O Irão é vasto e populoso, Asiático e Chiita, de cultura milenar e população hospitaleira, estende-se de Norte para Sul, nasce junto ao Mar Cáspio e faz fronteira com a Arménia, Azerbaijão e Turquemenistão, estende-se até ao Golfo Pérsico, debruça-se no estreito de Ormuz, sobre o Golfo de Oman e alarga-se até o Mar Arábico onde se abre ao Oceano Indico. Encosta-se ao Médio Oriente a Oeste junto ao Iraque e à Turquia e alarga-se para Leste até ao Afeganistão e Paquistão. Nesse fabuloso país conversa-se em Persa e negocia-se em Rials.

Há muitos anos, quatro décadas, pensei pela primeira vez, se bem me lembro, em como gostaria de, um dia poder visitar o Irão. Nesse já longínquo início da década de setenta, as revistas e jornais, abriam-nos as páginas com as fotografias, das comemorações dos 2.500 do império Persa, acontecidas nas ruínas de Persépolis. Decorria o ano de 1971 e eu, uma criança deslumbrada de escassos 10 anos, gravei na memória já aventureira e preenchida de sonhos nascidos de livros, a vontade de um dia peregrinar pelos pórticos e escadarias da monumental cidade de Dário. Então já sonhava com Alexandre da Macedónia, com os Assírios, os Hititas, os Persas e os Egípcios, com as civilizações Indianas, com marajás de Jaipur, cremações em Varanasi e o Taj Mahal, com as nascentes do Nilo, com as culturas perdidas dos Andes e da América central, com a muralha da China e os templos de Angkor, com os desertos de África e da rota da seda, com Lawrence da Arábia e com o Rajá Brooke, com savanas, estepes e com o vale do Rift, com Petra, Damasco e Jerusalém, com Marraquexe, Isfahan, Xian e Cuzco, com a baía de Halong e as ruas de Praga, com cidades medievais de altivas e inexpugnáveis muralhas e com os Kracks do médio Oriente, com a Anatólia, os vales das kashbas do Atlas, Sidi Bou Saíd e os mosteiros dos Meteora, com Creta, os templos de Agrigento, Florença, Cesky e o litoral do Adriático, com as ruas e basílicas de Roma, Londres, Paris e New York, nas montanhas e rios da Indochina e nos lagos salgados dos Andes, nas aldeias de pescadores das Astúrias e Cantábria e no litoral Africano do Índico, em suma em todos os lugares e em lado nenhum, sonhava com ver, conhecer e aprender, para tentar tudo compreender, estranha ambição a minha. Nestes lugares e em centenas de outros com nomes difíceis ou impronunciáveis, isolado no meio da multidão, ou acompanhado pelo silêncio e pela paisagem, senti-me em paz e feliz por ter o coração aberto e o espírito livre, para ver, conhecer, aprender. Porque assim não esqueço, que cada estação tem os seus frutos e as suas flores, que cada árvore tem o seu tempo e que cada homem tem o seu lugar, mas que todos os homens cabem no coração de um único homem, porque a nossa capacidade de amar e compreender é infinita e eterna.

Acredito que cada espécie animal, ou vegetal, é como cada homem, indispensável e insubstituível neste planeta que já foi azul e verde e que em cada dia que passa, se torna mais cinzento, mas ao contrário dos profetas da desgraça, que afirmam que já é tarde, eu grito que ainda não é demasiado tarde, que ainda temos tempo, de mudar, de criar um mundo melhor, de acreditar que somos todos iguais e de tomar consciência de que se uma criança morrer de fome, no outro lado do mundo, então é um pouco de cada um de nós que morre também.

É esta a minha visão do mundo, da natureza, dos povos e das culturas, a nossa riqueza está na nossa diversidade e ainda bem que assim é.

