Esta foi mais uma viagem sonhada, mas sempre adiada; umas vezes por escassez do vil metal, outras por oportunidades falhadas. Há mais de um ano, numa sonolenta manhã, antes do meu diário peregrinar rumo ao local do sacrifício, abro a caixa de correio electrónico e, eis que uma surpreendente mensagem da Susana, me fez iluminar a cinzenta manhã. Passo a explicar; a ‘’Nomad’’ inventava uma nova aventura, desta vez por entre as brumas de Burma, a milenar Birmânia do meu imaginário; velho reino de dourados pináculos e clima inclemente, onde alguns poucos homens rudes, destruíram o presente e o futuro de muitos homens bons.

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Muitos meses decorreram deste esse dia, entretanto em Dezembro de 2012 e Janeiro de 2013, percorri os caminhos dos reinos do Camboja e da Tailândia, com a ‘’Nomad’’ e o Jorge Vassallo. Continuou em projecto de execução a aventura na Birmânia, mas apenas após o regresso do Jorge da América do Sul e do Trans Siberiano, no Verão de 2013. O tempo inexorável continuou a correr e a data prevista de Outubro de 2013 aproximou-se em largas passadas. Comprados os voos, via Amesterdão e Guangzhou até Yangon, com alguns meses de antecedência, a preço de saldo, na já habitual e inevitável, minha ‘’velha amiga’’ ‘’China Southern Airlines’’. Em cada interminável viagem aérea na ‘’CZ’’ fico com os ‘’olhos em bico’’, mas poupo, algumas centenas de míseros Euros.

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Decorreu lentamente o mês de Agosto; escaldante e incendiário, tão perigoso quanto um inclemente e castigador governo, autoritário, primário e vingativo. Assim decorriam as semanas da ‘’silly season’’, alternando o aumento do horário de trabalho, com uma encapotada lei de despedimentos, mas surpreendentemente o país miserável, deu tímidos sinais de crescimento. Oportunistas políticos gritaram; ‘’…aleluia…’’. Crédulos e cépticos, fizeram e refizeram as contas e chegaram à mesma e imprevisível conclusão. Eis quando, um velho tolo, a quem o calor e a maldade dos homens, havia já toldado a lucidez, gritou suavemente; ‘’…o desgoverno está de férias…’’. Por essa simples e única razão, houve crescimento desse malfadado produto interno bruto, que nos embrutece a todos. Sem ‘’desgoverno’’ não havia medidas de estúpida austeridade e os ‘’Tugas’’ puderam reaprender a respirar, ainda que medrosa e timidamente, por um escasso período de breves semanas. Até que um cinzento Outono chegasse e a todos afogasse, em dúvidas e dividas, em mágoas e medos, mas essas serão outras tristes histórias.

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Este narrador, continuava expectante, sem visto para as brumas de Burma, aguardando um ‘’mail’’ milagroso da Susana e, ei-lo que chega, lá para meados de Setembro. Preenchidos formulários e questionários, feitas novas fotos sobre fundo branco, ao melhor estilo de um cadastrado, passaporte e voos, tudo reenviado para a Susana, que tudo consegue tornar realidade. Poucos dias decorridos, paguei o milionário visto; 120 Euros! É caso para escrever que as ditaduras militares tratam-se muito bem, com vistos de turismo por este elevado montante, nem a duquesa de Alba, vai a Myanmar.

Ainda o Peter Steps Rabbit, de triste memória, não se lembrou de ‘’inventar’’ vistos para quem entra, ou sai, do rectângulo da ‘’Tugolândia’’ e, já agora, para quem cá permanece agrilhoado também.

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Quando surgiu a hipótese de viajar pela Birmânia, ocorreu-me logo a ideia peregrina de tentar contactar com Aung San Suu Kyi, a prémio Nobel da Paz no já longínquo ano de 1991. Através do meu amigo Pedro Krupensky, da ‘’Oikos’’, consegui os contactos de um tal Kyi Toe, membro do partido ‘’Liga Nacional para a Democracia’’. Contactei com ele, com o parlamento de Myanmar e com os representantes da ‘’Liga’’, em Londres, mas todas as tentativas foram infrutíferas, no sentido de agendar um encontro. Dificuldades de agenda e de local de encontro, tornaram impossível esta minha vontade. Nesses dias Aung San Suu Kyi, percorria a Europa e eu estou sempre do lado incerto da barricada à hora errada. Paciência, para a próxima tento conhecer a duquesa de Alba, talvez seja mais fácil.

