Atracámos numa enseada poeirenta, perto das aldeias que povoam o vale de Bagan e, o inefável Jorge, negociou uma carrinha onde nos amontoámos divertidos.

Em breve, primeiro por uma esburacada estrada, talvez datada dos tempos da colonização Britânica, depois por caminhos de terra batida, chegámos à ‘’nossa casa’’ em Bagan.

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A ‘’casa da Ruby’’ é um lugar de difícil descrição; numa ampla zona verde, implantam-se diversas casas em madeira, com alpendre e cadeiras de bambu, num estilo arquitectónico que associamos de imediato à Indochina colonial. O cenário completa-se com exuberantes jardins, caminhos pavimentados em saibro e pérgolas em madeira, mas o que mais nos cativa na ‘’Ruby True House’’ é a afabilidade e a simpatia com que somos acolhidos, pela Ruby omnipresente e omnisciente e, por todo o pessoal que cuida de nós, melhor do que nas nossas próprias casas. A casa da Ruby é, sem qualquer margem para dúvidas, uma casa de afectos, sentidos, vividos e partilhados. No dia da nossa partida, um exército de funcionários, ás ordens ‘’da general’’ Ruby, veio acenar-nos longamente e até do céu caíram gotas de chuva.

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Bagan não é uma cidade, mas um conjunto de aldeias implantadas numa extensa planície, debruçada sobre o Irrawaddy. A fé em Buda e o engenho e a arte dos homens, criaram um universo arquitectónico que é impossível contar, quer em palavras ditas, quer em palavras escritas.

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Em Bagan abundam ‘’estórias’’ que remontam à noite dos tempos, de reis lendários, muitos séculos antes dos reis reais, desde Anawrahta.

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A extensa zona histórica construída entre os séculos XI e XIII, durante o primeiro império Birmanês, demonstra-nos ainda, a importância do centro espiritual e temporal de Bagan, pólo de atracção de estudiosos Budistas dos reinos próximos; Índia, Sri Lanka, Tailândia e Khmer.

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Bagan recebeu influências religiosas muito diversas, desde das várias regiões da vizinha Índia, até ao Sri Lanka. Toda este cadinho cultural, resultou num extenso catálogo arquitectónico de templos e ‘’stupas’’.

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Nos dias de Bagan, desfilámos perante templos de impronunciáveis nomes; Sulamani Bagan, Ananda, Thatbyinnyu, Dhammayanzika, Gawdawpalin e Dhammayangyi. Muitos deles intactos, outros danificados pela inclemência da mãe natureza e da força dos sismos, mas todos eles vivificados e utilizados como lugares de oração e devoção. Em todos os templos Budistas de Bagan, havia monges, devotos, oferendas, em todos tivemos que nos descalçar, por serem lugares de culto, em todos nos maravilhámos e todos permanecerão indeléveis nas nossas memórias. Os murais e as esculturas, magníficos; as cores e a arquitectura, sublimes; o ambiente e a envolvência, inspiradores. Tudo nos cativou em Bagan.

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Em Bagan, um Jorge inspirado por Buda, brindou-nos com nova surpresa; desta vez passaríamos a ser nós próprios, condutores das motorizadas eléctricas. Após meros cinco minutos de treino, lá partiu esta tribo de ‘’Tugas’’ aventureiros, numa quente madrugada, por caminhos empoeirados e sem visibilidade, em indisciplinada fila Birmanesa. Muitos quilómetros decorridos, entre caminhos poeirentos e esburacados, por rasgos de lama e terra húmida, eis-nos chegados ao destino. Subidos altos degraus, em desgastada pedra talhados e, sublime milagre arquitectónico, abriu-se diante destes velhos e cansados olhos, uma belíssima panorâmica do vale de Bagan, coberta pela neblina de uma manhã ainda não nascida.

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Numa infindável planície de verde e ocre pintada, até onde a vista permitia alcançar; erguiam-se magníficos e sublimes, dezenas de templos piramidais, coroados por ‘’stupas’’, numa perfeita e deslumbrante cenografia, edificada pela fé, o engenho e a arte dos homens construtores de há oito séculos.

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Em silêncio permanecemos, quando o Sol rasgou a noite cinza e, em oblíquos raios de luz, afastou as nuvens e lavou do chumbo da noite, aquelas pináculos que rasgavam o céu. A pedra em indecifráveis tons de castanho, pintou-se de ouro e fiz-me personagem de um vitral das catedrais de Chartres ou Leon.

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Sinto-me muitas vezes, homem de pouco valor, mas naquele momento acreditei que afinal, a vida tem-me proporcionado momentos de tamanha felicidade, em que me encontro depois de muitos desencontros. Lembrei-me de tempos pretéritos, perdidos e reencontrados pela memória, porque a minha vida tem sido sempre, uma busca de um tempo perdido.

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Sonhei acordado, por breves segundos, com os ‘’salar’’ de Uyuni na Bolívia, com o calor e o frio do Sahara Africano e de Atacama no Norte do Chile, com as cordilheiras do Nepal e dos Andes, com o vale do Rift e os lagos do Quénia, com a luz de um amanhecer em Veneza ou em Angkor, com as pedras de Petra, de Machu Pichu e de Persépolis, com as pequenas igrejas românicas do caminho de Santiago, com os cafés de Istambul e Buenos Aires, com o vermelho de Marrakech e o azul de Jodhpur, com tantos lugares sentidos e encontrados, com pessoas perdidas para sempre que passaram por mim fugazmente e em mim permaneceram, com os livros que li e que com os que nunca poderei ler. Sonhei acordado e, por escassos segundos, senti um mundo em nós e fiquei feliz.

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Até a brusca tempestade de chuva e lama, que nos encharcou o corpo e lavou o espírito, numa manhã logo após o nascer do Sol, pareceram obras divinas de um benevolente Buda, aos olhos de um homem céptico e incrédulo, este narrador.

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