Em 1971, uma faustosa celebração comemorativa dos 2.500 anos do império Persa, aconteceu nas ruínas de Persépolis, por ordem e vaidade do então Shah Reza Pahlavi, o último da dinastia e o ultimo imperador do Irão. Não foi uma festa para o povo do Irão, obrigado a permanecer a uma cautelosa distância, para não importunar o Shah e convidados. Foi antes uma feira de vaidades, para o então todo-poderoso Shah e os seus amigos de então, os mesmos que 8 anos depois, não lhe deram abrigo para morrer. Nesse momento nasceu o meu sonho Persa e levei quase uma vida a concretizá-lo. Tinha eu então 10 anos de idade e todas as ilusões e esperanças de uma quase criança, depois vivi sonhos e utopias de mais bela revolução do mundo, que me levou por uma juventude inquieta, mas pouco irrequieta. Estudei e continuei a sonhar, desiludi-me cedo com algumas pessoas e muitas circunstâncias da vida. Li muito e estudei tudo o que não interessava aos adolescentes como eu, mas aprendi, aprendi, aprendi sempre, sem nunca me cansar. Viajei e continuei a ler, quase com um carácter compulsivo, comecei a escrever, como um aprendiz de feiticeiro que queria ser escritor e, que no seu íntimo, sabia que nunca o poderia ser. Inventei registos de escrita sempre diferentes e continuei a viajar e a escrever e a aprender, a conhecer e a acreditar que somos todos iguais, apesar de todos diferentes. Corri mundo, primeiro com alguma companhia, depois com companhias esporádicas, com desconhecidos e sozinho e acabei por encontrar o meu caminho, a minha forma insatisfeita de viajar, ‘’…o só estar bem onde não estou…’’, ‘’…o já lá estar antes de chegar e ainda lá continuar depois de partir…’’. Fiz amigos e encontrei e perdi pessoas, algumas passaram fugazes, mas permaneceram em mim, porque ‘’…eu, sou eu e a minha circunstância…’’, como disse o filósofo. Outros que ficaram por muitos anos, esfumaram-se com ‘’…esse leve ar do tempo…’’ e esqueci-os. A vida é assim, imperfeita e injusta, talvez só a morte seja perfeita.

Levei cerca de 40 anos a chegar ao Irão, no final de um dia de Abril de 2011.

Quando vi um programa de uma viagem cultural e de aventura, inventada dentro do espírito da Nomad, pelo Filipe Morato Gomes, então e em poucos minutos, decidi que era já o tempo da partida, de mais uma aventura para aprender e abraçar outro povo, outra cultura. O Irão aproximava-se agora, do meu horizonte visual, pois a Pérsia já se instalara há muito nos meus horizontes culturais, mas para partir não bastam as vontades e os impulsos, são necessárias as burocracias, preencher formulários, pedir autorizações e vistos e procurar voos. Como seria bom e perfeito se fosse suficiente apenas partir, resolver num dia e partir no outro, sem destino, com rumo incerto. Estranha utopia a minha, ou se calhar, espantosa ingenuidade. Como eu gostaria de poder percorrer um mundo sem fronteiras físicas, nem barreiras no coração dos homens.

Uma semana antes da partida, ainda não tinha o visto, nem a autorização de entrada no Irão, o meu passaporte permanecia na embaixada à espera de um tal código de acesso, mas como ao viajante crónico põem os deuses todos a mão por baixo, finalmente, no dia 31 de Março, tudo se resolveu, a autorização de entrada no Irão foi dada, o visto foi autorizado e o meu novo passaporte, com a minha mais assustadora foto, parecida com a imagem de um personagem do ‘’Crime e Castigo’’ já estava nas mãos da ‘’Nomad’’. A propósito de passaporte, é uma experiência traumatizante, tirá-lo no Governo Civil de Coimbra, onde a máquina fotográfica parece um aparelho de raio X do século passado e as vozes dos funcionários, não são vozes, são mais grunhidos, mas como quem corre por gosto não cansa, é sempre bom saber que nós, os ‘’Tugas’’, somos mal tratados em casa e bem recebidos no exterior.

A mochila é sempre preparada tendo por base o critério’’… menos é mais…’’, roupas leves e simples, que possam ser vestidas ás camadas e fáceis de lavar e secar pelo utilizador. Com pouco mais de 8 quilos, incluindo carregadores, baterias e produtos de banho, fica o problema resolvido. Nos bons e já longínquos tempos, antes das paranóias colectivas e sucessivas que assaltaram as viagens aéreas, em que era permitido transportar tudo o necessário para 3 semanas de aventura, em bagagem de mão, eu conseguia ser sempre o primeiro a sair do aeroporto.

No dia fatídico de 6 de Abril de 2011, o país dos ‘’Tugas’’, afunda-se, bate na lama, como disse Miguel Sousa Tavares, numa crónica do ‘Expresso’’, escrita dias antes: ‘’…afundamo-nos, caramba, mas merecemos…’’. Estranho povo, que permite políticos que chafurdam como porcos, no lodaçal que nós os ajudamos a criar, pela força dos nossos votos depositados nas urnas, que já só são sepulcros.

Parti desanimado e desiludido, com medo de um futuro próximo e trémulo, que me impeça de viajar, em suma, de viver.

Rui Neves Munhoz, Abril de 2011. Uma viagem inventada pelo meu Amigo Filipe Morato Gomes e pela ‘’Nomad’’ e partilhada com: a Rita e a Susana, a Maria e a Jo, o Joaquim e a Lena, a Joana e a Rosebel, o Bruno, o Filipe e myself.

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