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No Sudeste Asiático, a península da Indochina, desenha-se como uma descaída barriga da Ásia e prolonga-se pela estreita península da Malásia, até ao imenso arquipélagos insular da Indonésia. Toda a região é dominada por vastos planaltos e planícies, rasgadas por grandes rios, que transportam as sementes da vida e o medo da morte. A Indochina de belíssimas paisagens aluviais, ergue-se em magníficos e tenebrosos vulcões no arquipélago Indonésio. Os deuses do clima, despejam sobre a Indochina, uma climatologia de características tropicais húmidas, sujeita a monções prolongadas.

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Percorrer os diversos países da Indochina, sem rumos demasiadamente definidos, propicia-nos a celebração da vida e da natureza, num imenso território em que a natureza dos homens; calma e afectuosa, sofreu já de imensas violências e indizíveis perigos. A crueldade de outros e poderosos países, já despejou longas noites de terror, na história recente de tão afectuosas populações. Assim são os ainda muito cruéis homens do mundo, derramando a morte, onde apenas deveria ser celebrada a vida.

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Poucos a conhecem pelo nome oficial, muitos nem imaginam onde se localiza. Será quase um insondável mistério, para a maioria, mas para alguns, é uma realidade. É vasta e populosa, quase plana e aluvial, atravessada por um grande rio; o poderoso Irrawaddy, caudaloso e lamacento. Sem ele não poderia viver e, muitas vezes, com ele também não. Os campos de campos de arroz dominam a paisagem, sofre de uma climatologia rigorosa e extrema, temperado por desmesurados calores e húmidas chuvadas. Populosa quanto baste, porque apesar de ultrapassar os 50 milhões de habitantes, tem uma fraca densidade populacional. É talvez o mais desconhecido e pobre país da Indochina, acentuadamente claustrofóbico para os povos autóctones, mas fascinante para os visitantes. Terra incógnita, que tem povoado o meu imaginário, desde há décadas. Há dias e viagens que tardam em chegar, mas o importante é que os projectos de concretizem, ao invés de permanecerem encerrados na gaveta das utopias.

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Sempre que soltamos amarras das nossas preguiçosas zonas de conforto e, nos libertamos de falsas dúvidas e preconceitos ambíguos, então poderemos certamente descobrir muito mundo, por esse mundo fora.

Sou muitas vezes criticado, por amigos e colegas, por gastar dinheiro em viagens a países totalitários, regimes militares, teocráticos, democracias fictícias fortemente musculadas, onde os direitos fundamentais, a liberdade de expressão e associação, os direitos das minorias e tudo o que é inerente à própria condição do ser humano, se apresenta condicionado ou amordaçado. Aqui confesso esses meus crimes, apenas justificados pela enorme ânsia de ver, conhecer e aprender. Não sei se enfermo de defeito, ou vício, apenas sei que não sei viver sem poder viajar, ou ler, ou escrever.

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A Birmânia, Burma, ou Myanmar, são denominações que têm a mesma origem etimológica, chegando-nos através de corruptelas ou variações de nomes locais, derivados ou adaptados pelos colonizadores. As formas literárias, ou coloquiais, mesmo empregues pelas populações autóctones, quer por escrito, quer na oralidade, são de difícil tradução e explicação.

Entre o trópico de Câncer e o Equador, reinam as monções, devastadoras algumas vezes, mas essenciais sempre. Sem a elevada pluviosidade sazonal, que tudo cobre e arrasta, numa fúria temida e ansiada, os povos do Sudeste Asiático, teriam escassas condições de sobrevivência. Em Myanmar a forte precipitação e a monção, levaram a que a bacia hidrográfica dos grandes rio Irrawaddy, concentrasse grande parte da população do país. Porque as férteis terras, constituem divina bênção dos deuses.

