Numa quente madrugada em Yangon, saímos do ‘’Thamada’’ para um curto percurso até à estação ferroviária central. Tomámos, quase de assalto, o comboio para Mandalay. Sentimo-nos personagens do ‘’Grande Bazar Ferroviário’’ de Paul Theroux, um dos meus muitos livros de cabeceira. Na carruagem central, de largos e confortáveis assentos, quase deitados, revestidos de lona em tom verde-escuro, instalámo-nos para uma longa viagem de cerca de 12 horas.

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Viagem inesquecível, num comboio mítico, que dançava, oscilava e saltava, mais do que frágil barcaça em dia de tempestade. Em cada estação, a ‘’nossa’’ carruagem era tomada de assalto por vendedores ambulantes de inumeráveis petiscos. Alguns, chegavam carregados de cestos onde se dispunham arroz cozido, legumes e molhos diversos. Com velocidade e habilidade, compunham as variáveis gastronómicas, enquanto os odores das especiarias e temperos, enchiam em vagas alternadas, a carruagem. Outros, erguiam em precários equilíbrios, fritos, panados e empadas de insuspeitos paladares. Alguns dos vendedores de frutos ofereciam cachos de ‘’mangostão’’; de casca coriácea e púrpura, coroados de pétalas verdes e recheados de carnuda polpa alva e doce. Outros, mais afoitos, provocavam-nos com os terríveis ‘’durian’’, de casca espinhosa de cor ocre e polpa amarela e fedorenta. Os odores podres de tal fruto, pareciam já soltar-se da casca demasiado madura. Viajar em Myanmar, é uma festa para os sabores.

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As horas escoaram-se lentas e felizes, no comboio para Mandalay. Tecemos laços mais cúmplices na nossa equipa de viajantes, pois é no doce tempo das longas viagens, que melhor nos conhecemos.

Um incessante movimento, entre passageiros, militares e funcionários, denunciava uma incipiente teia de pequenas corrupções e favores trocados; um lugar sentado, uma troca de ofertas. Em suma, tudo perfeitamente inofensivo, para quem partilha a ‘’espuma dos dias’’, num país podre e corrupto, como o ‘’nosso’’ rectângulo sem soberania.

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Durante todo o dia tivemos por agradável companhia, pequenos e brincalhões roedores, que em apressadas corridas, oscilando longas caudas esguias, atravessavam rapidamente a carruagem. Quando o crepúsculo da planície Birmanesa, desceu sobre o comboio para Mandalay, as vagas de insectos, de desmesurado tamanho, carnudos e atrevidos, invadiram as carruagens, socando-nos no rosto. Assim se viaja em Myanmar.

Ao longo de todo o percurso de centenas de quilómetros, sentimos sempre o doce sabor dos sorrisos e afectos Birmaneses. Aquela longa primeira grande viagem, por terras de Burma, foi o primeiro, dos muitos momentos, em que aquele magnífico povo nos ensinou que ‘’…cativar é criar laços…’’.

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Gosto de desfrutar de longas viagens de comboio, como gosto de permanecer em cafés e em largos. Assim consigo guardar aquelas vivências que escapam sempre ás meras imagens gravadas e ás palavras escritas.

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No final da viagem, chegados à estação central de Mandalay, senti a primeira visão de Myanmar, tal como a minha imaginação me permitira sonhar. Nos cais, centenas de pessoas dormiam já, estendidos nos pavimentos, numa sinfonia de cores e sonoridades, enquanto outras tantas, se afadigavam em milhentos afazeres. Uma alta construção, plena de movimentos e ritmos, aguardava por nós. Lá fora, na quente noite, uma azáfama de pequenos veículos motorizados, recolhiam os passageiros, seguindo a mais elementar regra matemática da Indochina, onde cabem 3 ou 4, cabem sempre 8 ou 10.

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