Estado Shan: Inle, um lago na montanha.

Se eu fosse o Paul Auster, que desenhou letras em ruas, na ‘’Trilogia de Nova york’’, desenharia o nosso percurso por Myanmar, como um enorme número 4, na geografia Birmanesa. Saídos de Yangon subimos para Norte até Mandalay , depois num traço oblíquo virámos a Poente para Bagan e dali tornámos a Nascente, cruzando a linha vertical do 4, rumo ao lago Inle. Em cada local permanecemos por alguns dias e, em cada percurso intermédio, demorámos um dia. Assim se desenharam os nossos trilhos da terra em Myanmar.

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Partimos de Bagan, por estrada, numa viagem de um dia, em direcção ao lago Inle. Ao longo de todo o percurso, em todo as aldeias e lugares onde parámos para comer, nos acenaram mãos abertas e largos sorrisos nos acompanharam.

Na segunda metade do percurso, a estrada eleva-se, por entre uma protectora muralha montanhosa verdejante, enquanto a paisagem física e humana se altera. O calor atenua-se e uma fresca a agradável brisa, tempera-nos o corpo e o espírito. Havíamos entrado na região do estado Shan, território de um povo indómito e orgulhoso, (cerca de 10% da população do país), zeloso da sua cultura e autonomia, lutador contra o arbítrio de uma longa ditadura militar, terra fértil e de amenas temperaturas, de lagos de montanha, de deliciosos saberes e sabores.

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Ao longo das bermas da estrada de montanha, naquele final de tarde fresca, as crianças saídas das escolas, vestindo alvas camisas, largas e verdes calças, a colorida sacola tradicional Shan, acenavam-nos sorridentes. Abria-se diante dos nossos olhos, uma outra Birmânia, igualmente afectuosa e calorosa.

Já caída a fria e escura noite, no planalto montanhoso onde se espraia o lago Inle. Já chegados ao destino em Nyuang Swhe. Já saboreadas as delícias da gastronomia Shan e da universal e abençoada cerveja, néctar dos deuses. Repousámos o sono merecido dos justos, pois amanhã seria outro dia de beleza e glória.

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Alojámo-nos em dois hotéis, eu e o Jorge ficámos num albergue a cerca de cem metros de distância dos nossos nove companheiros de aventura. Espaço labiríntico entre pátios com pisos desnivelados, o nosso quarto caracteristicamente Birmanês, com revestimentos interiores em madeira escura, desenhava-se espaçoso e arejado, num piso térreo ao fundo de um largo corredor onde alegres roedores se passeavam descontraidamente. Todas as paredes se rasgavam em largas janelas com malha quadriculada de madeira clara, em alguns momentos nocturnos, senti que dormia na rua. Tamanha luminosidade tornava-se essencial, durante os apagões do final de tarde. Até os banhos de água fria e escassa me souberam bem, depois de duas semanas de calor e humidade. Recordo com saudade os saborosos ‘’breakfast’’ de ovos, tostas, manteiga, compotas, leite, sumos, café e chá, saboreados num terraço com vista sobre a rua principal e poeirenta; onde desfilavam de manhã cedo, procissões de sorridentes jovens monges. Ao fundo as águas do canal e do lago, mais longe a moldura de montanhas e sobre nós um céu protector. Seria aquele o paraíso?

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O lago Inle é uma faixa de água doce, comprida e estreita; (aproximadamente 100km por 5km). É um lago de montanha, implantado na zona Leste da Birmânia, no estado Shan. O lago Inle, como muitos lagos da Indochina, desenha-se de contornos indefinidos, no alto dos seus quase mil metros de altura, conforme a época do ano. Assim, alarga-se na época das fortes chuvas e diminui na estação seca. A localização privilegiada propicia vastas zonas de cultivo, amplamente irrigadas, mas as valências das terras férteis não se esgotam na agricultura, sendo abundantes e vistosos os jardins do lago. As características especificas, permitem albergar numerosas espécies autóctones, (gastrópodes e peixes).

As margens do lago, são salpicadas por aldeias e pequenas povoações, habitadas pelos Intha; ou ‘’filhos do lago’’.

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As casas palafitas flutuantes e os locais de culto; pagodes, emolduram o Inle e, tornaram-no um local preferencial de visitas e descanso, na surpreendente Birmânia.

Os dias do lago Inle escoaram-se também velozes, como todos os dias em Myanmar. Numa fresca manhã, embarcámos em quatro estreitos e compridos barcos, combatendo desajeitados desequilíbrios; onde sentados em duros cadeirões de madeira, dispostos em fila Birmanesa, avançámos pelo canal de acesso ao Inle. Construções em madeira, de frágil aparência, construídas sobre estacaria, pareciam desmoronar-se com a ondulação, provocada pelas barcaças, ladeavam as águas barrentas. Em casa construção uma escada e um cais instáveis, debruçavam-se sobre o canal onde as barcaças ainda repousavam descansadas, aguardando a azáfama dos pescadores e comerciantes

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Um frio agradável rodeava-nos enquanto o canal se alargava, as casas espaçavam-se, dando lugar a uma vegetação aquática, alta, mas não compacta.

Um ‘’sheltering sky’’, em cinza e chumbo, protegia-nos, rasgado pelos primeiros raios oblíquos de um tímido Sol. Lembrei-me das sonoridades de Ryuichi Sakamoto, ou de Philip Glass, mas fiquei-me pelos sons de um perfeito silêncio, transparente, cristalino.

Lembrei-me então, de um velho azulejo pintado, que tenho em casa e, onde está escrito em azul caligrafia; ‘’…se há um céu na terra, é isto, é isto, é isto…’’.

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Ao longe, muito ao longe, os contornos sinuosos e ainda escuros das montanhas, rasgavam a neblina e coroavam aquele magnífico cenário natural, como molduras que caprichosos deuses, houvesses desenhado outrora.

O lago Inle alargava-se e as águas barrentas davam lugar a tonalidades escuras de um profundo azul. O Sol levantara-se já e a temperatura amornava, a moldura montanhosa tornava-se verde e os raios de luz aqueciam-nos o corpo e o espírito. Nas margens de aparentes ilhas formadas por canaviais de altura humana, como um dédalo de muitos verdes surgiam pequenos e estreitos barcos com pescadores sentados, ou acocorados.

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Mais há frente, onde as águas se libertam das ilhas flutuantes, desenhavam-se belíssimas e esguias silhuetas, recortadas na paisagem lacustre; são os pescadores do lago.

Cada barco é apenas um frágil madeiramento côncavo, de pouquíssima profundidade, como uma desprotegida casca de noz. Eles equilibram-se na proa da fragilíssima embarcação, apenas com uma perna e o pé assente nas tábuas de madeira, enquanto a outra perna levantada, enlaça com firmeza um comprido remo, cuja pá mergulha no lago, segurando-o também no outro extremo entre o braço e o tronco. No centro da barcaça, amontoam-se algumas redes e o peixe recolhido.

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O pescador veste invariavelmente, calças largas e curtas e uma túnica também curta, exibe sempre um cónico chapéu à maneira da Indochina ou do Sul da China.

Pontilhando o lago, os traçados horizontais das estreitas e esguias barcaças e a verticalidade equilibrada dos pescadores, jogando as redes com largos gestos; assemelhavam-se a cenas dos bailados encenados por Diaghilev, musicados por Stravinsky e inspirados em Matisse.

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A imagem alterava-se, quando os raios solares, conseguiam rasgar com mais força as nuvens, então a imagem diáfana, lembrou-me Turner; o pintor da luz.

Durante todo o dia, até ao descer do Sol, percorremos o lago Inle, detendo-nos muitas vezes em pequenas aldeias e mercados, onde todas as construções frágeis, desconjuntadas e em madeira, se erguem assentes sobre estacaria em madeira. Em todos os lugares, fomos recebidos pelo afecto das populações, em todos eles, a ausência de uma língua comum, nunca nos impediu de comunicarmos. Naqueles dias no lago, sorrimos e gargalhámos cúmplices, soltámos conversas e silêncios, comemos arroz e vegetais e temperámos o dia com fresca cerveja. Partilhámos intragáveis canecas de café e empadas de carne, com monges, deixámos abraços e sentimos saudades ao final do dia.

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Dezenas de vezes, entrámos e saímos das barcaças, ganhando equilíbrio com o treino, atravessámos desconjuntadas pontes em tábuas soltas de madeira; de casa em casa, de templo em templo.

A Maria José desenhou uma senhora de indecifrável idade, certamente muito mais nova do que a sua aparência transmitia e eu, egoísta, não resisti a guardar a imagem na câmara e no coração.

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No deambular pelos meandros lacustres, percorremos as hortas aquáticas, magnífico exemplo de aproveitamento dos recursos existentes. As frutas, legumes e até as vinhas apresentam-se em estruturas fixas de madeira, à superfície do lago. Eu, que mantenho o tradicional hábito de participar nas vindimas, imaginei logo, como seria vindimar as cepas do lago Inle, oscilando em estreitas barcaças. O excesso de água não seria problema de grande monta, mas sim os petiscos; na Bairrada comemos chanfana e leitão, regados a espumante ‘’Marquês de Marialva’’.

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Pelo meio da tarde, atracámos junto ao Mosteiro de teca Shwe Yan Pyay, ou ‘’Mosteiro dos gatos saltadores’’. Grande edifício sóbrio e sólido, todo construído em madeira de teca, assente sobre estrutura em madeira enterrada no lago, magnífico exemplo de arquitectura religiosa Budista. Depois de termos percorrido milhares de quilómetros na belíssima Birmânia, bebendo de uma ancestral cultura Budista que assume como cor preferencial dos seus lugares de culto, um dourado resplandecente, luminoso e reflector, saboreámos com os olhos, os tons castanhos, escuros e confortáveis da madeira de teca.

Houvera sentido a mesma sensação de equilíbrio cromático e de paz, dias antes na região central de Myanmar, quando da visita a um mosteiro escola, de reduzidas dimensões e volumetria, também construído em madeira escura, onde estudantes crianças envergando hábitos de monge, estudavam e recitavam ladainhas Budistas. Gosto da madeira, como material nobre, austero e pleno de dignidade.

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Reduzidas portas, de madeira trabalhada em belíssimos relevos,e paredes em madeira, protegem o espaço interior e escuro do ‘’Mosteiro dos gatos saltadores’’. Uma floresta de grandes pilares em madeira de teca, em tons de castanhos velhos do tempo e gastos pelo clima, abre-se como enorme e belíssima sala hipóstila, projectando obscuros sombreados diagonais no pavimento e nos tapetes. Na penumbra interior, elevam-se soberbos altares, neles pousam digníssimas imagens de Budas ostentando serenas posturas e enigmáticos sorrisos. Contornei a sequência de altares, no sentido dos ponteiros do relógio, surpreendido por tamanha beleza e quietude. Em todo o miolo do mosteiro, emanando um ambiente intemporal, pululavam inúmeros gatos; gordos e preguiçosos, esfregando-se languidamente nos quentes tapetes.

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Naquele ‘’Mosteiro dos gatos saltadores’’, não vi um único felino saltar, nem tão pouco levantar-se, pois de tão gordos que estavam, qualquer movimento deveria ser demasiado cansativo. Ainda pensei dar-lhes um valente pontapé, fazendo-os saltar, talvez voar, profetizando um verdadeiro milagre, obra de algum iluminado Buda, eu!. De imediato abandonei a pecaminosa ideia, alucinação de um céptico e incrédulo pecador; pois enquanto o Jorge meigamente acariciava um lascivo gato, uma fundamentalista Caucasiana de branca pele e autoritária entoação, admoestou-o com rigor. Amedrontados pela brusca intolerância daquele exemplar de fêmea humana, afastámo-nos com a digna postura de quem pensa que, tendo a razão para fazer dela uma mulher saltadora, não o iríamos fazer.

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Gatos felizes e sortudos, objecto de veneração e devoção, talvez numa outra encarnação, eu o narrador pecador, possa vir a ter o privilégio de ser ‘’gato saltador’’, no Mosteiro de teca Shwe Yan Pyay. Lavei os olhos naquele mosteiro e purifiquei a alma naquele lago.

Aquele inolvidável dia lago Inle, terminaria com uma longa caminhada ao Poente, por um extenso passadiço de tábuas de madeira, trocando conversas soltas e observando as crianças de uma aldeia, atarefadas na tarefa de limpar de detritos os pequenos cais embarcadouros. No regresso já o Sol descia veloz no horizonte, escondendo-se quase envergonhado nas montanhas que emolduravam tamanha beleza. Assim se viaja em Myanmar.

