Vaidade a quanto obrigas.

 O que mais me sensibilizou no Shwedagon e em todos os lugares de culto em Myanmar, foi a sincera devoção dos crentes; as singelas oferendas de flores e incenso.

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A população Birmanesa, de aparente fragilidade física, é dotada de uma força interior indomável, talvez explicada pela fé, talvez pela vontade, talvez por algo de indecifrável, porque é invisível ao olhar. É um povo esteticamente belo, de gestos carinhosos, de afectos partilhados e de silenciosas e longas conversas, porque se diferentes línguas nos impedem de comunicar, sem dúvida que o podemos fazer pelos olhares e sorrisos.

 Por breves momentos, lembrei-me de que na nossa pátria ‘’tuga’’ desdita e madrasta, se os políticos tivessem algum monumento que ostentasse tamanha riqueza, já teria há muito, sido substituída por plástico e o ouro vendido, a preço de saldo, aos nossos ‘’amigos inimigos’’!

 Reencontrámo-nos todos no ‘’Thamada’’, para o último jantar de grupo, onde celebrámos com muita cerveja, o conhecimento, a partilha, a amizade e novos projectos de viagens e aventuras, em suma, a vida tal como a entendemos.

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Na manhã seguinte, alguns de nós, partilhámos o ‘’breakfast’’ e despedimo-nos com um ‘’…até breve…’’. Começaram as despedidas; a Maria José seguiu rumo a Bangkok, onde permaneceria por 5 dias até se reencontrar com o Jorge, em Hanói, para nova aventura na Indochina. A Fátima e o Fernando, rumo a Singapura, para uma breve visita à cidade estado. A Sofia, a Alexandra, a Helena rumo à velha e caduca Europa.

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 Ainda tive tempo para deambular pela baixa de Yangon e, a partir do pagode de Sula, junto ás grandes construções oficiais, públicas e administrativas, sentei-me nos degraus do monumento, no centro do parque, guardando nos olhos aquelas imagens que as fotografias não conseguem perpetuar. Depois, percorri a malha ortogonal de degradadas edificações coloniais da velha Yangon, gastas pelas inclemências de um rigoroso clima. Nos dois bairros; o Indiano e o Chinês, separados pela rotunda de Sula e delimitados junto ao barrento rio, pelos armazéns do porto, pululavam multidões ruidosas que se estendiam em infindos mercados de rua. Nalguns quarteirões comercializavam-se frutas e flores, noutros estendiam-se livros nos passeios, aqui pequenos restaurantes de rua, mais além pequenas lojas de tudo o seja possível imaginar, acolá especiarias e unguentos, em todos os lugares a mesma afabilidade e simpatia.

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 Gosto de permanecer só, nas últimas horas de uma viagem, tentando captar sons e imagens, viver sensações e odores, ritmos e ruídos, enfim, saber que estou ali e que sou eu, apenas ‘’…eu e a minha circunstância…’’.

De regresso ao ‘’Thamada’’, sentei-me num misto de café colonial e tasca Birmanesa, entre o pagode de Sula e a estação ferroviária. Percorriam o passeio esburacado, tranquilos monges de marmita na mão; militares apressados ostentando descuidado armamento pendurado ao ombro; homens e mulheres de visual tradicional, mas urbano, protegendo-se do inclemente Sol com elegantes sombrinhas e vulgares guarda chuvas. No asfalto escaldante que parecia derreter em ferida, circulavam um caótico trânsito de automóveis Japoneses, motorizadas Chineses e bicicletas Birmanesas. Assim se vivem os ritmos de uma cidade, observando e sentindo.

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Almocei com a Ana, o Carlos, o Marcos e o Jorge. Pelo fim da tarde, voei para Guangzhou, com a Ana e o Carlos e separámo-nos no novo terminal da velha Cantão, por entre o tradicional caos dos aeroportos Chineses; eles rumo a Paris, eu rumo a Amesterdão, onde reencontraria o Marcos.

Terminou esta aventura pelas brumas de Burma. Regressei a uma vida castanha, a um trabalho cinzento e ás burocracias inerentes aos pequenos poderes instalados, onde cada um, para se sentir imprescindível, procura boicotar o trabalho dos outros, numa invenção constante e sucessiva de dificuldades fictícias. Assim se vive e trabalha no rectângulo à beira mar debruçado, precipitado no abismo da incompetência e do absurdo; cada povo tem aquilo que merece.

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 Sonho que estou sentado no meu lugar de trabalho, num gabinete encerrado, sobre um pavimento sintético em manchas plúmbeas e rodeado de ameaçadoras paredes de branco pintadas. O tecto é alvo, psiquiatricamente pesado, rasgado em grelhas metálicas protectoras de luzes que me cegam. Ao meu lado esquerdo, rasga-se uma porta envidraçada fechada; do outro lado do vidro, um claustrofóbico pátio enclausurado em sucessivas e opressivas arcadas, rodeia um relvado queimado pela geada. Ao meu lado direito, abre-se uma janela gradeada, do outro lado da rua por onde correm apressados vultos, desenham-se paredes quase cegas. Chamam por mim. Ouço gritar o nome Barthleby, mas apenas digo; ‘’…I would prefer not to do this…’’.

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Acordo assustado, adormeci profundamente durante meia hora, na viagem de comboio entre a gare do Oriente e a estação de Coimbra B. Não posso voltar a dormir, estou perto de casa. Mas afinal a minha casa é o mundo, é em todos os lugares e em lugar nenhum.

Regressei ao mundo real, em Novembro de 2013, mês em que se celebra o primeiro centenário da publicação do primeiro volume de ‘’ Em Busca do tempo Perdido’’, de Marcel Proust e o primeiro centenário do nascimento de Albert Camus.

Em muitos dias, cada vez mais dias e noites escuras, acordo a acreditar que este Portugal, se transformou num pais cinzento em que grassa um silencioso medo, soma de todas as dúvidas, de todos os futuros, que se tornaram incertos. Então escapo-me da realidade, pelo sonho, voo para os lugares onde estive e onde nunca poderei estar.

Friends (32)

Ainda tenho a sorte de poder viajar, ler, conhecer e aprender, mas também eu tenho medo de que, um dia, isso já não me seja possível. Então acredito que não merecerei viver mais, um único dia que seja.

Estas linhas foram terminadas em Dezembro de 2013. Fazem parte de um longo livro que nunca será publicado, apenas partilhado com os amigos. Desse ilegível texto de muitas dezenas de páginas, expurguei as referências históricas que tornariam insuportável a sua publicação neste ‘’blog’’. Eliminei também as deliciosas vivências de uma viagem partilhada com um grupo de Amigos e companheiros de aventura. Tentei que restasse apenas a minha visão pessoal; tendenciosa e viciada, porque é para esse mesmo fim que serve o ‘’blog’’, alimentar a vã fogueira da minha vaidade.

Se uma única pessoa, tiver a paciência de me ler, sem cortar os pulsos, então a missão foi cumprida!

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Esta viagem foi ‘’inventada’’ pelo Jorge Vassallo e pela ‘’Nomad’’ e partilhada com um excepcional grupo de desconhecidos que se transformaram em Amigos. Obrigado; Maria José, Fátima, Sofia, Alexandra, Helena, Ana, Carlos, Fernando, Marcos, e Jorge. Sem a vossa companhia esta aventura não teria sido aquilo que foi. Até breve, talvez na Etiópia, talvez na ”Rota da Seda”, talvez em qualquer parte do mundo.

                                                                                             Rui Neves Munhoz

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