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Myanmar, terra de lugares de impronunciáveis nomes, a velha e ancestral Birmânia, a Burma dos colonizadores Britânicos; espera por mim, perdão leitor, quero escrever; por nós. Imagino-a como uma terra secreta, coberta por um infinito céu de brumas, um lugar onde as terras e as águas, mudam constantemente de lugar, povoada por gente infeliz com lágrimas, salpicada por esguios pináculos de fulgentes dourados, que rasgam luxuriantes florestas, onde os verdes se multiplicam numa miríade de indecifráveis tonalidades, com cidades em madeira de teca e douradas estátuas de plácidos, sorridentes e enigmáticos Budas. Tudo temperado por odores de incenso e encerrado numa enorme campânula de quentes e húmidos interiores.

Leitor paciente, não desesperes nestes primeiros parágrafos, não cortes ainda os pulsos, pois enfermo de múltiplas maleitas, de entre as quais, elevadas e compulsivas doses de leitura e uma febril imaginação, mas talvez não sejam o maior dos meus males.

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A Birmânia faz fronteira com muitos e poderosos vizinhos; a Índia, o Bangladesh, o Tibete, a China, o Laos e a Tailândia. Talvez esta fascinante vizinhança, tenho sido parte fundamental da claustrofobia dos políticos e militares Birmaneses. Os dois gigantes económicos e políticos que dominam o Sudeste Asiático; a China e a Índia, condicionaram sempre, alternada, sucessiva ou ciclicamente, desde há séculos, toda a região da Indochina. Talvez todos aqueles povos e culturas milenares do Sudeste Asiático, tenham recebido o inevitável estigma, de por caprichos da natureza, da geografia e das migrações, terem ficado muito longe dos deuses e, demasiado perto da China e da Índia.

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A Birmânia é terra de muitas diásporas, estendidas por países vizinhos e limítrofes. O coração de Burma, bate em muitos campos de refugiados. Em cada acampamento, conforme a sua localização, falam-se línguas diferentes: quatro grandes famílias linguísticas, dialogam, ou talvez não, em Myanmar. O Birmanês é a língua mais falada e pertence à família Sino-Tibetana, em conjunto com o Karen e o Chinês. Os Birmaneses constituem cerca de 70% do total da população, professam o Budismo Teravada, têm como épico, uma versão adaptada do ‘’Ramayana’’, com diversas influências Tailandesas, Mon e Indianas e respeitam e veneram os espíritos da natureza; os ‘’nats’’. Assumem o Budismo como uma forma de vida e, ao longo dela, tornam-se por escasso ou largo período de tempo, noviços ou monges.

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Myanmar é um território de grande diversidade étnica e cultural, que embora reconhecidas oficialmente pelo poder politico e militar vigente, permanecem marginalizadas e aprisionadas da sua condição de minorias.

Na velha Burma, a religião dominante é o Budismo Theravada, a mais antiga escola de Budismo que procura conservar os ensinamentos originais de Buda, compilados no milenar Tipitaka. Thera significa ‘’anciãos’’ e Vada significa ‘’palavra ou doutrina’’. Ciclicamente alguns grupos extremistas Budistas Birmaneses incentivam algum tipo de xenofobia religiosa e perseguição ás pequenas comunidades muçulmanas.

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O isolamento internacional de Myanmar, enclausurado pela ditadura militar, levou à estagnação económica, como consequência o meio ambiente e os ecossistemas da Birmânia, permaneceram preservados. Metade do pais está coberto por florestas, povoadas por árvores de teca, seringueiras, bambu, mangues, coqueiros, acácias, todo o tipo de palmeiras e árvores de fruto caracteristicamente tropicais, mas a vegetação é de tal modo diversificada que, nos planaltos, abundam carvalhos e pinheiros.

Os militares dominam a mineração de metais, pedras preciosas e a exploração de jazidas de gás natural. Com a ajuda e beneplácito dos poderosos vizinhos, a quem convém um regime autoritário em Yangoon.