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Nessa noite regressámos a um pequeno restaurante onde havíamos jantado no dia anterior, fomos recebidos em festa e tratados como dignitários estrangeiros. Regámos a manjar muita cerveja estupidamente gelada e coroámo-lo com saborosas panquecas de chocolate, quentes e suculentas, de lamber os dedos e chorar por mais. Talvez não fosse a doçaria tradicional Birmanesa, mas soube muito bem.

A viagem aproximava-se do final e, o ultimo dia na região do lago Inle, foi passado numa caminhada de montanha, com a duração de muitas horas. O percurso pouco acentuado e a temperatura agradável, ajudou, mas o lamaçal acumulado nalguns troços, enterrando-nos os pés na lama, dificultou. Em disciplinada fila Birmanesa, encabeçada por um guia e acompanhados pelo ‘’homem da água’’, percorremos montes e vales, ribeiros e lamaçais, visitámos escolas onde crianças monges entoavam ritmadas lengalengas, mosteiros em grutas onde venerados monges oravam, almoçámos calmamente no campo e até mergulhámos numa represa.

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Já no regresso, parados junto a uma escola primária, o Marcos executou malabarismos com a bola de futebol, perante o olhar fascinado de um grupo de crianças.

Nessa noite celebrámos a vida e a amizade com um inesquecível jantar, onde homens e mulheres, envergámos o tradicional pano comprido, encobrindo as envergonhadas pernas; o ‘’longyi’’.

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Os homens usam-no na forma de um cilindro; um pano em tons escuros, costurado nas extremidades, atado com um nó forte e simples na cintura. As mulheres usam-nos em padrões coloridos e floridos, como um comprido pano rectangular aberto, cujos laterais se sobrepões na frente.

Brindámos com vinho das castas do Inle e fizemos uma incursão pela gastronomia da Indochina. Eu, alambazei-me com petiscos do Laos.

 

Yangon: Shwedagon, ”…we are golden…”

A partir de He Ho, ainda na região do lago Inle, a cerca de uma hora de distância de Nyuang Swhe, voámos para Yangon, numa daquelas companhias de aviação Birmanesas a quem não é permitido comercializarem voos, na Europa. Definitivamente posso afirmar que gostei do ambiente entre o provinciano e informal, mas prático e eficiente e com pessoal muito simpático, dos aeroportos de Myanmar.

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No final das rápidas semanas de viagem, regressámos a Yangon e, cada um de nós, usufruiu do tempo e do espaço, como melhor quis.

Eu, por me ter juntado ao grupo, apenas no segundo dia de viagem, tentei recuperar o tempo perdido. Na companhia da minha magnífica guia privativa, a Fátima, que regressava ao Shwedagon, pela segunda vez em quinze dias, senti-me deslumbrado e completamente dourado e, até cantámos em dueto; ‘’We are Golden’’, do Mika. Acredita que é verdade leitor paciente.

 O Shwedagon é desmesurado e indescritível e de impossível descrição. Aqui nestas linhas que poucos terão o desprazer de ler, confesso que me senti confuso, com a primeira impressão que o Shwedagon me ofereceu. Apenas sei escrever que, perante ele sobram as sensações e emoções e, escasseiam as palavras. Talvez pela beleza e simplicidade do enorme pagode, talvez pelo exagero arquitectónico e de elementos decorativos de todo o recinto religioso, que cercam e ofuscam a beleza do Shwedagon.

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Saímos do ‘’Thamada’’, eu e a Fátima, para um percurso pedonal, quase rectilíneo, de cerca de 2 quilómetros, até ao Shwedagon, mas uma pesada onda de calor húmido, desmotivou-nos e procurámos o conforto fresco de um táxi, por entre o tráfego caótico das avenidas centrais de Yangon. Em breves minutos, a flecha do pagode, rasgava o céu azul e límpido e o simpático taxista, deixou-nos junto à entrada Sul do conjunto monumental.

 Não é apenas mais um dos milhares de pagodes dourados que povoam a paisagem Birmanesa; é um belíssimo e alto pagode, esguio, esbelto e sóbrio, do alto dos seus 170m de altura, revestido em refulgente ouro, implantado num marmóreo pavimento e rodeado por uma miríade de pagodes, salas de orações e outros edifícios religiosos, mais pequenos e profusamente decorados, que conseguem ofuscar a apurada estética da edificação principal. A gigantesca cenografia completa-se por uma imensa estatuária de Budas e ‘’nats’’.

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A Fátima e este narrador, entrados em tão magnífico santuário, cumpriram todos os preceitos, normas de conduta, respeito e boa educação, que é como quem diz e pratica; quanto a religiões, o mais adequado é passares entre os pingos da chuva!

Descalço e de pernas cobertas por um pano longo em padrão de quadrados axadrezados em tons de azul, penetrei no marmóreo e quente pavimento. Rezam as lendas que das peludas pernas do mais puro e casto dos homens, pode nascer o mais severo pecado. E nestes santos lugares, costumo dizer: ‘’… pernas de homem tapadas, não cobiçam olhares gulosos…’’. Já devo estar a caminho do inferno, com acesso pela porta principal.

 Não fui ao Shwedagon para rezar, prestar homenagem a Buda, agradecer aos ‘’nats’’, invocar um destino mais favorável ou redimir os muitos pecados para renascer melhor, não cumpri outro ritual que não fosse o de despejar água sobre uma estátua de Buda, sei apenas que deslumbrada e lentamente me vesti com tamanha beleza dourada, dourada e dourada, até cansar de dourado os meus castanhos e embaciados olhos. Nem o próprio Lord Byron o diria melhor! ‘’…Presunção e água benta, cada um toma a que quer…’’.

 No enorme terraço, erguido numa única noite pelos ‘’nats’’, eleva-se o altivo Shwedagon, protegido por dezenas de outros templos.

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Deambulámos calmamente, fotografando tudo o que está estático e brilha com o fulgor do ouro e as pessoas que são o maior tesouro de Myanmar. Conversámos, fizemos largos silêncios, sentámo-nos nos degraus de muitos templos e salas de oração e assim se esgotou uma tarde perfeita no Shwedagon.

Confesso a estas linhas, que naquela tarde quente, senti alguma dificuldade em caminhar com o largo pano, atado à cintura, porque ora tropeçava no longo tecido, ou este escorregava-me, desnudando as pernas. A Fátima gargalhava cúmplice, perante a minha falta de destreza.

Todo o complexo arquitectónico e religioso, eleva-se sobre larguíssima plataforma circular, como um planalto artificial, um vasto terraço, 50 metros acima da cidade, erguido para elevar a suprema dignidade e religiosidade do pagode. O conjunto abre-se aos quatro pontos cardeais, com quatro grandes templos, acessos e escadarias cobertas, pejadas de lojas, bilheteiras e postos de controlo onde depositamos e recolhemos o pecaminoso calçado.

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Ao longo dos séculos, os soberanos Birmaneses, ordenaram a construção de ‘’stupas’’, cada vez mais altos, maiores, mais belos. Tentando sempre superar as oferendas do antecessor, numa atitude pouco consentânea com os princípios do Budismo. Vaidade a quanto obrigas.

 O que mais me sensibilizou no Shwedagon e em todos os lugares de culto em Myanmar, foi a sincera devoção dos crentes; as singelas oferendas de flores e incenso.

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A população Birmanesa, de aparente fragilidade física, é dotada de uma força interior indomável, talvez explicada pela fé, talvez pela vontade, talvez por algo de indecifrável, porque é invisível ao olhar. É um povo esteticamente belo, de gestos carinhosos, de afectos partilhados e de silenciosas e longas conversas, porque se diferentes línguas nos impedem de comunicar, sem dúvida que o podemos fazer pelos olhares e sorrisos.

 Por breves momentos, lembrei-me de que na nossa pátria ‘’tuga’’ desdita e madrasta, se os políticos tivessem algum monumento que ostentasse tamanha riqueza, já teria há muito, sido substituída por plástico e o ouro vendido, a preço de saldo, aos nossos ‘’amigos inimigos’’!

 Reencontrámo-nos todos no ‘’Thamada’’, para o último jantar de grupo, onde celebrámos com muita cerveja, o conhecimento, a partilha, a amizade e novos projectos de viagens e aventuras, em suma, a vida tal como a entendemos.

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Na manhã seguinte, alguns de nós, partilhámos o ‘’breakfast’’ e despedimo-nos com um ‘’…até breve…’’. Começaram as despedidas; a Maria José seguiu rumo a Bangkok, onde permaneceria por 5 dias até se reencontrar com o Jorge, em Hanói, para nova aventura na Indochina. A Fátima e o Fernando, rumo a Singapura, para uma breve visita à cidade estado. A Sofia, a Alexandra, a Helena rumo à velha e caduca Europa.

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 Ainda tive tempo para deambular pela baixa de Yangon e, a partir do pagode de Sula, junto ás grandes construções oficiais, públicas e administrativas, sentei-me nos degraus do monumento, no centro do parque, guardando nos olhos aquelas imagens que as fotografias não conseguem perpetuar. Depois, percorri a malha ortogonal de degradadas edificações coloniais da velha Yangon, gastas pelas inclemências de um rigoroso clima. Nos dois bairros; o Indiano e o Chinês, separados pela rotunda de Sula e delimitados junto ao barrento rio, pelos armazéns do porto, pululavam multidões ruidosas que se estendiam em infindos mercados de rua. Nalguns quarteirões comercializavam-se frutas e flores, noutros estendiam-se livros nos passeios, aqui pequenos restaurantes de rua, mais além pequenas lojas de tudo o seja possível imaginar, acolá especiarias e unguentos, em todos os lugares a mesma afabilidade e simpatia.

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 Gosto de permanecer só, nas últimas horas de uma viagem, tentando captar sons e imagens, viver sensações e odores, ritmos e ruídos, enfim, saber que estou ali e que sou eu, apenas ‘’…eu e a minha circunstância…’’.

De regresso ao ‘’Thamada’’, sentei-me num misto de café colonial e tasca Birmanesa, entre o pagode de Sula e a estação ferroviária. Percorriam o passeio esburacado, tranquilos monges de marmita na mão; militares apressados ostentando descuidado armamento pendurado ao ombro; homens e mulheres de visual tradicional, mas urbano, protegendo-se do inclemente Sol com elegantes sombrinhas e vulgares guarda chuvas. No asfalto escaldante que parecia derreter em ferida, circulavam um caótico trânsito de automóveis Japoneses, motorizadas Chineses e bicicletas Birmanesas. Assim se vivem os ritmos de uma cidade, observando e sentindo.

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Almocei com a Ana, o Carlos, o Marcos e o Jorge. Pelo fim da tarde, voei para Guangzhou, com a Ana e o Carlos e separámo-nos no novo terminal da velha Cantão, por entre o tradicional caos dos aeroportos Chineses; eles rumo a Paris, eu rumo a Amesterdão, onde reencontraria o Marcos.

Terminou esta aventura pelas brumas de Burma. Regressei a uma vida castanha, a um trabalho cinzento e ás burocracias inerentes aos pequenos poderes instalados, onde cada um, para se sentir imprescindível, procura boicotar o trabalho dos outros, numa invenção constante e sucessiva de dificuldades fictícias. Assim se vive e trabalha no rectângulo à beira mar debruçado, precipitado no abismo da incompetência e do absurdo; cada povo tem aquilo que merece.

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 Sonho que estou sentado no meu lugar de trabalho, num gabinete encerrado, sobre um pavimento sintético em manchas plúmbeas e rodeado de ameaçadoras paredes de branco pintadas. O tecto é alvo, psiquiatricamente pesado, rasgado em grelhas metálicas protectoras de luzes que me cegam. Ao meu lado esquerdo, rasga-se uma porta envidraçada fechada; do outro lado do vidro, um claustrofóbico pátio enclausurado em sucessivas e opressivas arcadas, rodeia um relvado queimado pela geada. Ao meu lado direito, abre-se uma janela gradeada, do outro lado da rua por onde correm apressados vultos, desenham-se paredes quase cegas. Chamam por mim. Ouço gritar o nome Barthleby, mas apenas digo; ‘’…I would prefer not to do this…’’.

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Acordo assustado, adormeci profundamente durante meia hora, na viagem de comboio entre a gare do Oriente e a estação de Coimbra B. Não posso voltar a dormir, estou perto de casa. Mas afinal a minha casa é o mundo, é em todos os lugares e em lugar nenhum.

Regressei ao mundo real, em Novembro de 2013, mês em que se celebra o primeiro centenário da publicação do primeiro volume de ‘’ Em Busca do tempo Perdido’’, de Marcel Proust e o primeiro centenário do nascimento de Albert Camus.

