Esta viagem não existe: a Coreia do outro lado do espelho

21 Outubro 2015

Já viajo há 4 décadas, já fiz viagens pensadas, idealizadas, sofridas, alegres, caóticas e imprevisíveis, mas nunca houvera feito uma viagem impossível. No horizonte das minhas vetustas memórias,TheWanderlust_TheWanderblog_Wanderlist_Coreia_norte (3)não recordo em momento algum, ter ousado sonhar, visitar aquele indecifrável e enigmático país que ocupa a metade norte de uma estreita península, quase se soltando da Ásia, quase tocando o império do Sol.

A denominação oficial e ortodoxa, chama-lhe desde há mais de meio século, República Popular Democrática da Coreia. Não é república, porque é hereditária, nem é popular ou democrática, porque é autoritária. Mas é metade de um país que é uma parte de um todo, que deveria ser um, mas que são dois. Para mim é a Coreia e, isso é quanto me basta, para lhe ter carinho. Os deuses que formaram os continentes, crasso erro cometeram, ao colocar aquele povo afectuoso, tímido, introvertido e simpático, entre dois mundos antagónicos. Memórias de ultrapassados e moribundos tempos, que a vã ignorância dos políticos e estrategas não ousou ainda derrubar. De um lado a força de uns, do outro lado a força de outros. Do desconhecimento nasce o preconceito, deste floresce o medo que se tempera de ódio, porque a ignorância das coisas do mundo é o pior inimigo do homem.

TheWanderlust_TheWanderblog_Wanderlist_Coreia_norte (4)Todos os espelhos têm dois lados, ambos desfocam as imagens, conforme a perspectiva do olhar, que é sempre condicionada pela presença do militar, de cada lado desse espelho. Nada me liga ao regime totalitário que enclausura um povo, tudo me afasta do tenebroso culto da personalidade, mas tudo me prende ao afecto daquele povo, que sem nada saber acerca do mundo, tudo nos oferece do pouco que tem. Não vou aqui escrever, nada de concreto sobre a Coreia do Norte, apenas transcrevo o que por lá muitas vezes escutei; ‘’…mais vale ver uma vez, do que ouvir cem vezes…’’.

Se tu, paciente leitor, tiveres o engenho e a arte de, ao leres estas breves linhas, tão lacónicas, quanto eu pretendo que sejam, sentires a vontade de viajar no espaço e no tempo, para conhecer aquele povo, aquela terra, pintados de preto, branco e cinza, invisíveis ao olhar de quase todos, então és um dos que sabe ver.

Mas nunca te esqueças de que a minha palavra, vale apenas o que vale, que é o mesmo que dizer que vale muito pouco.

Todas as fotografias são da autoria da Maria R. Marques, tiradas aquando da sua viagem à Coreia do Norte.

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