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A antiga Rangum, a maior cidade de Myanmar, uma ‘’cidade sem inimigos’’, espera por nós. Não demasiado grande, nada que se compare à populosa e alucinante Bangkok, mas muito populosa, com certamente mais de 4 milhões de habitantes.

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Cheguei a Yangon, numa tarde de Outubro. Fui recebido por sorrisos e por extraordinária eficiência. Em poucos minutos encontrava-me no ‘’hall’’ de chegadas do aeroporto. De imediato, apercebi-me de que todos os homens usavam o tradicional saio comprido Birmanês; o ‘’longyi’’, um ‘’must’’. Os inúmeros taxistas, vestiam-no com camisa imaculadamente branca e, todos os outros ‘’machos’’ com t-shirt. Fiquei logo com vontade de, derrubar preconceitos e, converter-me ao trajo tradicional de Maynmar. No exterior, um choque térmico avassalador, como uma onda de calor húmido, deixou-me ‘’kO’’. Mas como diz o provérbio; ‘’…quem corre por gosto, não cansa…’’ e, em breves minutos, estava feita a aclimatação.

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Tenho a sorte de ter duas personalidades; a primeira, dentro deste rectângulo à beira debruçado sobre o precipício, onde estou pleno de dúvidas e de angústias existenciais; a segunda, descontraída e divertida, para além de Badajoz, desde que passe esta claustrofóbica fronteira que me encerra e amordaça. De quem é a culpa, perguntará o leitor atento; será certamente do estigma de uma tradição cultural de origem Judaico-Cristã, plena de preconceitos e puritanismos. Chegado ao ‘’Thamada’’, a nossa casa comum em Yangon e, seguindo as indicações do Jorge, encontrei os companheiros de aventura, alegremente dispostos em redor de uma mesa, plena de deliciosos petiscos, regados com gelada cerveja. Esta é a melhor forma de nos conhecermos, em qualquer parte do mundo.

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Hoje, a antiga capital da Birmânia, é uma cidade vasta, plana, com lagos e espaços verdes, com muitos quarteirões coloniais, degradados pelas inclemências do clima e alterados pelas influências dos comerciantes Chineses e Indianos. Toda esta zona ribeirinha, de malha urbanística ortogonal e colonial, desenha-se junto ao lamacento rio, mas de costas voltadas para ele, encerrada por enorme conjunto de barracões e armazéns. No eixo central da ‘’velha Rangon’’, eleva-se a dourada ‘’stupa’’ do pagode de Sula, hoje mera rotunda, rodeado por feios exemplos de arquitectura contemporânea, semelhantes aos de qualquer provinciana cidade Chinesa, ao lado de bonitas e monumentais construções de arquitectura colonial, já preservados e reutilizados como edifícios administrativos e políticos.

Uma aparente democracia muito musculada, onde os todo-poderosos militares, se limitaram a trocar as fardas por roupas civis, têm levado à descaracterização da antiga capital, pelo excesso de população e de construção.

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Mas a maior surpresa de Yangon, não é apenas o magnífico, belíssimo e indescritível Shwedagon. O mais precioso tesouro da cidade, é também o mais precioso bem de Myanmar; uma população simpática, calorosa e afectuosa, que nos sorri e saúda em cada momento, em cada metro de passeio, em cada parque e em cada rua. Da Birmânia, podemos escrever e contar sobre os monumentos e a paisagem, mas escasseiam as palavras, o engenho e a arte, para descrever aquele povo abençoado por Buda.

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Yangon é uma cidade que não encanta, mas também não desencanta. Porque não é bonita como Hanói, nem desmesurada e caótica como Ho Chi Min, nem fascinante e cinematográfica como Bangkok, nem futurista e tradicional como Kuala Lumpur, nem alucinante e elitista como Singapura, nem provinciana como Phnom Penh, nem saborosa com Luang Prabang.

Em 1989, a junta militar ordenou que se passasse a denominar Yangon. Em 2005 perdeu o estatuto de capital, mais uma vez os todo-poderosos militares, usaram e abusaram do poder e, transferiram o governo oficial do país, para a mais calma e controlável cidade provinciana de Naypyidaw.

 

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