Em muitos dias, cada vez mais dias e noites escuras, acordo a acreditar que este Portugal, se transformou num pais cinzento em que grassa um silencioso medo, soma de todas as dúvidas, de todos os futuros, que se tornaram incertos. Então escapo-me da realidade, pelo sonho, voo para os lugares onde estive e onde nunca poderei estar.

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Ainda tenho a sorte de poder viajar, ler, conhecer e aprender, mas também eu tenho medo de que, um dia, isso já não me seja possível. Então acredito que não merecerei viver mais, um único dia que seja.

Estas linhas foram terminadas em Dezembro de 2013. Fazem parte de um longo livro que nunca será publicado, apenas partilhado com os amigos. Desse ilegível texto de muitas dezenas de páginas, expurguei as referências históricas que tornariam insuportável a sua publicação neste ‘’blog’’. Eliminei também as deliciosas vivências de uma viagem partilhada com um grupo de Amigos e companheiros de aventura. Tentei que restasse apenas a minha visão pessoal; tendenciosa e viciada, porque é para esse mesmo fim que serve o ‘’blog’’, alimentar a vã fogueira da minha vaidade.

Se uma única pessoa, tiver a paciência de me ler, sem cortar os pulsos, então a missão foi cumprida!

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Esta viagem foi ‘’inventada’’ pelo Jorge Vassallo e pela ‘’Nomad’’ e partilhada com um excepcional grupo de desconhecidos que se transformaram em Amigos. Obrigado; Maria José, Fátima, Sofia, Alexandra, Helena, Ana, Carlos, Fernando, Marcos, e Jorge. Sem a vossa companhia esta aventura não teria sido aquilo que foi. Até breve, talvez na Etiópia, talvez na ”Rota da Seda”, talvez em qualquer parte do mundo.

                                                                                             Rui Neves Munhoz

Viajar como quem nasce…

Viajar como quem nasce…

Viajar  como quem se deixa nascer para outra realidade, sem juizos de valor, como a atitude das crianças que entram neste mundo, de repente, sem guia turístico ou outro, a abrir os olhos, os ouvidos, a tatear, a captar…Nunca ficamos iguais depois de uma viagem em que o pensamento se exercite a ficar numa attitude de receptividade, de compreensão , de descoberta, de conexão.

É criançar , é ter vivências desmedidas, sentir sem limites de pensamento, como se os sentidos fossem mais de cinco, e um sexto, um  sétimo sentido nos arrastasse para além do descritível pelas palavras sensoriais .

As crianças captam, ouvem, expandem a cada minuto, a cada olhar, a cada abrir e fechar de olhos.

Extravasar os limites da fronteira que é a nossa pele , o nosso corpo, e captar o que vibra, o que vive,o que não podemos classificar nem julgar.

Nós vamos sendo condicionados na maneira de olhar, de ouvir, de tocar, de expressão … aprendemos códigos de comportamento, sempre sujeitos à interpretação  num espaço e numa comunidade. Morremos aos poucos por inação , por atilhos a prender movimentos, pensamentos. Copiamos , comparamos, não criamos…Deixamos de ser crianças.

Quando viajamos sem preocupações de grandes informações prévias a descoberta interpela-nos mais a nu, sem estarmos nem na defensiva nem na comparação. É bom olhar e ver como as crianças, sem imaginar antes…O quê? O que sente quem nos olha? Temos uma barreira física dentro da qual nos movemos e nos introduz antes de falarmos. Linguagem não verbal .

Sentir não é comparar. Sentir tem as portas dos sentidos e as outras para entreabrir  e esperar o que surge. Sentir é expectante. Nascemos de novo, pois quando entramos neste mundo temos o mais difícil exercício de adaptação ao desconhecido de toda a nossa vida. A superar para viver. E viver será sempre superar. Se flutuamos não vivemos, estamos sem sentidos de olhos abertos.

O absoluto e o relativo…Porque é absoluto o que conhecemos e relativo o que é desconhecido?

Viajar relativiza-nos. Recoloca-nos perante nós próprios. O absoluto passa a ser o relativo…É tudo absolutamente  relativo. Segurança? No equilíbrio do momento. Quanto mais arrisco mais momentos seguros sinto. Obrigo-me a encarar a fragilidade do momento e a segurá-la para não cair…

As paredes entaipam, limitam, fazem-nos retroceder porque não deixam avançar. Quem não avança recua.

Ir é sempre um futuro …Para onde vais? Para o futuro… nada mais do que isso. O presente é um patamar com acesso a uma escada que sobe outra que desce. ..

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Imagens de uma viagem a Myanmar acontecida em Outubro / Novembro de 2013.

Texto sentido e escrito por Maria José Lobo Elias; uma grande companheira de viagens e Amiga, que escreve e desenha com mão de mestre.

Entre o Jordão e a estrada de Damasco.

A Jordânia sempre foi um país de acolhimento, nunca fechou as fronteiras ás populações vizinhas fugidas dos terrores da guerra e das perseguições. Como resultado das duas guerras do golfo, a população Iraquiana, ascende ás centenas de milhares, a maioria sem documentos, e mais de um milhão de Palestinianos, fugidos das sucessivas guerras e ocupações Israelitas.

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A grande maioria da população Jordana é de origem Árabe, de língua oficial Árabe e de religião Muçulmana, principalmente de tradição Sunita. Coexistem algumas minorias de Arménios e reduzidos grupos étnicos de origem Caucasiana. Nas zonas fronteiriças com a Síria, habitam grupos étnicos e religiosos Alavitas, (de tradição Xiita). Existem também algumas pequenas comunidades Cristãs, das quais um terço pertence à Igreja Ortodoxa Grega.

 A Jordânia é um país pequeno e de recursos naturais limitados, a economia do reino depende da exploração de fosfatos, carbonato de potássio e, mais recentemente, na última década, do turismo. Consegue resolver parte das suas necessidades energéticas pelo recurso ao gás natural e importa petróleo, a preços muito reduzidos, dos países vizinhos, nomeadamente do Iraque

Esta rodeada de gigantes, pelos senhores do petróleo, por inimigos, rivais e pelos senhores da guerra, mas apesar destes condicionalismos geográficos, soube viver e sobreviver com a dignidade que no seu povo merece. A história do petróleo

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A Jordânia, é um país do Médio Oriente, limitado a Norte pela Síria, a Leste pelo Iraque, a Leste e a Sul pela arábia Saudita, a Oeste pelo Golfo de Acaba, (a estreita saída Jordana para o mar, através do qual faz fronteira marítima com o Egipto), por Israel e pelos territórios Palestinianos da Cisjordânia. Apetece dizer’’…com amigos e vizinhos destes, ninguém precisa de inimigos…’’. Aí vem em pouco mais de 90.000 quilómetros quadrados, cerca de 6 milhões de habitantes.

 É um país pobre e árido, encravado entre inimigos, mas nem por esses condicionalismos geográficas e políticas, a Jordânia deixou de ser a casa de acolhimento daqueles, talvez milhões, que fugiam das guerras do Médio Oriente. É sempre o mais pobre o que estende a mão, partilha a pouca alimentação e oferece um tecto.

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O território Jordano assenta essencialmente num grande planalto que desce desde as montanhas da zona Ocidental, monte Ramm a Sudoeste, até ás fronteiras Orientais. A parte ocidental do país é a mais acidentada, não só devido ás cadeias montanhosas, mas também à descida abrupta até à depressão que liga o Mar Vermelho, o Mar Morto e o vale do rio Jordão. A grande ferida na crosta terrestre do Rift, que se estende por milhares de quilómetros até aos grandes lagos Africanos, aqui começa. As placas tectónicas da crosta chocam e empurram-se em conflito permanente entre as margens Leste, (desértica e árida), e Oeste, (mais fértil), do rio Jordão. À imagem da geologia da crosta, os homens criaram a ideologia dos países que bordejam o Rift. Numa margem Israel, na outra a Jordânia, entre ambos, o rio e o mar Morto. Nada aparece por acaso, no mundo dos homens, tudo tem uma razão de ser, como se em redor deste mar interior, estéril e salgado, os Deuses de todos os lados tivessem castigado os homens com a impossibilidade de poderem viver em paz.

As condições climáticas e a disponibilidade de água, são os factores que determinam a distribuição das populações, ao longo do Jordão, Lago Tiberíades, Mar Morto e nas duas grandes cidades. Com uma expectativa de vida elevada, o aumento demográfico é crescente e constante.

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Um país, uma região, ou uma cidade, que visitamos e vivemos, ou que, pelo menos, tentamos conhecer, são como tentar sentir as pessoas que passam pelas nossas vidas. Umas permanecem por toda a vida, mesmo que passem rápido, outras ficam por pouco tempo físico, junto de nós, mas todas deixam marcas nos nossos espíritos. Se em determinados períodos das nossas vidas, por exemplo em cada lustro ou em cada década, pararmos para olhar o passado, então veremos que tudo é demasiado rápido, tremendamente efémero. Tudo passa, com a velocidade que o tempo e a vida obrigam, mas quase tudo permanece em nós. Cada viagem é como a vida, tem um início e um fim, mas prolonga-se para muito além do deu final físico. E como na vida, que não é mais do que uma viagem, cada viagem também é, a vida dos que conhecemos pelo caminho e que nos emprestam alguns momentos das suas próprias vidas.

Quanto à bagagem, aplico o mesmo método que ao espírito, o menos é sempre mais, assim carrego muito menos peso, no corpo e na mente. Levo sempre 2 livros em cada viagem, um guia não demasiado exaustivo, e um outro livro, que nada tenha a ver com a viagem, para as largas noites, longas esperas em aeroportos e viagens de avião e de comboio. Gosto dos guias ‘’American Express’’, por estarem traduzidos em Português, pelo grafismo e por serem mais apelativos, mas os ‘’Lonly Planet’’ são os mais práticos e elementos essenciais numa viagem não demasiado organizada.

O meu companheiro de viagem e de quarto, nesta viagem pelo Médio Oriente, foi o livro ‘’A Sombra dos Dias’’ de grande escritor Catalão, Carlos Ruiz Zafón. Foi ele o meu colega de quarto nas noites quentes da Jordânia, adormeci com Julian Carax e o ‘’cemitério dos livros esquecidos’’, assim temperei o clima, com o fresco da Barcelona da primeira metade do século XX.

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Para o quente clima de um Verão na Jordânia, a roupa e equipamento pode bem ser reduzido a escassos quilos. Longe vãos os bons tempos em que podia transportar tudo em bagagem de mão, mas nos tempos que correm, de claustrofobia e paranóia colectiva, a maior parte das vezes totalmente infundados, levantam impedimentos a todos aqueles que, como eu, gostam de viajar, conhecer e aprender em liberdade.

Cheguei à Jordânia e a Amman sem outra companhia, a não ser ‘’…eu e a minha circunstância…’’. Estava consciente e motivado de que provavelmente iria fazer uma viagem, mais ou menos à aventura, entre o organizado e planeado quanto baste e o desorganizado quanto me apetecesse. Depois da calorosa chegada ao aeroporto e de instalado no ‘’Toledo’’, subi à recepção, (é mesmo assim que devo dizer, pois eu estava instalado no piso 3 e o ‘’lobby’’ no piso 7), para planificar o dia seguinte, saber de algumas hipóteses de táxis, ou autocarros, para Jerusalém, ou Damasco. Ficou combinado que partiria para a fronteira, entre a Jordânia e a Cisjordânia ocupada por Israel, de táxi, pelas sete horas da manhã. A partir da fronteira teria que procurar transporte para Jerusalém.

Deitei-me sem sono e ainda tive tempo de mergulhar nas páginas de ‘’A Sombra do Vento’’, adormeci já bem tarde e……, numa madrugada escaldante, conheci as minhas companheiras de viagem!

Leitor atento, nada de conclusões precipitadas, pois eu vou contar a ‘’estória’’: nessa madrugada quente, fui acordado pelo telefone, cerca das 3 horas. A primeira reacção foi de susto, mas logo fui informado, pelo mesmo recepcionista a quem tinha perguntado sobre os transportes para Damasco ou Jerusalém, que alguns viajantes, acabados de chegar de Istambul, também pretendiam partir, à aventura, na manhã seguinte, para Jerusalém. Quereria eu, viajar com eles?

Os laços entre os viajantes tecem-se e estreitam-se, ás vezes em poucas horas de aventura, de um modo muito mais intenso, do que em anos de convivência com pessoas que nos são indiferentes.

Não costumo frequentar hotéis em Portugal, mas ‘’apenas’’ no resto do mundo, e por esta razão, devo ser um ‘’sortudo’’ na forma como sou bem recebido e tratado. A Jordânia e todos os países Árabes, são o bom exemplo de como nos podemos sentir bem ‘’fora de casa’’, ás vezes melhor, do que neste rectângulo, ‘’…à beira-mar plantado…’’.

Em segundos, vesti uns calções ‘’decentes’’, para subir à recepção, do terceiro ao sétimo piso, pois o ‘’Toledo’’ implanta-se pendurado numa colina de Amman.

Cheguei rápido e desalinhado, ensonado também, e encontrei cinco mulheres jovens, para minha grande surpresa, também Tugas. Viajavam em dois grupos, a Susana, a Al e a Nídia, vindas de Guimarães, a Olga e a Lili, da região de Lisboa. A surpresa delas, foi o depararem-se no átrio de um hotel de Amman, com um exemplar masculino, quase cota, tipo Russo, ou Ucraniano, meio despido, ou meio vestido, que ainda por cima e para espanto de todas, falava em Português.

O mundo é bem pequeno para o nosso espírito e as nossas vontades de conhecer e aprender, por esta soma de razões, conseguimos encontrar, muitas vezes, os companheiros adequados a cada viagem. É sempre bom encontrar Portugueses que usam a nossa forma de partilhar experiências e vivências.

Sempre fugi dos grandes aglomerados de hotéis, frequentados por obedientes rebanhos, identificados com a estigmatizante pulseira do ‘’tudo incluído’’, com mais velocidade do que o diabo a fugir da cruz. Não gosto de lugares de moda, nem de turismo massificado, onde enormes grupos, convivem e vivem apenas com eles próprios, desperdiçando dinheiro e desconhecendo tudo o que os rodeia, por opção e decisão próprias, mas ainda bem que assim acontece, pois fica mais mundo para eu conhecer. Nada tenho contra os que procuram esse tipo de turismo global, mas ‘’…não é a minha praia…’’. Sei que sou egoísta, mas pelo menos tenho o escasso mérito de escrever aquilo que penso, que sinto e que faço.

Gosto do desconhecido e da aventura. E sei que por onde quer que me desloque, desde os Andes aos Himalaias e das savanas Africanas até ás pequenas povoações perdidas na Europa central, é fácil encontrar um companheiro de aventura que fale a língua do Padre António Vieira, talvez o mais universal e corajoso dos Portugueses que se perderam, por livre vontade, para tentar construir um mundo melhor.

E foi assim que conheci as minhas companheiras de aventura, depois das confusas e necessárias apresentações, retirámo-nos rápidos, para pouco mais de uma hora de apressado sonho, antes que o chamamento do ‘’Muezzin’’ nos despertasse, mas este primeiro dia de aventura, vai ficar para o final desta história.

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Ao longo dos dias de aventura na Jordânia, muitas vezes partimos de manhã, bem cedo, do ‘’Toledo’’, para regressar cansados e cheios de fome, ao final do dia, para os deliciosos e abundantes manjares que os cozinheiros do ‘’Toledo’’, nos prepararam. O restaurante do hotel, era essencialmente frequentado por grandes famílias Jordanas tradicionais, de visual e vestuário conservador. As mulheres, vestidas de escuro e com os cabelos cobertos com lenços, mantinham-se discretamente afastadas dos poucos hóspedes do hotel, os homens de fato completo e as crianças com roupas domingueiras, celebravam cada noite, o final de mais um dia de Ramadão. Cada jantar era uma festa prolongada, destinada a repor as energias perdidas e a preparar um novo dia de jejum.

A partir do ‘’Toledo’’ fizemos diversas viagens até à zona central e Norte da Jordânia, muitas vezes entrámos e saímos de Amman, em direcção aos ‘’Castelos do Deserto’’, à fronteira Síria e Iraquiana, a Jerash, a Jerusalém, a Israel e à Palestina, ao Rio Jordão e ao Mar Morto. Todas as noites, passeámos a pé, pela zona central da cidade e passámos a senti-la, um pouco como nossa, por um determinado período de tempo.

Amman, a capital do reino, tem um longa história e foi local de passagem, ou de assentamento, de diversas civilizações. Os mais antigos registos apontam para a permanência de populações durante o Neolítico, aproximadamente 8.500 a.c., no lugar de Ain Ghazal, localizado a leste de Amman, onde as descobertas arqueológicas demonstram crescimento de trabalho artístico. O que evidencia a existência de uma civilização já desenvolvida, para aquela época.

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No século XIII a.c. os povos Amonitas chamam ao lugar de Amman, Rabbath Amon. Nos escritos Hebraicos a cidade é referenciada como Rabbat Ammon. Sucederam-se, ao longo dos séculos, os Assírios, os Persas e os Gregos. Uns passam mais rápidos, outros estabelecem-se e permanecem por gerações. Um dos Faraós de origem Grega do Egipto, Ptolomeu II Filadelfo, rebaptizou a cidade com Filadélfia.

Posteriormente a cidade passa a fazer parte do reino Nabateu, até 106 d.c. Continua a denominar-se Filadélfia, durante a ocupação Romana, juntando-se à Decápole: um conjunto de dez cidades de tradição e cultura Helenística, grande dinâmica comercial, autónomas, mas que se uniam em caso de necessidade.

Com a adopção do Cristianismo como religião oficial do império Romano, em 326 d.c., no reinado de Constantino, a cidade de Filadélfia tornou-se sede de bispado. Uma das Igrejas Bizantinas igreja ainda permanece na cidadela de Amman.

Filadélfia passou a ser chamada de Amman, durante a época Ghassaniana e continuou a florescer sob os Califados Omíadas de Damasco e Abássida de Bagdad. Após a ascensão vem o declínio e os terramotos e desastres naturais abatem-se sobre a cidade que permanece uma pequena vila em ruínas, durante séculos. A sorte e o destino de Amman, mudam quando o Sultão Otomano decide construir a linha férrea de Hejaz, ligando Damasco a Medina, facilitando a peregrinação anual do Hajj e transformando Amman num entreposto comercial permanente no caminho da peregrinação aos locais sagrados da península Arábica.

Corria o ano de 1920, quando Abdullah I, escolheu Amman, como sede do governo do seu estado recém-criado do Emirato da Trans-Jordânia, e posteriormente como capital do Reino Hachemita da Jordânia. Como não existia na cidade nenhum edifício digno de ser considerado sede do governo do novo país, o rei Abdullah I começou o reinado a partir da estação de caminhos-de-ferro, o escritório foi uma carruagem de comboio.

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Mas Amman foi uma pequena cidade provinciana até 1948. A população só aumenta significativamente com as sucessivas vagas de refugiados de todos os conflitos do Médio Oriente, até ás guerras do golfo e à invasão do Iraque, após 2003, que fizeram crescer a cidade de uma forma caótica e desorganizada. A escassez de água, a deficiência de infra-estruturas básicas e planeamento urbanístico, aliadas a uma multidão Árabe multicultural e multinacional, não conseguiram retirar o encanto a uma Amman, já do século XXI, que se estende sobre colinas.

A capital cresceu ao longo de décadas e estendeu-se muito além das sete colinas, como Roma, ou Lisboa. Nos vales estendem-se e alargam-se vias rápidas e circulares externas com tentáculos que nos conduzem quase até ao centro da cidade. O trânsito é intenso, mas bem menos caótico do que no Cairo ou em Istambul e os grandes edifícios dominam a linha de horizonte ondulante nas colinas. Os bairros habitacionais sucedem-se em construções de dois, três ou quatro pisos, todas forradas em pedra calcária de cor ocre, dando a Amman uma homogeneidade que, longe de ser monótona, encanta. Todos os caminhos confluem, como um rio, para o centro, a baixa, que de histórico já tem pouco, mas tem vida e palpita de cores, cheiros, contrastes e emoções, como só uma cidade Árabe sabe viver e sentir.

O Leste de Amman é a zona mais antiga da cidade, onde as pequenas moradias sobem e descem as colinas, penduradas entre pequenas lojas tradicionais. A velha Amman dos Souks e bazares, dos bairros populares, na zona Oriental é o coração da cidade. De carácter físico e humano essencialmente Árabe e Muçulmano, a cidade velha é, um oásis de tolerância e respeito, pela tradição dos Jordanos e pelas religiões, crenças e hábitos dos visitantes. Devemos perder-nos voluntariamente em Jabal Amman para sentir e viver a cidade velha e conhecer os habitantes que lhe dão vida.

Jabal Al Qal’a, o morro da Cidadela de Amman, foi habitado durante séculos, como um importante local religioso e militar. As origens remontam talvez à Idade do Bronze, chegando os vestígios habitacionais, até aos tempos Romanos do Imperador Marco Aurélio, (século II d.c.), com a construção do templo de Hércules, semelhante ao templo de Artemisa, em Éfeso. Da cidadela da antiga Filadélfia, os Romanos governavam a região, mas a vida não se resumia apenas a administração do império e junto ao Fórum, ergueu-se o maior teatro romano da Jordânia, com capacidade para 6.000 espectadores, mandado construir talvez no reinado do Imperador Antonino Pio, (século II d.c.).

Os Bizantinos também ocuparam e edificaram a cidadela e alguns séculos depois, com a época Islâmica, foram realizadas obras importantes no mesmo morro da cidadela. O que sobreviveu da milenar Filadélfia, foi muito pouco, a outrora poderosa, altiva e comercial cidade, devido a uma ocupação sucessiva e constante, foi sendo delapidada do seu passado construído, para edificação de novas construções. Assim as pedras antigas, foram sendo utilizadas em construções novas, num ciclo destrutivo constante em que cada novo habitante e ocupante, se servia do passado para viver melhor o seu presente. Este devaneio destrutivo que durou muitos séculos em locais históricos e arqueológicos primordiais e fundamentais em todo o mundo, foi a norma comum, sempre que o povoamento se apresentava contínuo e permanente.

A Amman dos nossos dias continua a ser uma cidade de Mesquitas. A mais recente é a enorme e azul Mesquita do Rei Abdullah I, datada da década de oitenta do século passado. Mas a mais interessante e curiosa Mesquita construída em Amman, é a de Abu Darweesh, construída pela minoria Circassina oriunda do Cáucaso e implantada no ponto mais elevado da cidade e com uma cobertura de grande beleza, num padrão negro e branco, extraordinário, que se torna visível a grande distância. Como contraste, o seu interior é despojado, de paredes de cores claras e bonitos tapetes Persas.

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Percorremos as ruas descendentes, num fim de tarde abrasador, num Verão de Ramadão, a caminho do centro de Amman. Os corpos cansados dos habitantes da capital, depois das muitas horas de um longo jejum diurno, ansiavam já por um cair do Sol que tardava. Preparavam-se com azáfama e alegria, as bancas de frutas, sumos e de alimentos fortes e saborosos que ajudassem a recuperar as forças, após mais um dia de Ramadão.

Nas ruas do centro, junto à Mesquita, onde os trabalhadores ilegais Egípcios aguardam pela oferta de um escasso trabalho, os mercados de final de tarde, povoam-se de vendedores e compradores, homens na quase totalidade, animando-se em sons de gente boa e trabalhadora.

Os Jordanos são Árabes, de religião Muçulmana Sunita, tolerantes e afectuosos para com os estrangeiros visitantes, convidavam-nos a ver as bonitas bancas de saborosas frutas, abundantes em generosos figos e grandes cachos de doces uvas, laranjas e romãs de delicioso sumo e as melhores melancias que jamais houvéramos provado. Todo o tipo de frutos secos, empilhados em bancas de madeira, esperavam pelo descer do Sol. No calor tremendo da tarde, o mercado permanecia fresco, as ruas e vielas cobertas por largos panos coloridos e lonas que se estendiam entre as bancas e telheiros, convidavam-nos a parar e demorar, em amena conversa com os vendedores. Deixamo-nos cair em tentação e compramos quilos de fruta, uvas e mangas, para mais tarde, saborear no nosso confortável ‘’Hotel Toledo’’.

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Quanto mais conheço os Europeus do Norte, Nórdicos, Eslavos e Anglo-Saxónicos, mais admiro os povos Mediterrânicos, Árabes e Latino-Americanos. Os Árabes são simpáticos e conversadores, têm sempre sorrisos largos e fortes abraços para nos cativar, estão muito longe da frieza e desinteresse a que as nossas vivências Europeias nos habituaram.

Nas zonas mais frescas do mercado central de Amman, pica-se o gelo em grandes baldes e enchem-se sacos de sumos de frutas, assim se inventam doces e frios batidos de frutas, prontos a serem bebidos após mais um dia de Ramadão.

A totalidade dos compradores e vendedores são homens, eles gritam e apregoam os produtos frescos, com vozes graves e sonoras, estendem longos braços abertos e soltam gargalhadas fortes. Sentimo-nos entre amigos.

Mas as ruas centrais da baixa de Amman, não se esgotam apenas no mercado. As lojas de roupas, usadas e novas, colocam os manequins, de plástico e acrílico, nos passeios, e expõem belíssimas túnicas compridas em vistosos tecidos coloridos, bordados de pedrarias diversas. Parecem imagens delirantes de modelos de Jean Paul Gautier, expostos numa sala de Paris, e afinal, são apenas algumas lojas de Amman.

Percorremos a baixa de Amman, descontraídos e animados, porque a arte de saber ver e conhecer, transporta a felicidade de aprender. O omnipresente Cristiano Ronaldo sorri estampado em sacos e mochilas. É a globalização não pelo desporto, mas pela máquina publicitária.

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Em Amman, como em toda a Jordânia, sentimo-nos bem, em liberdade total de conversar com todo o tipo de pessoas, de colocar questões políticas, sociais e económicas, de fotografar rostos bonitos e sorrisos sinceros, de circular por todos os locais, em perfeita autonomia e sem constrangimentos de alguma ordem.

Todos os caminhos confluem para o centro da cidade e é fácil fazerem-se estes percursos descendentes a pé, depois, para o regresso aos hotéis, abundam os táxis baratos, (são a excepção ao elevado custo de vida Jordano), com motoristas simpáticos e agradáveis que não nos tentam enganar, como é hábito acontecer no nosso Portugal. É tão rápido e fácil ‘’apanhar’’ um táxi em Amman, como em Manhattan, basta levanta rum braço e aparece sempre um veículo. Os táxis para Damasco, partem de toda a cidade, a preços reduzidos, 10 Dinares para fazer cerca de 150 quilómetros. Os táxis para a fronteira da ponte Allenby, no caminho para Jerusalém, Israel e Palestina, são um pouco mais caros proporcionalmente, tendo em conta que a distância é curta, mas abundam veículos confortáveis, com ar condicionado, que transportam 8 passageiros, por um custo médio de 7 Dinares, (7 Euros), por passageiro.

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Amman é uma cidade cosmopolita e arejada, limpa e sem poeiras no ar, muito seca e árida, mas o que lhe falta em jardins e espaços verdes, sobra-lhe em afectos. É uma cidade muito árida, de cores ocres, que se alteram em amarelos fortes, com o cair do Sol, ganhando cada uma das suas colinas, uma tonalidade diferente, numa beleza cromática e volumétrica que prende o olhar e fascina os sentidos. As casas ostentam depósitos de águas nos terraços, onde se acumula o precioso líquido que não é distribuído todos os dias, mas os Jordanos habituaram-se a poupar a água, com um rigor e parcimónia que só nos ficaria bem tentar imitar. A sagrada água, que no Médio oriente é tão escassa, e que nós todos desperdiçamos, todos os dias, de muitos maneiras criminosas.

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É uma cidade muito cara, excessivamente cara, com um custo de vida igual ao de muitas capitais Europeias. Até neste aspecto a capital Jordana foge do estereótipo das grandes cidades do Médio Oriente. O Dinar Jordano está equiparado ao Euro, é uma moeda estável e com grande procura em todos os países vizinhos. Cabe referir que o nível de vida dos Jordanos é elevado, com preços altos e salários bem superiores aos de outros países Árabes. Ficámos surpreendidos por no vizinho estado de Israel e em particular na cidade de Jerusalém, os comerciantes demonstrarem preferência especial pela moeda Jordana, que tem uma cotação cerca de 5 vezes superior à unidade monetária Israelita. Não nos apercebemos de miséria, de pedintes e de sem-abrigo.

Uma refeição, num restaurante de Amman, chega aos 15 Dinares, ou seja, 15 Euros por pessoa. Por toda a Jordânia encontrámos preços acima dos 13 Dinares por pessoa e por refeição. A alimentação é muito boa, com abundante e deliciosa fruta, (as melancias sem grainhas são saborosíssimas), todo a variedade de saladas, entradas tipo ‘’tapas’’ e todo o tipo de carnes, (à excepção do porco). O consumo de carne parece ser exagerado e alguns pratos de borrego, ou cordeiro, apresentam-se excessivamente temperados e gordurosos, para o nosso paladar. Sem procurar melindrar os nossos anfitriões, evitámos todos os excessos alimentares. Os sumos de laranja, ou de limão com menta, acompanhavam as refeições e nas ruas das cidades bebíamos sumos de laranjas e até de romãs acabadas de espremer.

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Esta viagem por algumas regiões do Médio Oriente, coincidiu com o período do Ramadão, mas nunca nos sentimos condicionados pela observância dos princípios religiosos. Evitámos sempre comer ou beber em público, principalmente na cidade velha de Amman, durante o dia. No centro antigo de Amman, na cidade velha e nas ruas junto aos mercados e ás Mesquitas, eram mais visíveis as preocupações de cumprir o Ramadão.

Quando visitamos um país, ou uma região, devemos agir e respeitar as normas e hábitos sociais, culturais e religiosos vigentes. E também pelo respeito que qualquer religião nos deve merecer.

Transportávamos sempre connosco, pequenas mochilas, com alguma comida, tipo bolachas, barras de cereais e água, mas quando a necessidade aperta, o engenho e a arte despertam, então pedíamos abrigo e autorização para comer e beber, no interior de alguma loja. Fomos sempre bem recebidos e compreendidos, em todos esses locais onde pedimos permissão para comer, ou beber. No interior de cafés e restaurantes frequentados por não Muçulmanos, apenas os empregados cumpriam o jejum.

Os motoristas de táxis, todos os guias que contratámos para visitas e os empregados dos hotéis e albergues cumpriam a tradição do Ramadão e das cinco orações diárias.

Tivemos o privilégio, em Amman, de ser despertos em cada madrugada, pela chamada do Muezzin, para a primeira oração diária, logo após as 4 horas da madrugada. O cântico ecoava pelo sistema de som da grande Mesquita do Rei Abdallah, localizada junto ao nosso ‘’Hotel Toledo’’. A chamada para a oração prolongava-se por cerca de 1 hora e ao fim de 2 dias já estávamos habituados ao despertar matutino. Graças à chamada do Muezzin, despertávamos muito cedo e fomos sempre os primeiros a tomar o pequeno-almoço no ‘’Hotel Toledo’’, a nossa base em Amman e o ponto de partida e chegada de muitas visitas e viagens pela Jordânia e países vizinhos.

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Quanto ao local ideal para dormir em Amman, recomendo o ‘’Hotel Toledo’’, de 3 estrelas, óptimo serviço e boa localização. O hotel pendura-se numa colina, perto da cidade velha de Amman, mas não demasiado longe do centro cosmopolita da cidade nova. Os declives provocados pelas colinas da capital, obrigam a que o ‘’Lobby do Toledo’’ esteja localizado no piso 7, ao nível do arruamento à cota superior, enquanto que a outra entrada, junto à piscina, a uma cota muito mais baixa, está no piso 1. Os táxis e transportes públicos para diversos destinos dentro e fora da Jordânia, Jerusalém, Palestina e Damasco, partem da zona envolvente do ‘’Toledo’’. Os quartos são muito bons e amplos, todo o grande número de funcionários do hotel é simpático e o serviço de óptima qualidade. Era notória uma grande quantidade de empregados, em todos os hotéis e restaurantes, com um bom efeito no nosso atendimento e ainda maior vantagem, para eles, por terem trabalho. Os pequenos-almoços são deliciosos e abundantes, as frutas, queijos e iogurtes, todo o tipo de pão e doces, são uma festa para os olhos e o paladar. Com a grande vantagem de os prepararem, com a mesma qualidade, mesmo ás horas mais inverosímeis, quando acontecem partidas de madrugada, para o aeroporto. Os jantares no ‘’Toledo’’, depois de mais um dia quente e cansativo de aventuras e descoberta, constituem um final perfeito e saboroso, para o corpo e o espírito. Para nós, Tugas de escassos recursos, não compensa pagar preços elevados por hotéis de muitas estrelas, o ‘’Toledo’’ pode, e deve, ser a nossa confortável residência, em Amman. Este hotel tem uma particularidade interessante, possui piscinas separadas, para homens e mulheres! A dos homens está permanentemente cheia, aberta durante a noite, e é bem animada, a das mulheres, está sempre vazia e é bem soturna.

As sete antigas colinas do centro de Amman, já não são apenas sete, mas alargaram-se em muitas outras, com o crescimento da cidade. No centro, as suaves colinas ondulam e em cada linha de um horizonte de pedra calcária, nasce uma outra colina de pedra calcária. São suaves e de cor ocre, como suaves barrigas deitadas, não demasiado elevadas, pouco verdes, mas cativam-nos pelos contornos sucessivos até o olhar se cansar. Toda a paisagem urbana coberta por uma cúpula de céu azul claro, radioso e sem nuvens.

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Amman, não é propriamente uma cidade bonita, que nos conquista, o coração e os olhos, ao primeiro olhar, como acontece com Istambul, Damasco, Marrakech, ou tantas outras cidades Árabes que nos fascinam. Não tem o gigantismo fabuloso do Cairo, nem a magia de Alexandria, mas também não é uma cidade descaracterizada e impessoal como as capitais milionárias dos Emiratos do golfo Pérsico, onde não existem passeios para caminhar. É uma cidade agradável, à escala humana, que merece bem mais atenção do que uma visita rápida à chegada e à partida. Conquista-nos em cada dia que lá passamos.

Os altos edifícios de hotéis de muitas estrelas, as sedes de bancos e grandes companhias financeiras internacionais e os enormes centros comerciais em construção, dominam as vias rápidas, novas avenidas e rotundas, o trânsito é intenso, mas consegue ser rápido.

Amman é a nova Beirute, como centro financeira, da banca e dos negócios, que se deslocou do Levante Mediterrânico, mais para o Médio Oriente. Com grande vantagem para a capital Jordana, porque sendo uma cidade que cresceu devido aos refugiados das guerras vizinhas, soube integrá-los, fazendo da diáspora palestiniana e, mais recentemente, Iraquiana, uma mais valia cultural, social e empresarial, que funcionou como alavanca para um desenvolvimento progressivo. Longe vão os ‘’anos de chumbo’’ de inícios da década de setenta, e o crescimento económico e a estabilidade política são as imagens de marca do Reino Hachemita.

A Wakalat street constitui o eixo pedonal da capital, uma rua urbana e cosmopolita, pejada de cafés e lojas das grandes marcas internacionais, que não destoaria em qualquer cidade Europeia.

Amman é uma cidade muito ocidentalizada, uma das mais liberais e abertas cidades do Médio Oriente. A liberdade de culto, a arte e cultura em expansão e uma imprensa bem mais livre a autónoma do que na maioria dos países Árabes, a ausência de normas e restrições ao modo de vestir, tornam a Jordânia num país tolerante. O limite são o rei, a rainha e a família real, mas a primeira e mais mediática família da Jordânia constitui um grande orgulho para o povo Jordano.

Na Jordânia não existe o sistema autocrátito das outras moanarquias da península Arábica, fala-se abertamente de política e de religião.

A cidade de Amman é o local de permanência de uma intelectualidade diversificada e multicultural, escritores, artistas e músicos, provenientes de paíse vizinhos, como o Iraque e os territórios Palestinianos, e que encontraram um país de adopção, que não lhes limita a liberdade, nem corta a criatividade. A diáspora Palestiniana e Iraquiana, ao longo das últimas décadas, em conjunto com trabalhadores e empresários Sírios, Libaneses, Egipcíos e dos Emiratos do Golfo, enriquecem a capital e além da multiculturalidade, benefeciam a Jordânia em termos comerciais e financeiros. As organizações internacionais para toda a região, também se instalaram em Amman, devido à centralidade e estabilidade Jordana.

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Sendo a população Jordana maioritariamente Árabe, Muçulmana e de tradição Sunitas, não há impedimentos à prática e celebração de culto dos vários grupos Muçulmanos e Cristãos

Amman é uma capital que merece bem mais do que um olhar passageiro e normalmente os visitantes em grupos organizados não têm tempo para se ‘’perderem’’ em Amman, para saborearem o ambiente da capital. A cidade das colinas, é caótica e desorganizada quanto baste, mas ainda tem uma escala humana, tem milénios de história fascinante, mas escassos vestígios históricos, tem vários povos e culturas, mas um único espírito, o do trabalho, e uma cultura, a vasta e abrangente cultura Árabe, de tolerância e afectos.

Mas Amman é essencialmente uma cidade de gente que vive e trabalha, de centenas de milhares de refugiados que fizeram do Reino Hachemita da Jordânia, a sua casa de acolhimento, de estudantes e de trabalhadores estrangeiros. É uma cidade vasta, vibrante, barulhenta, antiga e tradicional, mas em simultâneo, contemporânea.

Amman

Cheguei a Amman, vindo de Madrid Barajas e mais uma vez perdi-me no ‘’terminal 4’’ do aeroporto da capital Espanhola. Confesso que o tal ‘’terminal 4’’ é uma maravilha da Arquitectura contemporânea, obra do megalómano Richard Rodgers, mas parece uma Babilónia caótica. Ao gigantismo desmesurado dos dois quilométricas e intermináveis terminais, o ‘’4 HJK’’ e o ‘’4MRSU’’, onde devem caber umas quantas catedrais Europeias, alia-se a mais completa falta e falha dos sistemas de informação, tanto a nível humano, como técnico. Como é possível que a tamanha beleza e monumentalidade corresponda tanta desorganização. Enfim, continuarei a fazer escala no ‘’terminal 4’’ de Barajas e continuarei a perder-me por lá. Como único consolo cabe-me registar que são os próprios Espanhóis, aqueles que mais perdidos, e desorientados, navegam nos comboios eléctricos subterrâneos, sem motorista, que ligam as belas salas hipostilas do ‘’terminal 4’’.

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Foi a primeira vez que viajei na ‘’Royal Jordanian’’ e gostei, gostei muito mesmo. Aterrei no ‘’Aeroporto Rainha Alia’’, em Amman. O nome bonito deve-se ao facto de, há algumas dezenas de anos, o avião onde viajava a Rainha Alia, casada com o Rei Hussein da Jordânia, se ter despenhado ali, naquelas pistas.

Fico sempre agradavelmente impressionado com a rapidez e simpatia com que sou tratado em muitos aeroportos, o que nunca aconteceu nesta ‘’minha pouco ditosa pátria madrasta’’. Estou a imitar Jorge de Sena.

Em poucos minutos, já com a minha bagagem, vejo um Jordano engravatado, guia oficial identificado, de um operador turístico Jordano, com um cartaz no qual estava escrito o meu nome. Espantado, mas animado, senti-me quase como um político Tuga em visita oficial ao Reino Hachemita. Tratámos rapidamente do visto de entrada individual, com o preço de 10 Dinares, ou 10 Euros, para ter completa autonomia de atravessar as fronteiras Jordanas para Israel, Síria, Palestina e Egipto, individualmente e de forma autónoma. Apenas dez minutos depois de aterrar, fui bem instalado num carro com motorista, apenas eu, e encontrava-me já a caminho de Amman. Em menos de 30 minutos encontrava-me instalado num magnífico quarto, no confortável ‘’Hotel Toledo’’, de 3 grandes e brilhantes estrelas, no centro da capital. Nem tive que carregar bagagem, nem fazer check in, o meu companheiro motorista tratou de tudo. Eu que não gosto, nem fui habituado a mordomias pseudo, e pequeno burguesas, porque tenho bons braços, boas pernas e sei ‘’desenrascar-me’’ até em Quechua, ou Swahili, se tal for necessário, estranhei a forma de tratamento. Mas como se costuma dizer: ‘’está feito, está morto’’, nunca mais me lembrei do assunto.

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Só na última noite em Amman, senti que a minha chegada à Jordânia, não tinha sido muito normal, a não ser que um tipo de recepção e tratamento individualizado, muito pessoal e intimista, fosse reservado a todos aqueles que entrassem no Reino da Jordânia. O que não me parecia ser, nem prático, nem viável.

Tinha regressado à capital, num final de tarde, bem quente de Agosto, vindo do Sul do País, de Petra e Wadi Rum, pela auto-estrada do deserto. Depois de cerca de 300 quilómetros, num autocarro com poucos passageiros, que foi despejando nos muitos hotéis de luxo de Amman, até que chegado à minha ‘’residência oficial Jordana’’, no ‘’Toledo’’, procurei informar-me na recepção, como seria a melhor forma de, na manhã seguinte, chegar ao aeroporto Rainha Alia. Fui prontamente informado de que teria apenas, que esperar no ‘’Lobby’’, à hora combinada e que me foi indicada, por um transporte para o aeroporto. Quando perguntei como reconheceria o dito transporte e se o ‘’transfer’’ pertencia ao hotel, responderam-me com a simpatia, eficiência e prontidão característica dos Jordanos: ‘’…não há problema, eles reconhecem-no…’’ e não voltei a pensar no assunto.

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Na manhã seguinte, com pontualidade britânica, um carro tamanho XL, que não era um táxi, nem um mini-bus, com motorista e um acompanhante também engravatado, que se identificou como sendo executivo da tal agência oficial de turismo Jordana, veio recolher-me no ‘’Toledo’’ e transportar-me ao aeroporto. Como sou um viajante sortudo em termos linguísticos, mantivemos uma animada conversa na língua de Cervantes, temperada com açúcar Colombiano, pois o meu novo amigo executivo, chamado Ramadhan, como o nome sagrado do nono mês do calendário Islâmico, era filho de uma Colombiana, casada com um Jordano. Foi ele que me acompanhou ao balcão da ‘’Royal Jordanian’’, fez o check in, tratou da bagagem e esteve ao meu lado no tradicional ritual de despejar bolsos, raio x, descalçar e apalpar, que acredito deva ser já o maior acto colectivo mundial, celebrado como uma nova religião monoteísta, de carácter universal, em todos os aeroportos do mundo. Eu já estou tão habituado a estas intimidades, em público, que até começo a gostar e a retirar certos prazeres ocultos. Se calhar estou a ficar exibicionista.

Como o meu registo de escrita é demasiado coloquial, pseudo intimista e desorganizado, usando e abusando de prolepses, (antecipando acontecimentos futuros na narrativa), e analepses, (fazendo relatos de acontecimentos anteriores ao tempo presente da história, ou mesmo do início da acção), e outras anacronias, não pela necessidade da narrativa, mas apenas devido à minha forma caótica de escrita. Tenho agora necessidade de recuar no tempo até à semana anterior à minha partida para a Jordânia, para contar uma pequena história:

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Não houve planeamento adequado para a viagem à Jordânia. Era um destino há muito ansiado, mas sempre adiado pela antecipação de outras viagens e por eu o considerar como um destino caro, para uma viagem curta. Foi assim que pouco mais de 1 semana antes da viagem para Jordânia, sei que vou para a Jordânia.

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Agora duas informações não fundamentais, mas adequadas ao interesse de cada um: os vistos de entrada podem ser concedidos de forma gratuita, e completamente aleatória, a grupos de 5 pessoas, desde que chegadas no mesmo voo. Não necessitam de ter qualquer vínculo entre si, nem que o operador seja o mesmo. A única condicionante neste procedimento é que, para atravessar as fronteiras terrestres Jordanas, o façam em conjunto todos os elementos englobados no visto de grupo. Esta cláusula, adequada para a maioria dos visitantes, tornava-se demasiado inibidora para os meus propósitos da viagem.

Estão isentos do pagamento de taxas de saída, todos os voos de carreira regular, sendo obrigados ao pagamento das mesmas, todos os voos charter.

Parti para Amman com o mesmo espírito com que me levanto todas as manhãs para ir trabalhar, é apenas mais uma viagem, como se fosse mais um dia, que começa e que termina, sem ideias preconcebidas, preconceitos e complexos, de espírito aberto, livre e curioso, apenas com a bagagem essencial e dinheiro quanto baste, ou quanto haja, máquina fotográfica, cartões, caderno de notas e um livro.

Por terras do antigo testamento.

 

Eu, aprendiz de feiticeiro, no viajar e no escrever, tenho por hábito dizer, à família e aos amigos, que as viagens não se contam, vivem-se. Mas caio, demasiadas vezes, na tentação de as contar. Não sei se para recordar, se para transmitir, ou se por puro exibicionismo. Sou homem de poucas certezas e de muitas dúvidas, por isso, enquanto tiver algum engenho e escassa arte, escreverei até que a mão me doa, que os olhos me ardam e que o espírito adormeça.

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Todos nós crescemos e somos educados, com base em preconceitos, copiados e decalcados das influências culturais dominantes na região, país, ou continente, em que nos inserimos geograficamente. A influencia da comunicação social Anglo-Saxónica, é exagerada e dominante, estabelecendo padrões culturais tendenciosos e discriminatórios, em relação a algumas regiões, deste nosso planeta cada vez menos azul e cada vez mais cinzento. O Médio Oriente é a grande vítima, em termos de imagem, desse conjunto de razões erradas em espíritos mesquinhos.

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Os povos do Médio Oriente, maioritariamente de religião e identidade cultural Muçulmana, são o exemplo de uma identidade cultural milenar, riquíssima e que praticou a tolerância ao longo de séculos. Os diversos povos, de culturas ancestrais, que se estendem desde as margens do Mediterrâneo Oriental, aos grandes rios Tigre e Eufrates, desde as montanhas do Cáucaso ao golfo Pérsico, recebem-nos de braços e corações abertos.

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A Jordânia é um país de longa e rica história que se confunde com as ‘’histórias’’, de bons e maus costumes, contadas na Bíblia. O território que hoje compõe a Jordânia, é parte de uma região historicamente muito rica. Remonta ao ano 2.000 a.c., quando os povos Semitas formaram uma colónia junto ao rio Jordão, no território de Canaã. Essa terra fértil atraiu invasores de passagem e ocupantes temporários ou permanentes. Assim nasceram a cresceram as civilizações do vale do Jordão, e por lá passaram, durante milénios, Egipcíos, Israelitas, Assírios, Babilónios, Persas, Gregos, Romanos, Muçulmanos Árabes, Cruzados Cristãos, Turcos Otomanos e colonizadores Europeus nos inícios do século XX.

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De Amman a Jerusalém; pela margem ocidental, a Palestina.

Depois de um delicioso pequeno-almoço madrugador, digno de um profeta, tomado no ‘’Toledo’’, doces pedaços de melancia, deliciosas fatias de melão, iogurte com pêssegos e cereais, sumos naturais, diversos tipos de queijos e pães com sementes, e para terminar café, ou chá. Partimos de táxi, eu e as minhas companheiras, rumo à fronteira entre a Jordânia e a Cisjordânia.

Confesso que nessa manhã ainda sentia dificuldade com os nomes das meninas. O ‘’Tico’’ e o ‘’Teco’’, que são as duas partes que compõem o meu cérebro, e têm imensa capacidade para decorar livros inteiros, ‘’filmes de autor’’ e dinastias complexas Hititas, Egípcias ou Abissínias, mas pouco espaço livre de memória para nomes de pessoas, levaram algumas horas a fixar os nomes da Nídia, Susana, Al, Olga e Lili.

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Eu segui, no táxi, ao lado do nosso novo amigo, o Sayed, um simpático e conversador Jordano, de tradicional bigode e vasta cultura geral sobre a temática Árabe. As cinco ‘’compañeras’’ seguiam nos dois bancos posteriores. Combinámos o percurso até à ‘’complicada’’ fronteira entre a Jordânia, Palestina e Israel.

Saídos de Amman, por vias rápidas e circulares externas, e descendo em direcção ao vale de um estreito e tímido Rio Jordão, em 20 minutos, o táxi do Sayed deixou-nos no pátio do posto fronteiriço Jordano. Um edifício baixo e sombreado, de espaços reduzidos, mas onde sentimos que a burocracia Árabe funcionava. Logo na primeira sala de controlo dos passaportes e vistos de entrada no Reino Hachemita, surgiu o primeiro problema, os vistos de entrada da Olga e da Lili, eram de grupo e não lhes permitiam saídas e entradas individuais no território Jordano. Passo a explicar, quando elas chegaram à Jordânia, procedentes de Istambul, num voo da ‘’Turkish Airlines’’, os passageiros não Jordanos, foram agrupados em grupos aleatórios de 5 pessoas, e os vistos passados gratuitamente. Quem gosta de viajar, ao sabor de alguma aventura, tem que saber tomar decisões rápidas e adequadas, que não inviabilizem a finalidade da aventura, mas sempre no espírito de grupo e de um companheirismo saudável. A Olga e a Lili, prontificaram-se a regressar a Amman, de imediato, chamámos o nosso amigo Sayed, que as levou de regresso à capital Jordana. Combinámos reencontrar-nos à hora de jantar, no ‘’Toledo’’, em Amman.

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O espírito prático e a capacidade de improviso, são fundamentais quando nos deslocamos, sem ser em grupo previamente organizado. E A Olga e a Lili, demonstraram estar dentro dessa forma de agir, ao optarem de imediato por regressar a Amman, enquanto nós os quatro seguiríamos para Jerusalém.

As formalidades de saída da Jordânia foram rápidas e em poucos minutos estávamos num mini autocarro, sobre a Ponte Rei Hussein, em direcção ao posto fronteiriço de Israel, que controla a entrada e atravessamento da Palestina, (ou Margem Ocidental, ou Cisjordânia). As entradas e saídas do território teoricamente autónomo, governado pela Autoridade Palestiniana, a partir da cidade de Ramallah, são controladas por militares de Israel.

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Já na zona Israelita, onde a ponte passa a chamar-se Allenby, a estrada alarga-se junto a um vasto edifício de cor ocre, com barreiras metálicas, formando corredores de acesso à zona de controlo. A forte presença militar Israelita, parecia saída de uma ‘’passerelle’’ de Paris ou Milão, altos e bem constituídos, com calças camufladas de cor verde e t-shirts civis, justas aos peitorais e bícepes, fizeram-me sentir um trapo velho e amarrotado. E ainda o dia estava a começar.

Largas centenas de Palestinianos, agrupavam-se, em longas filas compactas de famílias inteiras, carregados de pesadas bagagens e grandes depósitos para água, aguardavam a vez e autorização para passar a fronteira da sua pátria ocupada, a Palestina, para a vizinha Jordânia. Os corpos cansados, as roupas escuras e os olhares tristes, como um grito de medo, impressionaram-nos fortemente.

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Lembrei-me de muitas fotografias, tiradas ao longo do século XX, nos locais mais diversos e dispersos desta nossa Terra, povoada de alguns homens injustos e de muitas vítimas. Em todos esses documentos, para ver e não esquecer, para que não se repitam, vi o mesmo olhar, não sei se transmite o medo, ou a total ausência de esperança.

Naquela manhã quente de Agosto de 2010, senti-me como que ferido e incomodado por sair da minha zona de conforto, porque todos nós temos uma de protecção e conforto, dentro da qual observamos a realidade, numa sala confortável, sentados frente a uma imagem. Quando escapamos da bolha protectora, em que vivemos e nos movimentamos quotidianamente e nos deparamos com os factos, sentimos o cheiro da realidade e da verdade. Então sentimos, aquela espécie de dor indecifrável e a ausência de palavras e de reacções, que nos tolhe o pensamento e inibe o movimento. Foi assim que me senti, profundamente triste, chocado e com uma estranha vergonha de os olhar, como se fosse cúmplice e carrasco daquela imagem, mesmo tendo a certeza de que nunca o havia sido.

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Eu tive vontade de gravar no cartão digital, as imagens daquele grupo, mas a mão não se moveu mais do que para a abrir a máquina fotográfica e a nossa fotógrafa profissional, a Nídia, ainda guardou algumas imagens, mas um militar Israelita chamou-nos, pediu as máquinas e apagou as poucas fotografias. Perante o nosso gesto de caminhar em direcção ao final da longa e larga fila de Palestinianos, os militares Israelitas, chamaram-nos e informaram de que não seria necessário aguardar pela nossa vez, pois não sendo Palestinianos, procederiam de imediato ás formalidades de entrada em Israel, mas na verdade estávamos a entrar na Cisjordânia, ou na Palestina, um semi-estado, com governo e território próprios. Só escassas dezenas de quilómetros depois, na periferia de Jerusalém, entramos de facto, em território do Estado de Israel.

Segundo o professor universitário de Heidelberga e Basileia, Georg Jellinek, (século XIX e início do século XX), na sua ‘’Teoria Geral do Estado’’, o Estado compõe-se por três entidades, ’’… Povo, Território e Poder…’’. Na Palestina existe parte de um povo disperso, um território fragmentado, cercado por um muro e um poder aparente que assenta num executivo e num parlamento, mas que não tem sequer o poder e a autonomia de controlar as suas próprias fronteiras. Será isto um estado? Eu não sei, mas tenho sérias dúvidas de que possa ser encarado como tal.

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As nossas formalidades aduaneiras, junto das autoridades israelitas, foram eficientes, mas exageradamente lentas, o que se compreende devido aos receios de atentados terroristas. Questionaram-nos acerca do destino final, Jerusalém, do facto de não transportarmos bagagem, apenas máquinas fotográficas, se tínhamos família ou amigos em Israel e se entraríamos em contacto com eles. Se ficaríamos de noite em Jerusalém, ou em outro qualquer local de Israel, ou se regressaríamos à Jordânia, a Amman. Foram simpáticos e além de um Inglês correcto, falaram comigo num perfeito Espanhol. Atravessámos vários balcões de controlo e pagámos as necessárias taxas de entrada.

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Eis-nos na Palestina e começou uma nova etapa, procurar transporte para Jerusalém. Os táxis abundam, mas são caros e nos pequenos autocarros para 8 passageiros, um bilhete de ida custa cerca de 7 Euros. Em poucos minutos, nós, os quatro Tugas, com uma família Italiana de origem Jordana, um casal com dois filhos pequenos, vindos de Mestre, Itália, percorríamos já a árida Palestina, em direcção a Jerusalém. A viagem foi curta e rápida, sem paragens, e a paisagem agreste pontuada com algumas barracas em chapa de zinco, dispersas pelas colinas de terra seca. Reduzidos rebanhos, de esquálidas cabras, pontuavam a região desértica. Senti-me como se viajasse num percurso rápido, entre o Antigo e o Novo Testamento, mas não havia vida nesse caminho, apenas a desolação de uma terra de ninguém. Só quando cheguei à periferia de Jerusalém, a paisagem física e humana mudou.

Dois países, tão perto etão distantes; um eternamente sacrificado, a sofrida Palestina. O outro sempre priveligiado, Israel. Como escreveu Orwell ”…todos os homens são iguais, mas uns são mais iguais do que outros…”. Infelizmente esta é a verdade, por esta razão emuitas outras é que o mundo é um lugar imperfeito.

Jerusalém: breve história do século XX.

A decadência e queda do Império Otomano, no final da primeira Grande Guerra, (a história de T.E. Lawrence), acaba por significar a chegada dos Britânicos e o General Allenby, entra pela porta de Jafa, na cidade velha de Jerusalém, em Dezembro de 1917. O exército Britânico ocupa a cidade e em 1922, a Liga das Nações, na Conferência de Lausanne, confia ao Reino Unido, a administração da Palestina. Até 1948, a população da cidade triplica, sendo dois terços de Judeus e um terço de Árabes, (Muçulmanos e Cristãos). A situação tensa entre Árabes e Judeus, na Palestina, dava lugar a motins que tiveram especial gravidade nos anos de 1920 e 1929.

Com a administração Britânica a cidade continuou a crescer, para Oeste e para Norte e criou-se a Universidade Hebraica.

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Com o final do ‘’Mandato Britânico da Palestina’’, o ‘’Plano da Partilha das Nações Unidas de 1947’’, recomendou a criação de um regime internacional, em especial na cidade de Jerusalém. O regime especial internacional, deveria vigorar por um período de 10 anos, após o qual seria realizado um referendo, pelo qual, os habitantes da cidade, poderiam decidir qual o futuro estatuto da cidade. Este plano nunca foi implementado, devido à retirada dos Britânicos, à declaração da independência de Israel e à Guerra de 1948. A guerra levou ao deslocamento das populações Árabe e Judaica para fora da cidade. O inevitável cortejo de arbitrariedades, violência, expulsões e execuções, voltou a manchar o chão milenar e sagrado, para as três religiões monoteístas, de Jerusalém.

A cidade acabou por ser dividida entre Israel e a Jordânia, pela linha de armistício e cessar-fogo de 1949, que atravessava o centro de Jerusalém. Os muros e barreiras de arame farpado, passaram a separar as zonas Leste e Oeste, cravando mais uma chaga no coração da cidade. O estado de Israel declarou Jerusalém como sua capital, após e sua criação, e a Jordânia anexou formalmente a zona Oriental em 1950, assumindo o controle da cidade velha. O acesso de Israelitas aos lugares sagrados Judaicos foi vedado, pelas autoridades Jordanas, e o acesso aos locais sagrados cristão foi limitado. As Mesquitas da Rocha e de Al Aksa foram renovadas e ampliadas. Mais uma vez as religiões, embora diferentes umas das outras, em vez de unirem os povos e culturas, separavam-nos e antagonizavam-nos.

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Com a ‘’Guerra dos seis dias’’, em 1967, Israel ocupou Jerusalém Oriental e passou a dominar toda a cidade. O acesso aos lugares sagrados do Judaísmo foi restabelecido e o Monte do Templo permaneceu sob a jurisdição de um Muçulmano, o ‘’Waarf’’. O bairro Marroquino, junto ao ‘’Muro das Lamentações’’, foi desocupado e destruído, para dar lugar a uma grande praça adjacente ao muro. Nestas últimas décadas, os colonatos Israelitas têm-se expandido para Leste da cidade, criando uma cintura de regiões de maioria de população Judaica, nesses bairros.

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Depois de Israel ter aprovado a ‘’Lei de Jerusalém’’, que declara a cidade como capital unida do Estado de Israel, O ‘’Conselho de Segurança das Nações Unidas’’, aprovou uma resolução que declarava essa lei, como uma violação do Direito Internacional, apelando a que todos os estados membros, retirassem as suas embaixadas da cidade.

O estatuto de Jerusalém, em especial o dos seus locais sagrados, continua a ser a questão central e insolúvel do conflito Israel/Palestina. Os colonatos Israelitas continuam a expandir-se por locais históricos e em terrenos confiscados aos Palestinianos. Os Muçulmanos continuam a negar qualquer laço histórico entre Jerusalém e o Judaísmo. Os Palestinianos encaram Jerusalém, como capital, do futuro Estado Palestiniano. Os limites da cidade e o tipo de ocupação urbana dos territórios envolventes de Jerusalém, têm sido tema de conversações permanentes, e sempre infrutíferas, entre as diversas partes em conflito, sempre tendo como intermediários outras partes e organizações internacionais.

Será possível, um dia, que Jerusalém seja um símbolo de paz para os homens, um lugar sagrado, aberto a todas as comunidades e religiões?

Eu acredito que sim.

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Jerusalém está situada a Sul do Planalto da Judeia, que inclui o Monte das Oliveiras, a Leste, o Monte Scopus, a Nordeste. A cidade velha ergue-se no centro de Jerusalém, cercada por vales e leitos de rios secos, os ‘’wadis’’. Nos tempos Bíblicos, Jerusalém foi cercada por amendoeiras, oliveiras e pinheiros, mas ao longo de milénios de guerras, a magnifica paisagem envolvente, foi destruída e os agricultores passaram a construir terraços de pedras sobrepostas, para protegerem os terrenos, essa é a imagem que os nossos olhos captam em redor de Jerusalém.

O problema de abastecimento de água à cidade permanece desde há milénios, o elaborado sistema de aquedutos, cisternas e reservatórios, construídos ao longo de séculos, assim o demonstra.

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Israel é um país de reduzida área e Jerusalém está localizada no interior, mas não muito longe do Mediterrâneo e de Tel Aviv, (60 quilómetros), encravada nos territórios ocupados da Cisjordânia, a Palestina, na margem Ocidental do Jordão. O Mar Morto está a apenas 35 quilómetros, a cidade de Belém está nos arredores e Jericó e Ramallah, na Palestina, também estão bem próximos de Jerusalém. Esta exiguidade territorial de Israel e do futuro estado Palestiniano, onde as distâncias se contam, no terreno, apenas por poucas dezenas de quilómetros físicos, estão separadas por uma barreira cultural, social, religiosa, política, de direito e de facto, que os homens souberam construir, mas que não querem, ou não sabem, ou não têm a coragem de destruir. Esta é a realidade e não devemos ter a ilusão de que na cidade Santa de Jerusalém irão acontecer feitos milagrosos de origem divina, de qualquer das três grandes religiões monoteístas, apenas a boa vontade dos homens poderá construir o verdadeiro milagre terreno e de origem humana, o milagre da Paz.

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‘’…Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que se resseque a minha mão direita. Apague-se-me a língua e o paladar, se não me lembrar de ti, se não preferir eu Jerusalém à minha maior alegria…’’ (Salmos 137:5-6).

 

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Hoje, Jerusalém é a maior cidade de Israel, com mais de meio milhão de habitantes, Judeus Israelitas e Árabes da Palestina, (incluindo 14 mil Cristãos), é também o mosaico cultural e religioso que se pode adivinhar numa cidade santa e milenar. A cidade velha, belíssima e extensa, dividida em diversos bairros culturais e religiosos antagónicos, explode periodicamente em surtos de violência incontrolável, entre essas mesmas comunidades, em redor dos locais sagrados e de culto. Jerusalém sofre debaixo da intolerância e da pouca boa vontade dos homens, quando afinal seria bem fácil encetar o primeiro gesto de um abraço entre irmãos desavindos. Em redor do Monte do Templo, da esplanada das Mesquitas, da Via Dolorosa e até dentro do próprio Santo Sepulcro, é demasiado forte a linha que todos separa e demasiado ténues os laços que todos deveriam unir. Todas as partes em conflito se esquecem de que o mundo é bem maior do que os problemas de cada uma delas. E de que a paz é o único caminho.    

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Os locais históricos e religiosos estão bem preservados, mas é uma cidade em permanente expansão, de novos bairros, universidades, pólos culturais e de investigação. Deste crescimento também nasce o confronto, o conflito, ao invés da luz. Pela implantação física e geográfica da própria cidade, Jerusalém está encravada na Palestina e rodeada por bairros e cidades satélites com uma maioria de populações Árabes Palestinianas, por estas razões, cada rua que se rasga, ou cada edifício que se constrói, na periferia envolvente da cidade, faz sempre parte de um plano político de estratégia de ocupação de território e provoca reacções e conflitos. Assim se vive em Jerusalém.

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É recorrente afirmar-se que Jerusalém é a cidade santa das três grandes religiões monoteístas: o Cristianismo, o Islão e o Judaísmo, mas a natureza desta santidade difere nas três religiões:

Para os Judeus, a própria cidade é santa, foi escolhida por Deus na sua aliança com David. Jerusalém é a essência e o centro da existência e continuidade espiritual e nacional Judaica. Durante mais de 3 milénios, desde os tempos dos Reis David e Salomão e da construção do ‘’Primeiro Templo’’, Jerusalém tem sido sempre o centro e objectivo da evocação Judaica. Há mais de 2000 anos que os Judeus se viram na direcção de Jerusalém e do Monte do Templo, quando rezam, onde quer que estejam.

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Para os Cristãos, Jerusalém é a cidade dos lugares santos da vida e paixão de Jesus Cristo, locais de peregrinação, prece e devoção, tradicionalmente identificados durante os primeiros séculos de Cristianismo, quando da conversão do Imperador Romano Constantino.

Na tradição Muçulmana, o Monte do Templo é denominado como ‘’o mais remoto santuário’’ de onde o Profeta Maomé, acompanhado pelo Arcanjo Gabriel.  Fez a ‘’Jornada Nocturna ao Trono de Deus’’, (Alcorão, Sutra 17.1, Al-Isra).

A ‘’lei de Protecção dos Lugares Santos’’, nº 5727 de 1967, garante a liberdade de acesso aos locais sagrados para os crentes das diferentes religiões.

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A soberania Judaica de Jerusalém, terminou no ano de 135 d.c., com  a repressão da ‘’Segunda Revolta Judaica’’ contra Roma, e só foi retomada em 1948, com a criação do Estado de Israel. Mas ao longo de quase 2000 anos de história e de ocupação e domínio de diversos poderes, as comunidades Judaicas permaneceram em Jerusalém, embora muitas vezes de forma residual, mas desde 1870 as populações Judaicas passaram por um enorme crescimento. Com a guerra de 1948 e a consequente divisão da cidade, as Sinagogas e as academias religiosas, localizadas no bairro Judaico da cidade velha, foram muito destruídas. Com a reunificação da cidade, por Israel, após a ‘’Guerra dos Seis Dias’’, em 1967, procedeu-se à reconstrução de todo o bairro Judaico.

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Em cada guerra e após cada vitória de uma das partes em conflito, aquela que deveria ser a mais nobre e sagrada das cidades, a cidade da Paz, sofre o estigma de novos muros e barreiras, que separam não só os corpos dos homens, mas também os espíritos e os corações.

Estas linhas e imagens são um ténue retrato de um dia em Jerusalém, uma cidade que deveria ser de todos e para todos, porque as pedras de Jerusalém são património histórico, cultural e religioso de todos nós, até dos agnósitcos, como este céptico que aqui escreve e que procura um caminho, entre muitos percursos, mas nada encontra.

 

A margem ocidental do Jordão: Palestina

Parti de Aman, na companhia de 5 novas amigas, encontradas e conhecidas, lá pelas horas tardias de uma apressada madrugada, no átrio do hotel ”Toledo”. Da capital Jordana à fronteira da Palestina, junto ao rio Jordão, escassas dezenas de minutos decorreram. Apenas a Susana, a Al, a Nídia e eu conseguimos cruzar a linha de todos os conflitos e penetrámos na Cisjordânia.

A ponte Allenby, (denominação Israelita), ou ponte Rei Hussein, (denominação Jordana), ou ponte Al Karameh, (denominação Palestiniana), cruza o Rio Jordão, entre o Reino Hachemita da Jordânia e a Cisjordânia, ou anteriormente chamada ‘’margem Ocidental’’, ou Palestina. Um estado onde com um povo, um território, mas sem um poder próprio e autónomo.

A ponte liga Jerusalém e a cidade de Jericó, já perto da fronteira, à Jordânia. Foi construída, pela primeira vez, em 1918, pelo general Britânico Allenby, com os restos de uma velha ponte da época Otomana. Destruída com a ‘’guerra dos seis dias’’.

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Para os Palestinianos, milhares em cada dia, atravessar a ponte, representa o pesadelo de uma espera longa, em filas intermináveis, sofrendo de um tratamento humilhante. Com as celebrações do Ramadão e as datas das peregrinações ás cidades santas do Islão, Meca e Medina, o desafio de atravessar a ponte, torna-se ainda mais angustiante.

Calcula-se que cerca de sete mil Palestinianos, segundo a organização Palestiniana ‘’Karama’’, (dignidade), atravessem diariamente a ponte, fazendo o percurso entre Ramalah, capital da Palestina, e Amman, em 12 horas. Durante este percurso, os Palestinianos são obrigados a trocar de autocarro seis vezes e passar outros tantos postos de controlo, onde são continuamente revistados e humilhados. Enquanto nós, Europeus, podemos fazer o mesmo percurso, incluindo as rigorosas formalidades de passagem das fronteiras, em pouco mais de 1 hora.

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A ponte é o único portão de saída, para mais de 2 milhões e meio de Palestinianos, que não podem deixar a Cisjordânia por nenhum outro ponto. As longas esperas a que os palestinianos são submetidos, obrigam a largas permanências ao Sol, em pé, de famílias inteiras. Os custos são excessivamente elevados, cerca de 100 Euros, em taxas, para uma família palestiniana, com uma média de 5 filhos, o custo final da vigem é enorme e despropositado. As saídas de palestinianos para a Jordânia, devem-se exclusivamente a negócios, estudos, receber tratamento médico e a visitas esporádicas a familiares. Não devemos esquecer que são cerca de 2 milhões, os refugiados palestinianos a viver na Jordânia, onde constituem um terço da população.

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As estimativas apontam para que, em cada ano, mais de um milhão e meio de pessoas atravessem a ponte, 99% de palestinianos e 1% de visitantes e trabalhadores estrangeiros. Os Palestinianos estão proibidos de fazer este percurso de carro.

Entre a cidade de Jericó, bem perto da fronteira Jordana, a cerca de 5 quilómetros, e a ponte, há 3 barreiras com pontos de controlo, onde os Palestinianos são sucessivamente confrontados com multidões ansiosas e uma infinidade de papéis e autorizações, para conseguirem prosseguir. Nos postos há, propositadamente, poucos funcionários, militares maioritariamente.

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Apesar da fronteira da ponte Allenby, estar aberta, alguns dias até à meia-noite, os autocarros de passageiros começam a chegar à cidade de Jericó, a partir das 3 horas da manhã, para daí partirem para a fronteira com a Jordânia. Mas o regresso é quase sempre a pior parte da viagem, pois implica uma espera desesperada, de várias horas, muitas vezes até seis horas, dentro de velhos autocarros, em plena terra de ninguém, entre a Jordânia e a Cisjordânia. Durante este suplício, os passageiros Palestinianos são proibidos de sair do veículo imobilizado, mesmo para tentar comprar água. Mesmo os idosos e crianças estão sujeitos a esta tortura, com temperaturas de Verão a subirem a valores inimagináveis.

A passagem de um simples posto fronteiriço, depende apenas, da boa vontade e caprichos de jovens soldados Israelitas, pouco maiores do que adolescentes.

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A Cisjordânia, ou Margem Ocidental, é um território Palestiniano, localizado na margem Ocidental do Rio Jordão e sob ocupação de Israel. É reivindicado pela Autoridade Palestiniana. Está limitado e encravado na Jordânia e no estado de Israel. Até 1948, integrava a parte remanescente da Palestina histórica sendo dividida em três partes, uma passou a integrar o Estado de Israel e as outras duas, faixa de Gaza e Cisjordânia, ambas de maioria Árabe-Palestiniana, deveriam integrar um futuro Estado Palestiniano, a ser criado conforme a Resolução nº 181 das Nações Unidas, de 1947, com a concordância da antiga potência colonial da zona, o Reino Unido.

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Com a sucessão de conflitos de triste memória, em 1967 na ‘’Guerra dos Seis Dias’’, estes territórios foram militarmente ocupados por Israel.

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Todas as guerras desde a proclamação unilateral da independência de Israel, foram desencadeadas pelos países Árabes, e todas foram ganhas, com ocupação de territórios, por Israel. Se o tempo e as vontades dos homens pudessem, hipoteticamente, voltar para trás, talvez todo este conflito nem chegasse a ter existido. As questões levantadas no pós-guerra, com a derrocada dos impérios coloniais Europeus e pela finalização de mandatos de ocupação no Médio Oriente, criaram situações insustentáveis e que perduram até aos nossos dias. Infelizmente, os efeitos dessas divisões, feitas no papel, por Franceses e Britânicos, na Conferência de San Remo e com os acordos de Sykes Picot e Balfour, perduram e continuarão a impedir a paz, entre todos os povos do Médio Oriente. Só um acordo global e político, com um total empenhamento dos países da região, de todas as potências emergentes e das grandes potências, sob o alto patrocínio das Nações Unidas e com desmilitarização de todo o Médio Oriente, poderá trazer uma paz estável e duradoura. Neste inglório tabuleiro de xadrez da geopolítica internacional, todos são culpados e existe uma única vítima, os milhões de Palestinianos, um povo sem território, nem poder, martirizado, manipulado e usado não só pelos ocupantes, mas também pelos vizinhos. Os acordos entre o Egipto e Israel, que custaram a vida e Sadat e Rabin foram um passo de grande importância para a paz no Médio Oriente, mas nunca se esteve tão perto de um acordo final, como nos últimos dias do segundo mandato de Clinton, quando Arafat, em Camp David, por teimosia, ou por pressões diversas, se recusou a viabilizar aquele que poderia ter sido um momento histórico para a região e a humanidade.

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Actualmente, algumas porções dispersas destas duas áreas, passaram a ser administradas pela Autoridade Palestiniana, mas Israel mantém o controlo total das fronteiras e está a construir um ‘’muro de separação’’ com 700 quilómetros de extensão e que recorta o território da Cisjordânia, como uma manta de retalhos, anexando porções significativas de território e isolando milhares de famílias Palestinianas. A referida Resolução nº 181 das Nações Unidas, previa uma anexação pelo Estado de Israel, de 56% da área do antigo Mandato Britânico da Palestina, na margem Ocidental do Rio Jordão, enquanto 44% da área seria destinada a um futuro Estado Palestiniano, que à época ocupava 98% da área partilhada. Hoje Israel controla mais de 78%, do antigo mandato Britânico, excluído o território Jordano. Esta situação pendente há mais de 50 anos, já nos habituou à cruel imagem de um conflito permanente e interminável, quando afinal, tudo é fácil se os homens pensarem com os corações e não com as armas.

Esta viagem aconteceu num mês de Agosto, tempo de calor e de privações; no Ramadão. Parti e regressei sózinho, para um périplo pelo Médio Oriente. No segundo dia de viagem, atravessei a martirizada Palestina. Conquistei e partilhei amigos. Ganhei afectos e vivi momentos de angústia e tristeza, na travessia de uma estreita, escassa de territórios, mas plena de ambições, terra de um povo, que o egoísmo de alguns e a indiferença de muitos, não souberam e não quiseram tornar um estado soberano, em dignidade e direitos.Eu regressei, mas parte do meu coração ficou.

 

”Pedro on the road”

Um livro que é uma aventura, para ler e viver, através das palavras do Pedro. É importante escaparmo-nos da nossa zona de conforto, soltar amarras e partir à conquista do mundo. Afinal é tão fácil, basta querermos e como ”querer é poder”, eis-nos perante um Kerouac dos nossos dias, pela estrada fora. Para saborear e partilhar.

A entrevista:         http://youtu.be/7OJyOcmYdK8

O livro:                 http://youtu.be/YZ0QmB1YMJI